Educação não vem de berço, ela rege as relações sociais, por Jessika Sampaio

Senti um empurrão leve na minha mochila e ouvi um “pardon”. Era sábado, estava na parte francesa da Bélgica e a caminho da parte holandesa, onde moro. Trem cheio, dia quente e todo mundo com cara de espera, pois aqui, no sábado e domingo, também se espera horas pelo transporte coletivo.

As pessoas nesse pedaço de mundo mal se tocam, falam baixo em público, não gargalham e sempre estão dizendo “pardon” ou “excusé”. Mesmo nos bares e na única festa a que fui até agora não é tão confortável rir muito alto ou dançar como se não houvesse amanhã, coisas que eu sempre fazia em Fortalcity.

Sei que essa realidade de distanciamento acontece também na high society brasileira, mas eu nunca fui dela, minha realidade era outra.
Dentre as pessoas que conheço, que também não são da high society belga, há horários para comer e não se belisca a toda hora. Há muita polidez na fala, principalmente entre os mais velhos e as pessoas são sempre muito diretas. Não há meia palavra, meio termo, talvez eu vá ou talvez eu queira. É sim ou não. Isso instiga a gente a se programar sempre e cumprir o que fala, o que é muito bom. Mas no começo parece inquisidor.

A educação formal aqui começa cedo. Mães deixam seus filhos na creche aos três meses ou até antes. Criança aqui precisa aprender que tudo tem hora, regra e que tem que dormir só, tem que ficar sem peito, tem que chorar até cansar e aprender a não ter sempre perto amor e colo de pai ou mãe. No Brasil, pelo menos na minha família, até se deixa chorar, mas não é uma constante
– Come rapadura preta pro leite não secar!
– Põe casca de banana pro bico do peito sarar!
– O menino tá se esgoelando, traz aqui pra mamar!
Cuidar e comer são a base do bom nordestino.

Aqui se dá a fórmula, leite pronto, da máquina, mas há carinho, cuidado e preocupação com o futuro. Já se pensa na escola, faculdade, dinheiro para deixar e como dar suporte para que em breve a criança seja independente e cuide de si.

Sobre o método de criação, fiquei pensando que dizem que quando a criança não recebe atenção, amor ou cuidado suficiente na primeira infância, não há o desenvolvimento da parte empática do cérebro. Eu li num artigo científico aí. Aqui cada um cuida da sua vida, mas ajuda o próximo, muitas vezes por protocolo. Pensando em tudo isso chego à conclusão que talvez no Brasil o apoio que vejo pode ser resquício de um catolicismo enraizado por demais. Ajudar os pobres, fazer boas ações, mas sinto também empatia. Se faz por se ver na situação, já ter vivido ou querer fazer algo pelo próximo. Deve ter algum sociólogo ou filósofo que estudou ou estuda isso. Espero que tenha.

Uma vez comprei um biscoito para dar para uma amiga e fui questionada do motivo de eu ter feito aquilo:
– É sexta, hoje ela chega tarde, está cansada e isso vai alegrá-la.
– Muito doce da sua parte. – Me disseram.
Fiquei pensando que um gesto normal para mim era algo doce e inesperado aqui. Não estava planejado que eu fizesse isso.

Ao pensar e viver tudo isso começo a confrontar em mim boas maneiras, educação formal e questões culturais. Juntando minhas realidades percebi que a educação passa sim pelo oferecido pelo Estado e que ele ajuda a formar a população e os valores que vêm antes da escola, depois seguem para dentro das instituições de ensino e saem para a sociedade. A sociedade está todinha em cima da educação. Não tem pra onde correr. Em tempos de balbúrdia é preciso ter algo como norte, e a a educação é a bússola que aponta e diz como somos socialmente, culturalmente, politicamente e todos os outros ‘mentes’ importantes.

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

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