Duas idéias e o (anti)voto, por Emanuel Freitas

Horas antes de entregar-se à Polícia Federal para cumprir pena em Curitiba, o ex-presidente Lula (PT), discursando para militantes petistas (e, obviamente, para o mundo inteiro que acompanhava o dramático momento brasileiro), no último dia 07 de abril proferiu, dentre outras, as seguintes palavras: “eu não sou mais um ser humano, sou uma ideia misturada com a ideia de vocês […] Agora vocês são milhões de Lula”. Dali pra frente instalou-se uma infinita batalha judicial para garantir que Lula, preso, pudesse ter garantido seu direito de concorrer no pleito ora em curso. Todas as empreitadas jurídicas, como se vê, foram negadas. Mas, surgiram “milhões de Lula” nas redes sociais, nas convenções partidárias, nos discursos (até Eunício Oliveira, negando ser “petista” autodenominou-se “lulista”), nas máscaras etc. A “ideia Lula” mostrou-se viva.

Lula estava certo: tornou-se uma ideia, uma forte ideia. Mas, bem antes dele enunciar-se assim, a Ciência Política Brasileira, em especial com a obra de André Singer, já havia cunhado o termo “lulismo” para referir-se ao realinhamento de forças, expresso sobretudo a partir da eleição de 2006, em torno da figura do ex-presidente, que aglutinava antigas oligarquias (em especial do Nordeste), eleitores dos bolsões do país, dentre outros elementos, que traziam para o número de eleitores de Lula menos “petistas” tradicionais e um novo conjunto: os “lulistas”. Aqui no Ceará, a professora Monalisa Soares, por exemplo, defendeu importante pesquisa doutoral acerca das “narrativas” em torno do “lulismo” acionados nas campanhas de eleição e reeleição de Dilma Rousseff. Assim, nós já sabíamos que Lula era uma “ideia”.

O que Lula, e muitos de nós, não sabíamos é que não era ele a única “ideia” viva nessa eleição. Jair Bolsonaro, o “mito”,  também emergiria nessa categoria. Se já falávamos de um “lulismo”, eis que surge o “bolsonarismo” que, tal como seu alter ego, também centra-se na figura personalista que lhe dá forma, conteúdo e nome.  Se Lula representa (para seus eleitores/defensores) a ascensão social de inúmeros contingentes, a conquista de direitos, um Estado mais voltado para os pobres etc, Bolsonaro representa ações policiais mais enérgicas, a suposta defesa de “valores tradicionais”, o saudosismos pela ditadura e por uma ordem social policialesca, a “volta ao armário” de pautas identitárias e, acima de tudo, o “antipetismo”. Vemos, no HGPE, tanto candidatos “de Lula” como candidatos “do Bolsonaro”, de modo que, a confiar nas tendências postas pelas últimas pesquisas, teremos uma disputa entre Bolsonaro e Lula (Haddad), o que já vinha se configurando mesmo quando Lula constava nas pesquisa de intenção de voto.

Marina, Ciro e Alckmin, assim, demonstram sua inabilidade a esse jogo eleitoral por não terem alcançado a condição de “ideia”? Por continuarem “humanos” perderam a capacidade de disputa? Talvez. Veremos nos próximos dias. O fato é que uma eleição dessa forma conduzida (a ideia Lula encarnada e Haddad versus a ideia Bolsonaro) nos conduzirá a um segundo turno, caso haja, em que jogará papel determinante a oposição a essas ideias; ou seja, o que será mais forte no segundo turno para decidir a eleição: o antilulismo ou oantibolsonarismo?

Assim, o Brasil caminha, mais uma vez, nos passos do bom e velho personalismo. Ou não.

P.s: Na história política brasileira, poucos tornaram-se “ideias”. Antônio Carlos Magalhães, por exemplo, orgulhava-se de ser, junto com Juscelino, a “única sigla” que “pegou” no Brasil: JK e ACM. Pois bem, Lula e Bolsonaro não tornaram-se meras siglas, mas uma corrente de ideias.  A ver o resultado disso tudo.

Emanuel Freitas

Professor de teoria política (UECE)

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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