DOIS FRANCISCOS, UM SHOW DE TALENTO E ATUALIDADE

Ontem, fui conferir com Raquel o show “Dois Franciscos”, de Francis e Olivia Hime. O casal de artistas, o pianista e a cantora, foi acompanhado pelo violoncelo de Hugo Pilger. Posso garantir: foi um excelente espetáculo.

Francis, com elegância em seu piano, começou apresentando belíssimas composições que realizou com parceiros, um painel projetando o que seria o show em si, uma espécie de viagem sobre o Brasil no final dos anos 70 e inicio de 80, na dobra em o país vivia um regime de exceção e se preparava para a abertura política.
 
Logo depois dessa preliminar, entra em cena Olívia, com domínio completo em excelentes interpretações, muitas vezes com carga forte de emoções — quando a música assim exigia — expondo e modulando seu talento de cantora e intérprete acompanhada pelo marido, dois artistas consagrados, íntimos dos palcos nacionais e estrangeiros, especialmente nos Estados Unidos.

Remexendo a história de Francis Hime, leio que em meados dos anos 50 ele passou a residir na cidade de Lausanne, na Suíça, onde permaneceu até 1959, dedicando-se à música clássica. De volta ao Brasil, entre o erudito e o popular (saudoso das músicas que ouvia no rádio desde a infância), passou a desenvolver amizade com nomes que faziam parte do já consolidado movimento “bossa novista”. Era mais uma grande figura musical que se enturmava com  Vinícius de Moraes, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Dori Caymmi, Wanda Sá e Marcos Valle, entre outros.
 
É dessa época, aliás, sua primeira parceria com Vinícius de Morais, “Sem mais adeus”, gravada na época por Wanda Sá. Dali, no Rio de Janeiro, forma-se em Engenharia Mecânica (1969) e não se tem notícia de que exerceu essa profissão.  Casa-se com a cantora e letrista Maria Olívia Leuenroth (Olívia Hime). No mesmo ano, Francis e a mulher mudam-se para os Estados Unidos, onde deram continuidade a seus estudos musicais. Lá permanecem por quatro anos. No retorno, ele começa a trabalhar em diversas canções, atendendo pedidos de trilhas sonoras para filmes e teatro e, ainda, peças para música erudita.
 
Sua parceria com Chico Buarque de Holanda começa em 1972, ao realizarem “Atrás da Porta”. No show, ele conta que, residindo fora do país manda um K7 (fita) com uma música gravada para o Chico fazer uma letra. O compositor começa, mas não conclui o trabalho. Mesmo assim, inacabada, apresenta a canção em caráter doméstico (na casa serrana do pai de Olívia) e o produtor musical Roberto Menescal, que ali estava curtindo o final de semana, inclui essa música para o novo LP de Elis Regina. O fato é que a cantora, então fragilizada por um doloroso processo de separação, foi às lágrimas, ao cantar “quando olhaste bem nos olhos meus/E teu olhar era de adeus/Juro que não acreditei”. Mas Olívia descontrai esse episódio de tristeza ao revelar que ficou fácil compreender as brincadeiras pesadas do parceiro, que, por travessuras, encheu as costas de Francis com marcas e arranhões (risos).

“Passaredo” foi outra composição que fez com Chico em 1976. Creio que o processo criativo veio na carona de “Águas de Março”, de Tom Jobim, o que musicalmente não tinha nada a ver, além da preocupação com o meio ambiente e as dificuldades que Tom enfrentou ao construir uma casa em plena estação das chuvas.

Ao invés de pesquisar as madeiras, Francis, com Chico, recorre à influencia indígena quanto aos nomes desses pássaros (inhambu, uirapuru, juriti, macuco). Denuncia a ação destruidora da nossa fauna: “toma cuidado que o homem vem aí”. Por sinal, como revelei ao próprio Francis Hime, a insinuação dessa presença do homem musicalmente promove fuga, voo das aves, acrescento, já em processo de extinção. E, curiosamente, a perspectiva de quem denuncia não é do letrista (proveniente do seu eu lírico), mas dos próprios pássaros.
 
“Trocando em miúdos” é de 1978. Há quem diga que essa composição é um samba-canção, na linha de Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Antônio Maria e do repertório de Maísa. Mas, penso, os versos de Chico chegam mais perto de Noel Rosa. Não exatamente próximo ao compositor da Vila Isabel, mas dos tempos atuais, quando, a par de tantos ressentimentos – a continuação de cenas posteriores ao “Atrás da Porta” – ao procederem à partilha, recomenda ficar “com o disco do Pixinguinha, sim?/ o resto é seu”. Porém, com certa ironia, “devolva o Neruda que você me tomou/ e nunca leu”.
 
Aplacando todas as tensões dessas separações ou lutos em vida, porém na mesma temática, Francis apresenta “Todo sentimento”, uma canção conhecida como “o tempo da delicadeza”.  Simplesmente emocionante — ao cantar “preciso não dormir/ até se consumar/o tempo/ da gente”. Ao terminar a peça e ser aplaudido pelo publico presente, ele fez questão de observar que aquela composição não era sua parceria, mas de Chico Buarque com Cristóvão Bastos.
 
Também do final dos anos 70, ele canta “Pivete” (“no sinal fechado/ele vende chiclete/capricha na flanela e se chama pelé/ pinta na janela/ batalha um trocado/aponta um canivete/ e ate”) e Olívia interpreta “O meu guri” (“quando seu moço nasceu meu rebento/ não era momento dele rebentar”) e, nessa sequência, mais uma vez, vêm à tona os problemas do abandono das crianças nas ruas, a questão das desigualdades sociais, o mapa da fome e da pobreza, triste situação que, infelizmente, se repete hoje, passados tantos governos, idas, vindas e retrocessos.
 
Devo agradecer, finalmente, a indicação desse maravilhoso espetáculo por um dos parceiros musicais de Francis Hime, a gentileza do convite especial por parte da produção.

O evento está atualíssimo, composições belíssimas e inesquecíveis, apresentadas com humor e profissionalismo, expõe a versatilidade e os inigualáveis talentos desses virtuosos artistas brasileiros.

Fonte da imagem: bileto.sympla

Durval Aires Filho

Durval Aires Filho é Desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, professor universitário e mestre em Políticas Públicas. É membro da Academia Cearense de Letras, tendo publicado os seguintes livros: “As 10 faces do mandado de segurança“ (Brasília Jurídica) e “Direito público em seis tempos. Autores relevantes e atuais” (Fundação Boitreaux). Antes da pandemia foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados, com a ficção “Naus Frágeis”.

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