DIZER O INDIZÍVEL

O QUE ATRAIU ANJEZË GONXHE para lançar-se na sua aventura radical de amor aos párias da Índia foi a escuta de uma palavra fugidia dos padrões normatizados pela rotina posta pelos sistemas de poder: um deus que grita “tenho sede”. Como entender uma sentença assim? E como proceder diante de um paradoxo tão profundo de um deus com sede? Logicamente tanto a sensibilidade do olhar e da ausculta, quanto a firme decisão de ir à busca de respostas para tal manifestação, não se localizam na esfera da lógica rotineira. Para dialogar com o indizível é preciso uma tomada de posição incomum. Buscar uma meta-experimentação que apresente um sentido à novidade. É preciso conhecer concretamente o padecimento pela sede para poder sentir próxima a si a sede do deus sedento que lhe dirigiu sua súplica. É necessário escutar de outra perspectiva, sendo outra pessoa. E assim Gonxhe transforma-se em Teresa de Calcutá, aquela que escutou e abriu os ouvidos de muitos para que também pudessem escutar e se modificar.

Como o Ser (pleno) pode não-Ser (vazio = ter sede)?

Segundo o Nobel em Literatura, o mexicano Octávio Paz, o papel da mística e da poesia é colocar em xeque o princípio lógico ocidental da não contradição. Para ele, toda metáfora aproxima ou conjuga realidades opostas, indiferentes ou distanciadas entre si, desnudando a unidade da pluralidade do real (in “Signos em rotação”). A investida da riqueza poética expande as possibilidades da compreensão humana diante da complexidade do real e do desafio pela busca da verdade: “A imagem diz o indizível: as plumas leves são rochas pesadas” (idem).

Mas, por outro lado, nem sempre o inverso ocorre. Rochas pesadas não conseguem flutuar como plumas leves e afundam, fazendo também outros afundarem em mares profundos; em seus corpos compactos, rochas pesadas são incapazes de bailarem com o som das brisas do vento, permanecendo grudadas em seus lugares eternos.

No século XX o mundo inteiro ouviu o berro de horror de corações e mentes carnificinados pelo artefato humano da bomba atômica, como também viu as imagens da chacina genocida de judeus em campos de concentração nazistas, em câmaras de gás projetadas por indivíduos racionais. No Brasil, até fins do século XIX, mulheres e homens pretos africanos eram considerados não-humanos, mercadorias e propriedades de brancos cristãos europeus, dos quais sofreram todo tipo de atrocidade. Casa-Grande e Senzala compuseram uma unidade no sistema econômico escravista brasileiro. Agora, no século XXI, o Brasil bate recorde de colheita de grãos e simultaneamente, no mesmo ato, conduz por decisão política grande parte de seus cidadãos e cidadãs a retornarem ao Mapa da Fome. Fartura e Fome compõem uma unidade de um Brasil grotesco. O que essas paradoxais experiências históricas de unidade estão querendo nos comunicar? Conseguimos vê-las e escutá-las?

A vida real nem é pacífica nem ordenada. Ela está repleta de contradições, de estruturas injustas construídas historicamente pela ação humana, mas ao mesmo tempo carrega em si possibilidades fantásticas portadoras de mudanças, como ocorre agora com a inesperada pandemia do corona-vírus pela qual boa parte das gentes foi obrigada a parar, diante da morte de quase 90 mil brasileiros até o presente momento. Será que com esta parada estamos conseguindo escutar o indizível? O que se faz necessário para que consigamos escutá-lo? E que caminhos podemos adotar para lhe dar respostas consequentes? Como diz o músico brasileiro Gilberto Gil, ao poeta – e ao místico – cabe fazer com que na lata venha a caber o incabível.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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