DISTOPIA BRASILEIRA

Somos um país cristão. Não existe essa historinha de Estado laico, não. O
Estado é cristão. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se
curvar às maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem.
Jair Messias Bolsonaro

 

Grande filme produzido por cineastas pernambucanos – Bacurau (2019) – imagina num futuro não tão distante um Brasil dominado pelo imperialismo neoliberal e pelo fundamentalismo cristão. Em Bacurau, moradores de um pequeno povoado do sertão pernambucano são invadidos por sudestinos brasileiros e gringos supremacistas brancos estadunidenses, com a cumplicidade do poder público local (Prefeitura), que visam fazer desaparecer aquela região do mapa. Os bacurauanos organizam uma resistência popular, unindo-se na luta contra os forasteiros. Trata-se de uma ode aos movimentos de resistência, bem como uma reverência à rebeldia nordestina. É um filme sobre pessoas que se organizam para sobreviver. Em Bacurau, vê-se um claro desafio à colonialidade, entendida aqui como um dispositivo do “padrão de poder colonial, moderno, eurocêntrico, mundial e capitalista que persiste por 500 anos” (QUIJANO, A. Colonialidade, poder, globalização e democracia. Novos Rumos, v. 17, n. 37, 2002).

O filme Bacurau obteve tanto sucesso que canibalizou a língua portuguesa, convertendo-se em verbo transitivo direto, viralizando nas redes sociais. Bacuralizar significa autogovernar-se em comunidade; recusar os poderes de governantes fascistas, neoliberais selvagens e fundamentalistas cristãos, não os reconhecendo como autoridades; entrincheirar-se em comunidades como forma de defesa à máquina de matar do estado. Por exemplo, “Bacuralizemos nossa comunidade; aqui Bolsonaro não é nosso presidente” (SPYER, Teresa. Distopias à brasileira. Epistemologias do Sul, v. 3, n.1, 2019).

O ataque à população do vilarejo por sudestinos e estrangeiros, com ethos miliciano paramilitar, parece estabelecer uma analogia com a violência brasileira vivenciada pelas “minorias” – em especial pela população negra-indígena-periférica (urbana e rural). Os altíssimos índices de feminicídios e juvenicídios, por exemplo, aparentam ser um dos motes para a explicitação da violência na obra na qual a comunidade se apropria da violência como ferramenta de empoderamento insurgente. Nessa distopia sertaneja a população de Bacurau reage com violência à violência sofrida. Os versos da música de Geraldo Vandré – Réquiem para Matraga – parecem sintetizar esta questão no filme: “Se alguém tem que morrer, que seja para melhorar” (Idem). O filme problematiza o desafio de ser nordestino num Brasil bolsofascista, e o de ser brasileiro-latino num mundo supremacista branco euro-estadunidense.

Segundo o professor do Programa de pós-graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, José Luís Fiori, na conjuntura mundial de guerra entre as grandes potências e de crise energética, alimentar e hídrica, em quase todo o mundo, o Brasil tem a seu favor sua própria autossuficiência em fontes de energia, em grãos e em disponibilidade de águas. Seu maior problema está na forma desigual em que esta riqueza está distribuída, na grande resistência da classe dominante brasileira a qualquer tipo de política redistributiva. Para Fiori é impossível avançar no plano da soberania externa do país sem avançar na luta contra a desigualdade social interna, exigindo do novo governo a ser eleito em 30 de outubro próximo a declaração de uma verdadeira guerra interna para acabar com a miséria e desigualdade social entre a população brasileira.

A resistência a tal programa de erradicação da miséria e da desigualdade social vem justamente de uma coalisão de extrema-direita que se consolidou no governo Bolsonaro que agrega em sua base ideológica o fanatismo religioso, o fascismo político, o complexo militar e o ultraliberalismo econômico primário-exportador (historicamente escravista) e financeiro, liderado pelo agrobusiness.

Um dos obstáculos elucidados pelo estudioso em assuntos militares, professor Manuel Domingos Neto, é o abraço do complexo militar com “terraplanistas, neoliberais, criacionistas, negacionistas tresvariados, inimigos da razão”, assombrado com o fantasma criado pelo bolsofascismo apelidado de marxismo cultural. Sendo assim, o complexo militar bateu palmas para o desmonte da engenharia pesada no Brasil; endossou a venda de empresas estratégicas que ele mesmo ajudou a criar; paraninfou esse governo que retira dinheiro das universidades, desidrata agências de fomento à pesquisa, difama institutos científicos, deixa sem manutenção equipamentos custosos, corta bolsa de estudos, inclusive as de baixíssimo custo e grande retorno em termos  científicos e sociais como as bolsas de iniciação científica; interrompe a perspectiva de jovens talentos de famílias pobres ingressarem na carreira científica. (Estadão, 25/05/2020).

Todavia, o mais arrogante, o mais perigoso, no projeto do Partido Militar, é a mensagem clara da pretensão de tomar conta dos corações e mentes brasileiros, por meio da construção da alma nacional, explicitamente presente “Projeto de Nação até 2035”, lançado pelo complexo militar em 19 de maio de 2022, pelo general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva. Segundo Manuel Domingos Neto, esses oficiais copiaram ideias correntes entre as alas extremistas dos Estados Unidos. Não há teorização nova aí. A transposição disso para o Brasil é a negação da nossa diversidade. Nós temos uma sociedade multifacetária, com múltiplos pensamentos, uma sociedade muito rica. Essa ideia liberal-conservadora é uma corrente extremista que nasceu há algumas décadas, foi frutificando, tomou porte a partir do governo Reagan e hoje contamina boa parte do mundo, em particular a Europa. Não se vê elaboração nova. Revela a subserviência do militar brasileiro relativamente às proposições geradas a partir de uma potência hegemônica. (DOMINGOS NETO, Manuel. O projeto de poder do Partido Militar até 2035. https://revistas.uece.br/article/download. 2022).

Mas, apesar de tais obstáculos, para o professor Fiori, é possível ao Brasil, com o novo governo eleito, superar este momento amargo de nossa história, retomar o caminho da construção de nossa soberania, demarcar o nosso lugar dentro de um mundo multipolar. Por não possuir inimigos na América Latina, apesar dos esforços que Bolsonaro desferiu para construir inimizades com países irmãos, o Brasil deve retomar o seu espaço de grande nação pacificadora no seu próprio continente e no sistema internacional. Mas para isso, terá de inventar uma nova forma de expansão continental e mundial que não repita a “expansão missionária” e o “imperialismo bélico” dos europeus e estadunidenses. (FIORI, José Luis. A conquista da soberania. https://aterraeredonda.com.br/a-conquista-da-soberania/ ).

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .