Diário de um escritor de província. Sextos aforismos

XXVI.
O que fazer com os olhos diante de realidades insatisfatórias e desejos inconvenientes, quando arrancar os globos oculares além de loucura seria ao mesmo tempo a confissão da culpa e uma tentativa furiosa de se tornar a si uma coisa mais terrível que o destino, e quando o gosto pela vida e pela integridade física torna bem difíceis atos tão extremos? O horror precisa de muitos acordos tácitos para que a vida civil continue viável; os acordos tácitos começam com os nomes das coisas e terminam com as palavras que não podem ser ditas. Mas isso não diz conta mais dos ouvidos que dos olhos? Detalhes. Que os olhos e os ouvidos se distraiam com palavras como com brinquedos complicados. Precisamos lidar com as coisas nomeadas do mundo e com uma linguagem que não deixará impune nada que os olhos de ninguém ainda possam ver pela primeira vez (pois a linguagem invadiu tanto o terreno do impossível, das coisas que não existem, que já não se pode ter tanta clareza do que é e do que não é. Se descobríssemos incríveis idiomas que não possuíssem palavras para o ódio e que vivessem bem com isso, ingratos para todas as alegrias secretas que o próprio ódio nos proporcionou, diríamos que era um povo abençoado pelo abandono das outras civilizações, e nunca que tinham uma lacuna no seu vocabulário e na sua visão de mundo. Uma língua que não tenha originalmente uma palavra que distinga o cinza do azul claro, como creio que já ocorreu ao leste da Europa, até que um dia vieram os pintores com as suas necessidades, imagino, e começaram a importar tantas palavras para as cores que se podia perguntar se iam dedicar a vida a pintar os papagaios e as araras que nunca puderam ver na vida real, uma língua assim, eu diria, deve nascer em terras mais frias, limitadas na fauna e na flora, e quem não faça parte daquele povo diria que a sua falta de azuis adequados redundava em sempre formas brutas de tristeza. Pois imaginemos um povo que não tivesse uma palavra para o amor e vivesse muito bem. Sim, desses povos diríamos, por melhor que fosse seu senso de humor, por mais deslumbrante até o escândalo que fosse a sua vida e os seus hábitos sexuais, por mais originais que fossem os tropos das suas poesias e canções, por mais aleatórios e divertidos que os seus deuses fossem, sempre diríamos que era um povo que sofria de algum tipo de lacuna anterior a um vocabulário empobrecido em que não houvesse o bom e o belo, mas apenas o saboroso. A ironia e a sutileza do poema de Kaváfis: chegamos a imaginar novos povos aos quais temer, povos cuja invasão ansiamos todas as tardes), mas não existe primeira vez desde que exista uma linguagem, mas a linguagem, afinal, é o que torna possível que as coisas aconteçam ou aquilo que impede que aconteçam? Ou é ela algo fora do lugar, mas que teve que continuar lá, porque aquilo de que precisávamos ali não encontramos ou tínhamos perdido ou suspeitamos que não exista? Eu verdadeiramente desejo para isso uma resposta?

XXVII.
O ideal é que houvesse mais poetas como Zé Limeira, ou que houvesse mesmo, como houve, apenas um, mas que o cânone literário da língua portuguesa girasse ao seu redor e que os povos de outras línguas tivessem em Zé Limeira um parâmetro inalcançável de excelência, que dissessem dos seus melhores poetas locais, de cada um, que era o seu Zé Limeira nacional. Que essa fosse a dedicação dos poetas, uma anarquia linguística tão irresponsável que pudesse em perigo o tempo todo a própria língua, de um modo tal que faltaria muito pouco para acreditar que na vida prática era mesmo possível voar com asas de manteiga e conversas com peixes de vidro que estivessem a caminho do médico para uma consulta, pois tinha engolido o próprio aquário, e além do desabrigo ainda tinha que enfrentar a indigestão. Um mundo em que arrancar os olhos fosse inútil, pois no lugar de cada olho arrancado brotaram mais dois, e não necessariamente nos orifícios mais esperados e desejados, como se eles também não pudessem nascer internamente e se tornar falantes, tagarelas até o inconveniente, pequenos órgãos chorosos que passariam os dias reclamando por medo do escuro.

XXVIII.
O mundo não foi justo com a memória de Zé Limeira, e acabou que precisamos de outras estratégias para lidar com a nossa própria crueldade quando ela tiver que se expressar verbalmente. Nem é mesmo necessário que privem do idioma a palavra amor, como já fizeram com a Bandeira, ou que proíbam a palavra, não vai ser necessário que a palavra caia em desuso, que vire um arcaísmo ou caia no esquecimento, dizem mesmo que é o amor um bom ponto de partida do ódio, ou que de algum modo é o próprio amor que ajuda a melhor odiar. Que sei eu? Pode ser que tenha de novo e mais uma vez perdido na espera o tempo e o esforço nas ilusões erradas de necessidade e desejo. Direi à águia que da próxima vez me traga os olhos de um menino, apenas porque a frase é tão chocante quanto bela. A águia não fará o que eu mandei, ao menos não porque eu mandei, e o mais provável é que nunca aqui retorne. Até porque nem há aqui uma águia. Eu menti.

XXIX.
(A voz da razão é um fetiche jurídico?)

XXX.
A poesia de Zé Limeira poderia ser o que foi o pensamento de Confúcio, além de uma estrutura retórica elegante e equilibrada, um ponto de partida moral e jurídico (a voz da razão como fetiche, como negação do fetiche, como fetiche da negação do fetiche). Seu equilíbrio retórico, eu sei, é o avesso de um equilíbrio retórico, e em termos jurídicos e morais seria bastante difícil lidar com uma zona estranha em que o sim e o não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, mas não é aí que se encontra ou uma verdade do baixo ventre ou o alívio cômico, também intestinal, de verdades tão pesadas que a sua sustentação acaba com as costas de qualquer um? Uma poesia que conte a história dos asnos que se diplomaram e dos feios que ocuparam o lugar de reis e rainhas da beleza. O que disse o poeta, profético? O mundo estaria condenado a si mesmo, ou à própria simulação. De uma comédia que não se diga que é outra coisa que não seja uma comédia. Ou que se diga justamente o contrário sempre, porque a comédia perderia o sentido se de se levasse demais a sério? O mundo é o avesso do mundo ou o avesso do mundo é o mundo?

XXXI.
A linguagem gerou a necessidade inescapável de gerar a representação de alguma coisa que não é. Podemos imaginar uma língua que não tenha uma palavra exata para o azul do céu, mas nunca uma língua que não tenha ao menos um vocábulo para algo que nunca pôde ser visto nem ouvido nem tocado. O poeta pensou como seria um mundo em que as coisas fossem todas feitas disso. Pensou? É possível que nem lembre. Quanta vez, aliás, não era o esquecimento uma qualidade moral?

XXXII.
Que a verdade liberta é um ensinamento de mais de uma religião e de mais de uma doutrina. Pode variar o que cada religião e doutrina chama de verdade, mas no consenso da vida comum, a princípio, aquele que não mentisse estaria livre tanto do patético de alimentar ilusões quanto do esforço constante de fazer a manutenção das mentiras convenientes e do risco de perder a consciência do que é verdadeiro e do que é falso. Em compensação, até que ponto é mesmo justo condenar o feio a um mundo só de espelhos? Precisamos todos nós lembrar o tempo todo que um dia morremos?

XXXIII.
Não podemos voar como pássaros nem nadar como peixes, não podemos ser gente feita de vegetação, não podemos ir à lua e voltar no mesmo dia, nem podemos mergulhar no fogo na esperança de que o fogo limpasse as impurezas todas, não podemos morder a orelha do infinito nem de novo descobrir o Brasil, que talvez nem exista, ou permaneça condenado ao abandono e à inacessibilidade, não podemos poder querer o que nem sequer conseguimos imaginar, ou podemos e nos angustiamos, porque sabemos infinitamente de quase tudo que não podemos, e ainda não saberemos quais serão os desejos insatisfeitos do futuro. Por isso, se não era Zé Limeira o centro do cânone o mais ocidental, nem jurista e moralista e profeta e evangelista, era ele a nossa consolação filosófica. Que nos consolação até de haver filosofia.

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.