Diário de um escritor de província. Sétimos aforismos

XXXIV.
É possível com toda a sinceridade, serenidade e inocência mentir dizendo verdade e enganar a todos durante todo o tempo, inclusive a si, mas a partir de mecanismos sutis diferentes do equívoco, ou seja, partindo do pressuposto de que as mais secretas das cortinas íntimas são as mesmas que encobrem os olhos, e a grande ilusão é a de que cobrariam em vez disso a própria superfície do mundo? O que acontece aos bem-aventurados no dia em que perdem as suas certezas, quando percebem que não podem prometer nada nem falar em nome de absolutamente mais ninguém? O que protege os bem-aventurados de que isso lhes aconteça?

XXXV.
Não é possível ir adiante sem o mínimo de certezas, mas é feliz aquele que se apega às certezas imediatas e aceita sem piscar todas as convenções, aqueles que em geral detestam qualquer mínima mudança? Alguém precisa mesmo ser feliz, não haverá uma porção de sabedoria nesses modos de preguiça mental e espiritual, obviamente uma sabedoria também muito preguiçosa?

XXXVI.
Mas há quem precise de certezas imensas, gente que não pode se distrair delas nem ser por elas abandonado. Josué se distraiu da sua certeza: poupou um cordeiro quando Deus ordenou que não tivesse piedade de nada. Ajax foi abandonado pela certeza e caiu em desgraça: iludido por Atena matou os rebanhos da tropa de Odisseu achando que matava Odisseu e seus homens, e pior do que a possessão da loucura foi a lucidez que sobreveio. Atena, por sua vez, ocultou Odisseu para que Odisseu tudo testemunhasse: era a vontade dos deuses e tinha que ser daquele jeito, mas não foi possível deixar de sentir pena mesmo do próprio inimigo e, por tabela, da própria humanidade, pelo quanto é ilusória e precária a sua sanidade, se não teve também, aliás, mais pena das reses tão insanamente abatidas do que teria de que Ajax matasse seus soldados. Atenas precisava que Odisseu soubesse o quanto estava sendo sacrificado para que se concretizasse a história. Deus, por sua vez, quis de Josué que soubesse que a mínima piedade poderia lhe custar não fazer a própria história.

XXXVII.
A princípio ninguém deveria conhecer tanto da verdade quanto o próprio mentiroso: ele precisa saber onde ela está para construir os seus desvios e versões alternativas, o que lhe exige uma memória primorosa, que é inevitável que falhe um dia. (Era comum, e talvez ainda seja, que nas pequenas cidades se desconfiasse de todo forasteiro solitário que viesse para ficar: achavam bem provável que fugisse da memória coletiva e inescapável de outro pequeno povoado. Pois, independente da sua sutileza e poder de convencimento, todo mentiroso, após o ato da mentira, só deseja que o tempo passe, que os fatos sejam esquecidos, que nunca mais lhe façam perguntas sobre fatos que não mudam.) Mas a necessidade de convencer, em primeiro lugar, faz que o mentiroso precise acreditar nas próprias mentiras: atuará mal, é quase inevitável, porque mesmo um bom ator pode não ter muito o que fazer quando o roteiro é ruim, mas insistirá, eventualmente só para não voltar atrás, e sobretudo para preservar alguma coisa bem mesquinha, que dificilmente terá mesmo o valor que o mentiroso lhe atribui: deseja preservar uma reputação de que já está cansado e que talvez despreze, sem a qual até poderia ser feliz, talento que é possível que não tenha e contra o qual pode ser que precise se vingar, assim como da própria verdade por causa dos seus inconvenientes. O mentiroso acaba não sendo o maior especialista quanto a o que é a verdade: estão equivocados de saída os seus valores, e ainda que ele tenha conhecimento do valor correto de cada coisa tudo que pode abraçar é aquilo que é baixo, mas cuja baixeza jamais poderá ser admitida.

XXXVIII.
O que faz o mentiroso na mais completa solidão? Não respira aliviado pela ausência de interrogadores e de testemunhas: pensa que podem descobrir as suas trapaças, os seus ardis, as suas contradições e os seus álibis falsos, pode pensar sobretudo que não pode esquecer os detalhes nunca (o tempo, ele sabe, é traiçoeiro na medida em que age de modos diferentes na memória de cada um, e há quem guarde perguntas durante anos). Suas insônias são como as do rico que teme que lhe roubem a fortuna durante o sono. Das mentiras não se pode dizer que sejam um tesouro em si, e se forem um tesouro são inevitavelmente um tesouro falso. Que o mentiroso se condena a proteger, e que gera dividendos noite afora.

XXXIX.
E se alguém dissesse de novo que não existe a beleza? Pode ter sentido que não havia salvação para si mesmo e quis que ninguém mais fosse salvo. E se alguém dissesse mais uma vez que não existe a feiura? Pode ter tido o medo de que não houvesse para si o perdão e reivindicou que fossem todos perdoados. Mas não se pode dizer, por outro lado, nem que tudo que existe é a beleza é que não há feira, nem que tudo que existe é a feiura e que não há beleza. Viver num mundo apenas de beleza significaria que a feiura foi ocultada de algum modo, que barreiras foram erguidas e que acordos tácitos ou leis sustentam uma série de interdições cruéis. Viver num mundo apenas de feiura significaria ou que a beleza se encontrava em algum ponto que não podia ser alcançado, porque não éramos dignos o bastante, ou que era uma lenda angustiante que tínhamos inventado porque a vida era insuportável. Um mundo tangível e monótono também pode ser feito de uma simples distinção entre as coisas que preservam e as coisas que destroem.

XL.
Nunca conseguir ver a beleza num corpo velho significaria não conseguir ver nunca beleza alguma na própria velhice. Ver apenas a beleza num corpo que fosse jovem era o mesmo que achar que a beleza era inerente à juventudes. O indivíduo seria um mero acidente sem nenhuma personalidade, verdadeira memória, história, biografia. Olhos para os quais é muito difícil aceitar que as coisas passam, que com o tempo se embaça a própria visão.

XLI.
Um final que imaginei para a longa narrativa de Marcel Proust: o narrador era acometido de demência senil ou do mal de Alzheimer.

XLII.
Uma estética que já nem fosse estética, uma poesia que não se ocupasse de beleza ou de feiura, quase feito religiões que não fizessem prosélitos, religiões sem empolgação, que não tivessem líderes nem fiéis que se incomodassem com o fato de que há outras religiões e que a sua própria pode um dia acabar, já porque não faz barulho e chama bem pouca atenção, já porque é inevitável que as coisas acabem. Não uma estética que abraçasse o horror pela sua grandiloquência romântica, como em Victor Hugo, nem pela necessidade de provocar Deus como quem tivesse a vontade de fisicamente lhe dar um tapa, como em Sade, ou porque simplesmente era inevitável que a beleza, equilibrada e já monótona de tão parecida consigo mesma, um dia cansassem, como em Rimbaud (ou como tantos estilistas franceses que também abraçaram a feiura no final porque a sua obsessão nunca tinha deixado de ser a beleza), pois que era uma estética que largava a beleza tanto quanto largava a feiura. É mesmo aquém da beleza e além da feiura que se diz alguma coisa. O que se disser espanta como espanta a feiura e a beleza porque é difícil, de verdade, dizer alguma coisa, é quase algo que não acontece todo dia. Ou não? Também não. Uma estética que já nem fosse estética também não podia se fazer de uma coleção de coisas raras e impossíveis. Uma estética, mais uma. Como se já não fossem tantas.

XLIII.
Já não uma estética que excluísse a beleza e a feiura antes de excluir o belo e o feio, uma paradoxal anestésia ou anestética (o que dá um pouco a ideia da teoria e dos fundamentos de uma arte de não sentir que só de falar já pode parecer atraente até a quem imagina que ela seja apenas repulsiva e decadente), uma espécie de ética da preservação, mais precisamente, rasteiramente utilitarista, que não visse as coisa também como boas e más e nem o bem e o mal como entidades viáveis: as coisas apenas fazem surgir, criam, e depois disso ou preservam ou conservam ou desgastam ou destroem ou não surtem efeito. Muito prático. Que os famintos comam e que os sedentos bebam; se não puderem os famintos comer e os sedentos beber que sonhem que comem e que bebem, ou que não sonhem, o que mais lhes parecer conveniente. Mas ainda amamos e odiamos, ou desejamos amar e odiar (e por que não?) das maneiras mais magistrais, e é bem possível que a infelicidade de multidões se deva a que era melhor que não desejassem certas coisas, viveriam melhor sem saber o que existia o amor e que existia o ódio, e muita conversa sobre as suas formas mais adequadas, não tanto sobre o ódio, que o pudor tão bem preserva, a infelicidade dos que talvez devessem ser mimados e ninados pelas artes aconchegantes de não sentir: métodos que produzem leitores que cumprem horas marcadas e batem metas diárias de quantidades de páginas por dia, e sempre têm ao lado da leitura do dia anotações bem organizadas que ainda se tornarão fichamentos bem organizados (e é essa criatura, eu penso agora, a que durante mais tempo cozinha a fogo brando os seus ódios mais secretos). Amamos, eu ia dizendo, de um modo tal que não podemos tão perfeitamente assim ser comparados aos que têm fome por não ter o que comer e sede por não ter o que beber, mas ainda sabem muito bem o que desejam, ainda na completa ausência ou impossibilidade daquilo que desejam. Um querer comer e beber do outro uma porção misteriosa que talvez nunca se alcance ou nunca se precise: comerei e beberei tudo de ti para descobrir a exata porção que me apetece, poderia dizer o amador à coisa amada, na qual ele mesmo nunca há de se tornar, pois que assim nada mais faria sentido. É possível que haja um fastio de excesso, um comer e beber além do necessário em quantidade e qualidade, o que traça a primeira volta do círculo vicioso: o amante ainda não sabe qual é exatamente a porção exata que lhe apetece ainda depois do banquete inteiro, e terá, então, que repetir todos os pratos. Passará de novo pela acidez e pela amargura, se não é de uma coisa e de outra que se alimenta o seu paladar, chegará à diversidade das delícias que confundem o seu paladar, de um modo tal que tenha que fazer o mesmo percurso ainda muitas vezes, até que os gostos se confundam, ou até que venha a impressão de que os próprios gostos se perderam.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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