Diário de um escritor de província. Quintos aforismos

XX.
Arnold Hauser, na História social da arte e da literatura, tem um tão grande poder de sintetizar personalidades artísticas, literárias e intelectuais que até esquecemos que suas sentenças podem ser algo injustas ou reducionistas. De Stendhal diz: pensava como Helvetius, mas sentia como Rousseau, de Freud insinua que era uma espécie de grande pensador do século XVIII deslocado no tempo, de Rimbaud faz um terrível quadro impreciso de ser humano em todos os sentidos perigoso que podemos até sentir falta de Rimbaud não ter sido mesmo assim, a Samuel Richardson (pobre cronista ciosos e obediente de vontades desonestas) vota um ódio e um desprezo imensos, lhe atribui a culpa de uma fórmula vulgar de romantismo que disfarçava em sentimentos interesses que eram moldados e postos a funcionar muito mais pela força do dinheiro, que também fazia sofrer, mas num mundo que mesmo duro podia permitir que houvesse a justiça e a compensação: nele, a virtude que se nega ao comércio se torna a mercadoria mais preciosa. Mas do outro lado desse mesmo mundo, como quem analise os produtos de uma prateleira, o poeta escolhia com bem mais precisão a natureza de miséria que nortearia sua vida.

XXI.
A história, ou o diabo, a força do capitalismo ou da idade, a tola necessidade de ser levado sempre a sério, o tolo medo de ser tolo quando houver alguém olhando, uma cega e surda orquestração das coisas, enfim, tornou tão profissionais os poetas que ou já não era mais possível que existissem ou eram, em pessoa, gente organizada que não atrasa contas, que tem horas marcadas e compromissos, que se embriaga só até certo ponto, quando não diz que parou de beber por prescrição médica ou suspendeu a bebida em nome de uma prudente redução de danos. Dirão os incautos que se tratam esses poetas, muitas vezes muito bons com as palavras, eventualmente os únicos que ainda sabem falar e escrever sem que trema a mão ou a língua frases inteiras, fluidas, elegantes, precisas; dirão os incautos, desprevenidos, atrasados até no saudosismo: esses poetas são os traidores maiores do romantismo. A longa história do equívoco começa com esse tipo de equívoco. Uma categoria profissional de poeta sempre se adequou a cada época, e cada um a sua maneira soube brincar com o seu fogo e com as suas facas. O romantismo não inventou esses profissionais, mas escreveu a última tábua da sua lei, e bem nas entrelinhas percebemos até mesmo os direitos trabalhistas. A fome, a loucura, o desespero, o desabrigo, o vício, as doenças venéreas, a censura e as perseguições políticas, a morte precoce e outros privilégios já não podem ser reivindicados. Um longo esquecimento sobre suas parcas pobres poucas palavras, a vida de novo como lição de moral, é tudo que se pode alcançar hoje.

XXII.
O poeta, feio, de uma feiura opaca que não assusta, de uma feiura que se perdoa e com que se convive bem (pode ser belo, por um equívoco da natureza ou perversão da sociedade, mas será parcimonioso no usufruto de sua beleza, ou talvez mesmo tenha vergonha), o poeta discreto e tímido, mas pedindo licença e dando licença nas medidas exatas, pois é cordial na mesma medida em que conhece os próprios direitos. O poeta leva já no sangue e na alma as suas décadas de repartição pública: foi com esse dinheiro que conseguiu viver e muita vez pagou do próprio bolso e a prestação livros que era injusto mesmo que ninguém publicasse, e que no final é melhor dar de graça, porque o meio milheiro não vai se pagar é nunca. Soubessem os jovens quem era o poeta e nem acreditavam. Mas os jovens, aliás, ainda se ocupam de poesia? Os poetas do passado, que ainda não sabiam tudo, enquanto os de hoje estão condenados a saber tudo, lamentariam a própria invisibilidade e a inaudibilidade do seu verbo. Os de hoje sabem não só que precisa ser assim, como também sabem que é bem melhor que seja assim.

XXIII.
Quero acreditar que o poeta não tenha nada nas mãos. Quis dizer: o poeta não tem nem teve nem terá nada nas mãos. Percebi que não podia dizer que as mãos dos poetas sempre estiveram e sempre estarão vazias. Imaginei que isso pudesse gerar uma pergunta que se atirasse contra a parede não como uma garrafa vazia nem como uma garrafa cheia, mas como uma bola de tênis num jogo entediado e sem raquete de alguém que sozinho apenas meditasse e medisse os seus reflexos. O que há nas mãos do poeta? Jamais saberei dizer, tão vingativo e prudente: por muito tempo me encantei com a mente e com partes do corpo que no corpo nem existem, depois me iludi com os olhos e sei até hoje que os olhos me enganam. Mas sobretudo gastei um tempo sábio, eu quase diria os melhores anos da minha vida imensamente interessado e dedicado aos pés. Que até hoje são minha grande fonte inspiradora de admiração tanto quanto de piedade.

XXIV.
Inda imagino, quando preferia não imaginar nada, mas querer que os olhos não vejam, mesmo assim por dentro, é implorar que vejam ou anúncio tardio de que já viram, e eu, da minha parte, teimoso, masoquista e sádico, já imagino quase me divertindo com a imagem dolorosa e humilhante: o poeta olha as próprias mãos vazias como se fossem objetos alheios ou partes estranhas ao seu corpo, e ri: era mesmo bem melhor que se entregasse ao riso mais idiota, ao menos tinha vazias as mãos. Mas sempre querem que essas mãos se mantenham ocupadas, que o poeta, besta, seja o guardião de alguma coisa. Os homens práticos vão à guerra e não podem levar tudo, os funcionários das várias funções do pensamento também precisavam de alguém que vigiasse estranhos objetos encontrados que era difícil dizer quanto valiam, até que mesmo os últimos estagiários puderam usar como cabides meio tortos os braços do poeta. Puseram nas suas mãos o fogo, a nudez dos corpos, os olhos mais velhos, as palavras da guerra, todas as flores, puseram nas suas mãos o tempo ocioso, e puseram nas suas mãos o amor. Eram as coisas que sobravam, as que ninguém sabia como usar nem para que serviam, que não sabiam o quanto valiam nem se valiam alguma coisa, as coisas que não podiam guardar consigo. O único desejo viável do poeta eram as mãos vazias: levem suas coisas e aprendam o que fazer delas. Das mãos vazias, a única coisa que me pertence, se alguma coisa ainda me pertence, não quero fazer nada, nem devo. Nada que não seja já transformar o próprio corpo em apenas imensas mãos, imensas mãos vazias.

XXV.
O poeta não estragou nada que não tivessem pedido que estragasse. E ninguém estragaria melhor que ele as coisas todas. De agora em diante pegue você mesmo a sua sabedoria e seja sábio, ou esqueça e seja tolo. Pegue você mesmo esse seu corpo e seja nu, ou se vista com esses trapos de palhaço. Pegue as suas flores e jogue na água corrente, é o mais sensato, ou vá muito elegante ao velório sem saber muito bem por que vai lá. Pegue você mesmo o seu amor e o seu fogo e não espere que eu diga mais nada. Minha marca invisível ainda estará em todas as coisas mesmo depois que o meu nome estiver esquecido. Eu já dei ao sol pela milésima vez o mesmo nome de todos conhecido. Agora é a vez de vocês queimarem a retina.

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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