DIÁRIO DE UM ESCRITOR DE PROVÍNCIA. PRÓLOGO (XXII)

Do amor oculto e seus ocultos objetos

Meu coração é uma mulher trans,

Expulsa à faca da casa do peito,

Tatuada e marcada a ferro,

Jurada de morte por dívidas secretas de amor.

Meu próprio coração,

Que diante do espelho se maquia e traveste,

É um segredo alheio e passional,

Um orgulho solitário e trágico de liberdade à margem,

Um apelido e um nome na rua e na boca da polícia,

Um rosto estranho na identidade,

Uma voz estranha nos recados gravados

Mesmo quando falam de amor.

Meu coração já sem fôlego,

Velho como o coração de uma velha senhora, o vestido de cigana,

Sob o papiro ainda misterioso do peito enrugado e as bijuterias de plástico,

Que faz tombar o corpo ante as delícias do corpo,

Que desmaia os músculos numa promessa impossível de gozo,

O gozo que se sonhou na boca de um anjo.

Meu coração sob tantas mordidas

Que já se cansou de se dar como alimento

É também uma espera não sabe por quê.

Meu coração.

Ajeito os brincos nas orelhas e corrijo o batom

Que desenha sobre a boca uma nova boca,

Num gesto maquinal que esquece e oculta

O espelho e a ingratidão, o espelho e o opaco,

O espelho e o oco e o desconhecido,

O abandono do amante que nega três vezes

E ainda três vezes mil vezes

O nome de guerra que era o mel da sua boca.

Meu coração é uma mulher trans

Que tivessem assassinado e abandonado na sarjeta

Só pra não revelar o que sabia.

Meu coração, não sei por quê.

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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