DIÁRIO DE UM ESCRITOR DE PROVÍNCIA. PRÓLOGO (XIX)

Por que detestamos tempo e números ou, sim. O dezenove

Destilarei

Minha feiura sem remédio, conformada, e ademais adiposa,

Minha velhice tão cansada,

Meu mesmo político cansaço,

Meus quebrados ressentimentos políticos,

Minha esperança meio perdida de amor,

Minha lágrima alcoólica,

Numa quase traição poética:

Eu que disse, em crônica para a revista Segunda Opinião,

Que nunca mais escreveria para o amor

E ainda menos para suas possíveis vítimas —

Nem um único verso piedoso e burilado. Não.

Isso era só para as dores do peito e testamento

Para o século XXII,

Para quando apostei que não haveria mais ninguém,

Quando a própria letra H se tornaria,

Heráldica romana,

Duas colunas unidas por um traço frágil que o tempo apagaria.

Ainda assim,

Traidor,

Por menos de amor que seja

Cada letra de cada palavra de cada verso

Desse animal sem sangue e ainda assim tão dorido mentiroso:

Destilo,

Como de entre os dedos raivosos de um punho cerrado,

Uma gota de beleza poética,

Feito de bile formada.

Não há poeta que se preze que não seja, ao menos um pouco,

Hepático ou pancreático.

Como seria bom poder tocar um instrumento,

E, sabendo tocá-lo, em vez disso,

Estraçalhá-lo com ódio competente.

As praias permanecem interditadas, feito a vida.

A vida é um olhar o que as mãos não alcançam.

As mãos, trêmulas, são a prova de que o tempo passou.

As manchas suspeitas sobre a pele a evidência

De que é ainda mais tarde do que se pensava.

É possível que, de repente, eu queira,

Como uma criança desejosa de caro brinquedo,

Uma máquina de escrever que eu não usaria,

Um exemplar de qualquer primeira edição

Do século passado

Que seria um pecado folhear,

Uma foto clandestina de nudez,

Que nem valeria pelo desejo, mas,

Tão-somente,

Pela mais gratuita e inócua transgressão.

E tudo me lembraria apenas que já não sou adolescente,

E até mesmo as coisas mortas,

E mesmo as mortas coisas que eu comprasse com meu dinheiro,

Exigiriam, de mim,

Que eu tomasse vergonha na cara e me estabilizasse.

E o mais ancestral dos orgulhos, aquele mais sertanejo,

Me diria que eu risse disso tudo,

Ainda que, depois de quebrado o espelho,

Eu trouxesse, ainda fechado,

O punho sangrando.

Não me esqueceram

As madrugadas sem nenhuns telefonemas,

Os dias de apenas bom dia,

O silêncio de Deus

E a impossibilidade ética e liberal de fazer cobranças sentimentais,

Porque não podiam parar nem o mundo nem o tempo

Nem muito menos as transações financeiras e

Tantas outras coisas que não sabem de mim

Feito gente que de mim não soubesse.

É certo que não sou mais que uma cabeça pesada

Entre as folhas amassadas de um livro aberto

Ou alguém que esperou por alguém que não veio

Ou aquele que faltou e não tinha justificativa.

Se eu não for a própria lâmina pensativa

Ou a palma da mão, aberta, ladrilhada

De pílulas de todas as cores. Destilarei,

Alambique em pessoa, preciso e paciente,

Leitor e copista, atento, buscador da brecha

E do vacilo de Deus. Apenas alguém que ficou

Naquela calçada da rua de passagem,

Que de tão pequena ninguém lembra

Que um dia se chamou. Apenas a criatura sentada,

De que as pessoas desviaram, porque era preciso passar,

E que acabou tão sem nome e identidade

Quanto a rua que todos sabem onde fica,

Mas que ninguém sabe qual é,

E que ainda assim conduz.

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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