DIÁRIO DE UM ESCRITOR DE PROVÍNCIA. PARTE UM: ANIMAIS HUMANOS

Primeiro capítulo. Por que os bípedes têm ódio aos quadrúpedes
Mais uma vez os ratos. Não nos deixaram dormir durante a estação de chuvas passada; eram imensos e em maior número do que pensávamos, pois só descobrimos quantos eram quando encontramos seus corpos envenenados. Queriam tomar a casa toda, ou pelo menos ter a sua posse e domínio durante as noites e as madrugadas. Não se intimidavam: seu número e o seu tamanho já lhes davam a confiança imensa do político poderosos que sentisse que não precisava dialogar nem negociar, que lhe bastava dar ordens e nunca satisfações. Pois os ratos já tinham mesmo uma luta interna pelo poder. Havia mesmo pobres roedores assustados que pareciam pedir asilo político na vizinhança, mas por alguma razão não conseguiam sair da casa. Eu via aqueles esforços: o rato subia na estante de livros e tentava alcançar o topo da parede, que lhe daria acesso ao telhado. Sempre que me acontecia presenciar aquele esforço vão, com aquela criatura de pelos lustrosos tentando se equilibrar em duas patas e usando os meus livros como escada, eu sentia uma mistura estranha de não sei quantos sentimentos: havia ódio, claro, mas também tristeza, e por algum motivo uma profunda autocomiseração.
Pois parece que eles voltaram; não são mais os mesmos, que os de antes morreram, mas são ratos e, assim, sua presença não deixa de ter algo de retorno. Estamos pensando em venenos mais eficientes e tentando calcular de quantos se tratam dessa vez. Temos a estranha impressão de que se trata de um só, mas detentor de uma força incrível e de uma imensa capacidade de desastre, pois na busca de não sabemos aos certo o que chega a derrubar panelas limpas (nunca parece ir aos pontos em que pode haver comida). Objetos de metal caem pesadamente no chão da cozinha, feito pratos de bateria. Não soubéssemos que era de ratos que se tratava e temeríamos uma invasão humana. Pois pensamos em venenos, e temos que ser práticos, por mais que desejemos o sofrimento do animal. O desejo de vingança extrapola o senso de justiça? Existe uma medida justa quando se trata de revide? A praticidade resolva o problema transformando o problema em outro. Há ratos na casa: é preciso que sejam eliminados em nome da salubridade e das noites tranquilas.
Os ratos invadiram a casa quando escrevi a parte mais central de Crítica da máquina mínima, meu diário e ensaio sobre o confinamento, que não sei se um dia verá mão de editor. Pode ser que tenha pego algum momento do que eu viria a chamar de Claustromaquia, o romance de ficção mais ou menos sobre o mês o tema (o romance foi publicado virtualmente e está disponível gratuitamente para quem quiser baixar). Agora mesmo não tem nada que me mantenha acordado durante as madrugadas pela necessidade da escrita. O que faz as minhas insônias de agora é que um dia venham a achar que não sou mais que o mais simples idiota, ou pior, que eu não seja mesmo mais do que isso independente do que pensem de mim e do que penso de mim eu mesmo. Também tem o medo da morte, que toda criatura de sangue quente sente em alguma medida, esse medo que eu já chamei de tanto coisa e tanta vez me fez chorar no escuro, mas que também estranhamente como que me consolou, pois que era algo familiar ainda que sempre mantivesse a aura de coisa desconhecida.
O medo de ser não mais que um idiota. O medo algo idiota da morte, como conceito e realidade. O ódio aos ratos.

Claustromaquia está disponível para download em: https://aiirtonuchoaneto.wixsite.com/website

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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