DIALÉTICA DA FÉ

Em 2018 a disputa presidencial se deu entre um professor socialdemocrata, ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, e um capitão do exército, inexpressivo deputado federal de extrema-direita. O que fez a maioria do eleitorado brasileiro, concentrado principalmente nas regiões sul, sudeste e centro-oeste, alimentar esperanças no discurso fascista e dar a vitória ao capitão?

O bolsonarismo chegou ao poder pela convergência de duas categorias de apoiadores. O primeiro grupo é composto por fascistas, neoliberais, milicianos e fanáticos, que o apoiaram não apesar do seu programa de destruição, mas justamente por causa dele.

Como diria Walter Benjamin (1892-1940), “o fascismo põe em marcha uma glorificação da destruição tão radical que se dispõe a abraçar até a autodestruição”, como o faz Bolsonaro incentivando seus seguidores a dar a própria vida pela Pátria (ou por sua pessoa).

Para esse grupo Bolsonaro apresenta-se como o destruidor, líderimbrochável”, que grita palavrão na televisão,relativiza o coronavírus e as mais de 300 mil mortes, faz apologia à tortura pisoteando a dignidade da vida humana, ataca as instituições democráticas como a Imprensa, os Partidos Políticos, o Congresso, o STF, a OMS. Eis o mote do lema Brasil acima de tudo. Nesse grupo de fiéis apoiadores estão Villas Bôas, Augusto Heleno, Braga Neto, Roberto Jeferson, Daniel Silveira, Abraham Weintraub, Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e uma legião de anônimos digitais repetidores da trollagem bolsonarista do culto ao dragão da violência.

O segundo grupo é composto por moralistas conservadores, cultivadores da tradição, que justificaram seu apoio por não concordarem com as pautas das lutas libertárias por direitos em suas expressões sociais, econômicas e culturais, nas quais estão engajados diversos setores democráticos da sociedade brasileira. Para esse grupo conservador, Bolsonaro apresenta-se como o Ungido, ressuscitado por Deus do não explicado atentado da facada, o Messias que realiza a nova unidade entre os assim chamados cristãos evangélicos e católicos. Para estes aplica-se o lema Deus acima de todos”. AqueleDeus que cabe em seus bolsos. Aqui estão principalmente instituições religiosas cristãs como Fazendas terapêuticas e Redes de televisão, e pessoas como Damares Alves, André Mendonça, Milton Ribeiro, Ernesto Araújo e outra multidão de fiéis adoradores do poder que vem do alto.

Em poucas palavras, o fascismo bolsonarista realiza a alquimia de juntar Deus e o Diabo na terra do sol, fazendo-os uma coisa só. Um Leviatã a justificar os clamores de seus eleitores, opostos em seus costumes, mas irmanados na causa comum da negação da Política, pela adoção da disciplina, da hierarquia e do poder autocrático.Um filme já conhecido pela humanidade nas violentas experiências totalitárias nazifascistas da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, na primeira metade do século XX, com seu amplo controle societário e campos de extermínio de humanos.

Como lembra Hannah Arendt (1906-1975), quando trata da ralé, em seu livro “Origens do Totalitarismo”, são massas que acreditam em seus credos imaginários muito mais do que na realidade dada. O que convence essas massas não são os fatos, nem a ciência, nem uma racionalidade universalista dos direitos humanos, mas a lógica interna do sistema ideológico do qual fazem parte. Assim, a propaganda totalitária prospera nesse clima de fuga da realidade para um mundo idealizado, buscado com todas as forças irracionais da fé. Se Deus e o Brasil estiverem acima de todos, implica que a dignidade, a liberdade e a inviolabilidade das pessoas humanas estarão abaixo de tudo, submetidas ao poder autocrático e violento superior. Restando aos hereges e opositores desse sistema apenas as fogueiras.

Este é o programa teológico da nova extrema-direita, traçado por Bolsonaro desde o início em sua campanha presidencial, seus vídeos e declarações: “quem não está comigo, está contra mim. É o fundamentalismo ao qualfomos lançados pelo apoio destes grupos, desde o Golpecivil-militar de 2016, cujos resultados claros estão expressos no descaso de Bolsonaro ao tratar a Covid-19 como “gripezinha”, “mimimi”, “histeria”, “moleques”, “bunda mole”, quem for de direita toma cloroquina, quem for de esquerda toma tubaína”, “vai comprar vacina na casa da tua mãe”.

Como atesta a história, bufões ou bozós, quando são alçados ao poder político por argumentos irracionais e religiosos, são capazes de deixar atrás de si um rastro enorme de sofrimento e de morte. No Brasil, apenas pela Covid-19, já são mais de 310 mil mortos até o momento.Não estão contabilizados aqui os sofrimentos e mortes por outras formas de violência.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Editora Dialética); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .