DEUSES TAMBÉM APODRECEM, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Diante dos sinais de morte na civilização, antinômicos à força de sua filosofia centrada na “afirmação da vida”, compreendendo questionamentos a qualquer doutrina que oprima as energias humanas, não importando a tradição representada por estas doutrinas, em seu famoso aforismo “O Louco”, Friedrich Nietzsche (1844- 1900) ejeta do seu pensamento uma metáfora inquietante em sua forte crítica à hipocrisia moral de seu tempo: “Deus também apodrece”.

Ocorre registrar que o apodrecimento de um deus abre espaço para o soerguimento de outro. Afinal, há que ocupar o espaço vazio deixado no imaginário do crente humano. Se durante a Idade Média feudal foi o deus cristão o regente da caminhada civilizacional, este será substituído pelo Estado-nação a partir da Modernidade burguesa. Com a chegada da globalização monopolista digital é a vez do Deus-Mercado-Financeiro ganhar o espaço da fé.

A teologia que dá sustentação a esse Deus-Mercado é o neoliberalismo, uma teoria que se empenha em dar uma explicação total do ser humano e de sua história. Homogeneiza a vida, faz da economia o seu centro, a partir do qual todo o resto explica. Tem a competitividade como norma, funda constantemente a inovação de armas de luta, num exercício em que a única regra é a conquista da melhor posição. A competitividade é exercida em estado puro para obter-se dinheiro em estado puro, por meio do exercício poder em estado puro pelo uso da violência. Mantém-se a propaganda ideológica intensa da “ausência de responsabilidade” perante o outro, seja a coletividade próxima e a humanidade como um todo. Assim “os valores” desse sistema global escorrem sobre todo o edifício social, contagiando suas dimensões de ordem simbólica e imaginária. Quem segue essa bíblia tem a feliz sensação de que esse Deus lhe é fiel.

Em sua intervenção na Cúpula Pan-Americana de Juízes, em 04 de junho, o Papa Francisco chama atenção para o tempo confuso que estamos vivendo. Cada vez mais as democracias se apresentam como meras “declarações formais”, adotando formas anômicas de procedimentos, principalmente com relação às leis que regulam os Direitos Sociais. Ideólogos do neoliberalismo vêm a público sistematicamente propagandear que os direitos sociais estão “fora de moda”. O objetivo desse mantra é o de conduzir corações e mentes das populações a legitimarem a desigualdade e a injustiça social como formas de governo. O Papa alerta que hoje vivemos em imensas cidades que se mostram modernas, orgulhosas e vaidosas. Cidades que oferecem inumeráveis condições de prazer e bem-estar para uma minoria feliz, porém nega teto, comida e trabalho a milhões de humanos de sua mesma territorialidade.

Francisco adverte que um sistema político-econômico, para seu desenvolvimento saudável, necessita garantir que a democracia não seja apenas uma declaração nominal, mas que seja SUBSTANTIVA E UNIVERSALISTA moldada em ações concretas. As democracias precisam velar realmente pela dignidade de todos os seus habitantes sob a lógica do bem comum, em um chamado à solidariedade e uma opção preferencial pelos pobres (cf. Laudato si’, 158). Isso exige os esforços de todas as autoridades e das sociedades para reduzir as distâncias econômicas entre os cidadãos: não há democracia com fome, nem há tampouco desenvolvimento com pobreza, nem justiça na desigualdade.

No Brasil, a partir do Golpe de 2016, estamos vivenciando o desmonte arrasador das políticas públicas de distribuição de renda e de proteção às pessoas mais vulneráveis, construídas nos três governos do PT que enfrentaram cânones da bíblia neoliberal. Primeiro Temer aprovou a PEC do congelamento do gasto público por 20 anos. Depois aprofundou o desmantelamento da proteção social com a liberação da regulação do trabalho. E agora com o desgoverno Bolsonaro, a proposta de reforma de Previdência Social conduzida pelo ministro-banqueiro Paulo Guedes visa garantir os recursos do Orçamento Público para o Mercado Financeiro global. Num país com mais de 15 milhões de desempregados, além de outros tantos milhões em trabalhos precários.

Ocorre que, se por um lado há um banqueiro a defender os interesses do mercado financeiro no governo federal, por outro se tem na pessoa de Bolsonaro um legítimo representante da indústria bélica mundial. O Capitão está usando de todos os meios para liberar posse e porte de armas para a população, numa forma de instituir uma cultura violenta armamentista no Brasil, para ampliar o faturamento dessa indústria. Pela primeira vez em cinco anos, as vendas das 100 principais empresas de armamento do mundo aumentaram significativamente. Juntas, elas venderam em torno de         US$ 400 bilhões em 2016. E a indústria armamentista dos Estados Unidos vive um novo auge, refletido no aumento de cerca de 25% nas vendas de material militar, um crescimento ocasionado devido à escalada de conflitos no mundo apoiada pela política do presidente Donald Trump.

Ao bater continência diante das câmeras de televisão para bandeira estadunidense, Bolsonaro deixa transparecer o compromisso de realizar aqui no Brasil essa política bélica. Na recente “Marcha para Jesus”, ele pediu aos pastores e crentes que forcem os seus representantes parlamentares a votarem pela liberação das armas. O interessante é que diante deste contexto bélico, a cada dia mais e mais obras religiosas cristãs prestam-lhe reverência e apoio incondicional. E fica a pergunta: finalmente, que Deus apodreceu?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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