DESVIO DE ATENÇÃO

Passada a apuração do primeiro turno da eleição presidencial, com o resultado do Presidente Lula obtendo 48,43% dos votos válidos, diversas lideranças – civis e religiosas – da direita brasileira passaram a usar práticas ameaçadoras, chantageando e coagindo seus subalternos e fiéis para votar no candidato representante do bolsofascismo na próxima fase da eleição a realizar-se no dia 30 de outubro, caracterizando situações de assédio moral contra trabalhadores, além de possível crime eleitoral.

A concepção de assédio moral contempla a conduta abusiva por parte daqueles que têm ingerência sobre a vida do trabalhador em suas atividades laborais, atentando contra a sua dignidade psíquica e emocional, expondo-o a situações humilhantes e constrangedoras, capazes de lhe causar ofensa à sua dignidade durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas e assimétricas, desestabilizando a relação da vítima com o seu ambiente de trabalho (Pinto, José Augusto Rodrigues. “O assédio moral nas relações de trabalho”, site
www.assediomoral.org.).

Um dos casos que mais se destacou na semana pós-apuração ocorreu em São Miguel do Guamá, a 140 km de Belém do Pará, por meio de um vídeo circulando pela internet no qual trabalhadores de uma empresa de cerâmicas são coagidos, em sua liberdade do exercício de sua cidadania, pelo empregador. O empresário diz: “Eu sei que aqui nem todo mundo é Lula, mas nós tem que se unir para que ele não ganhe [sic!]”. Os empregados escutam em silêncio. Ele ainda ofereceu R$200,00 para cada funcionário se Bolsonaro vencer a eleição. Fica, portanto, plenamente caracterizado o assédio eleitoral, que é uma espécie de assédio moral. Conforme o Código Eleitoral, em seu artigo 301, “caracteriza-se como coação eleitoral usar de ameaça para coagir alguém a votar em um candidato”.

No campo religioso, registra-se um fato ocorrido ontem, dia 8, numa missa celebrada na igreja matriz da Fazenda Esperança, em Guaratinguetá – SP, pelo clérigo fundador desta associação religiosa, frei Hans Stapel, transmitida pela Rede Vida de Televisão. Durante a celebração religiosa, no momento da homilia, transformando o altar religioso em palanque político, utilizando-se do forte poder simbólico (Bourdieu) que lhe é conferido, Hans afirma amplamente para todo o Brasil, via internet: “Mas me deixa dizer: para nosso trabalho, a direita é melhor. Devemos escolher aquele que é melhor”. Ou seja, na linha típica da cartilha neoliberal, o interesse privado e corporativo (“para nosso trabalho”) se coloca acima do interesse público, do bem comum.

Essa concepção egoísta da supremacia do interesse privado sobre o interesse público deriva, por exemplo, de uma compreensão de Jesus de Nazaré entendido como um mestre religioso apolítico, que se dirige ao indivíduo e não às comunidades em suas dimensões econômicas, políticas e sociais. Até o fato extremo da execução de Jesus na cruz, como criminoso político, é totalmente descartado da análise desses líderes religiosos para os quais o que importa é a vida do mundo pós-morte, numa visão redutiva da mensagem do Reino de Deus anunciado pelo Mestre de Nazaré.

Tal reducionismo é resultado de um desvio de atenção – espontânea ou intencional? – das dimensões sociais, políticas e econômicas presentes neste grupo de religiosos que não exercitam uma reflexão prática e teórica sobre o quanto a mensagem de Jesus é portadora da esperança por mudanças substanciais nas condições históricas (isto é, políticas e sociais) da vidas das comunidades. Pensam apenas num Deus sobrenatural e sobre-histórico, portador de poder finalístico, para o qual a ação das sociedades não tem nenhuma importância, o que importa apenas é o poder desse seu Deus. E é com esses líderes, de uma aparente visão cristã apolítica, que o bolsofascismo conta amplamente em sua ação autoritária de conquista e manutenção do Poder.

Mas Jesus de Nazaré não apenas adentrou os conflitos como os intensificou. Ele oferece o Reino de Deus aos pobres e pronuncia “ais” aos ricos (Lc 6, 20-24). Ele não só realiza ações que irritam os fariseus, como também os critica severamente. E quando determinadas localidades não se sensibilizam com a sua mensagem, ele anuncia a sua condenação.  Quando foi ameaçado por Herodes Antipas que procura mata-lo, Jesus declara abertamente que continuará com suas atividades contrárias aos interesses do Império Romano. É difícil imaginar uma conduta de um profeta popular que seja mais provocadora. As tradições dos Evangelhos deixam escancaradamente claro que Jesus se opôs direta e radicalmente contra a opressão e a exclusão perpetradas pelos grupos governantes com seus seguidores. Provavelmente ele tenha aprendido este ensinamento diretamente de sua Mãe Maria quando esta anunciou que o seu Deus “depôs do trono os poderosos e exaltou os humildes; encheu de bens os famintos, despedindo os ricos de mãos vazias” (Lc, 1, 46-55).

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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