Desordem e Regresso, POR RENATO ÂNGELO

             Overture

Oh! Pátria, patética pátria!

Oh! Pátria, por quê faz-me rir?

Quem ou o quê poderá te redimir?

Se nem o acaso nem a razão te alumbrará

Teu futuro, pela crença, hás de remir

Eruditos papagaios como banquete ao Carcará

No terreno da razão

No árido arado do arisco alarido

A semente não vicejou

A praga se espalhou, espargiu

A nação lépida de então, claudica

À baila zombeteira da marcha

Qual montanha desabada ao chão

Deslizante do abismo à beira

Se nas valas do logos

A solução não se dá à vista

Em outras searas busca, oh poeta

Na temperança o avesso do extremista

Acorrentadas às redes, cabisbaixas

Sôfregas e lívidas, juventudes digitais

Qual bonecos cibernéticos, são capacho

Em coletiva hipnose de janelas virtuais

I

Oh! Pátria, patética pátria!

Oh! Pátria injusta

A patuscada das elites ao erário custa

E do Ipiranga não se ouvem mais renúncias

É o povo, não as margens que são plácidas

E só retumbam em teu seio as denúncias

É o sol da escravidão que nos fulgura

Só o penhor dessa injustiça nos iguala

Que só é fulgido o forte braço da tortura

Nesse lábaro ostentando nota superfaturada

Pátria humilhada! Aviltada! Salvem, salvem!

Sela, presto, teus umbrais!

Da rapina das elites e das multinacionais!

II

Oh! Pátria, patética pátria!

Oh! Pátria vil

Deitado eternamente em coma senil

Em teu berço vexatório passas mal

O gigante se apequena, tão servil

Co´ o marulho de tramóias fustigando o Pré-Sal

És hipócrita, és racista, estático colosso

Teu passado envergonha as três raças

O teu futuro espelha essa vileza

E qual anão diplomático te disfarças

Tuas matas têm mais ONGs

Em teu seio, mais mamatas

Nas mamatas, mais propinas

Violando a sangue quilombolas ribeirinhas

 

III

Oh! Pátria, patética pátria!

Oh! Pátria de confusa língua

De costas ao teu povo morrendo a míngua

Alimentas a usura dos banqueiros

Pela história explorando áureas minas

Engenhosos patriarcas mui ilustres trambiqueiros

Tuas elites outrora deflorando sesmarias

Em terra tua o sem-terra enterras, vais matando

És filial extemporânea lusitana

Enclave em meio a hispâno-sulamericanos

Um inquieto pesadelo te revira no dossel

De terror e desalento a terra afunda

Dos filhos deste solo és madrasta cruel

Teu marido, corja covarde e vagabunda

 

Grand Finale

Oh! Pátria, patética pátria!

De cães raivosos e sequazes verde-oliva

Oh! Pátria, patética pátria!

Oh! Pátria fascista!

Manda ao esgoto tua bancada ruralista

Dê-lhes seu próprio remédio, não sê ataráxico

Retira-lhes os acres, que mordam a língua

Fazendo-os beber o próprio agrotóxico

Exorciza já teu lixo histórico

Despeja tudo na mesma vala

Ontem barões, senhores, clérigos

Hoje os da Bíblia, boi e bala

De Duque-Estrada a falácia esquece agora

Não te tomes por piada!

Desperta do marasmo, já é hora!

Que a lâmina do povo é afiada!

Oh! Pátria, patética pátria!

Oh, terra explorada!

Contra o Tio Sam vai lutar, com brio!

Pátria roubada, Brasil

Renato Angelo

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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