De riso e trevas, por Alder Teixeira

Com recuos na ordem de um por dia, eis que o (des)governo de Jair Bolsonaro vai confirmando o que era apenas uma expectativa preocupante: falta domínio da complexa máquina administrativa e é evidente o despreparo do presidente para comandar o país. Afora os apaixonados, que insistem em festejar o que parece mesmo ser uma tragédia anunciada, a classe média (os muito pobres já assam sobre a fogueira) já dá sinais, tímidos é verdade, de que pode vir a desaprovar o novo governo muito antes do que se previa. É o que já é possível perceber à boca pequena desde que o todo-poderoso ministro Paulo Guedes afirmou, sem meias-palavras, que os bancos públicos vão encolher e os juros para ela, classe média, serão gradualmente apertados.

Mas é o vaivém insano que tem deixado boquiabertos a gregos e troianos. Para além de refletir falta de planejamento, o que já é muito em se tratando de um governo que alardeou ter como compromisso precípuo a reconstrução do país, algumas contradições beiram o engraçado, não fossem demasiado trágicas. O exemplo mais contundente nesse sentido, na perspectiva do que tem aparecido na imprensa e constituído matéria-prima dos principais chargistas e humoristas do país, é o anúncio do presidente Bolsonaro de que acabara de assinar o aumento do IOF e a redução da alíquota do Imposto de Renda, o que seria desmentido pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, horas depois. Ou seja, o presidente da nona economia do mundo assina documentos de que ignora o conteúdo. Vamos combinar: não é inacreditável?

E por falar em Onyx Lorenzoni, foi ele o responsável por uma das mais parvas medidas do governo recém-empossado: depois de “despetizar” (onde estamos?) a Casa Civil com a exoneração de 300 servidores segundo ele aliados ao PT, o projeto teve de ser revisto por uma razão hilária: não havia funcionários para oficializar a decisão. É algo inédito em termos de medida administrativa, o que levou o Brasil a se tornar objeto de gozação em muitos jornais de diferentes países. Um vexame.

Depois vieram, igualmente reconsiderados, a paralisação da reforma agrária e o inominável edital para a compra de livros escolares. Nesta trapalhada, pasmem, estava a desnecessidade de que os conteúdos tivessem o suporte acadêmico. Querido leitor, querida leitora: de tão abjeto, vil, horroroso, o fato não comporta uma qualificação. Já imaginaram o que é um conteúdo didático nascido do acaso, obra da natureza, fenômeno inexplicável da genialidade de um autor que prescinde de qualquer contribuição anterior? Só mesmo tendo à frente do Ministério da Educação um neófito em gerenciamento de uma pasta tão importante para achar possível uma coisa dessas! E não perceber o lamaçal em que está se metendo.

Os dez primeiros dias do novo governo, pois, vêm se tornando motivo de pilhéria em qualquer lugar em que prevaleçam um mínimo de correção intelectual e sensatez. Como disse um prestigiado (e talentoso) colunista, ele também de direita e entusiasta do que seriam as grandes mudanças para melhor, já muitíssimo cedo se pode antever o desastre. Exceto para aqueles “que, mesmo podendo ouvir perfeitamente, só estão escutando o que lhes interessa escutar”. Entre esses, por óbvio, os donos do dinheiro e amantes da especulação sem freios. Mas esses, sabe-se, pisam no pescoço da mãe para aumentar a riqueza.

Ah, em tempo: o nome do citado colunista é Ruy Castro.

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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