De Licânia a Mossoró, o perfil de um contador história

O nosso primeiro entrevistado do ano é um‌ ‌contador‌ ‌de‌ ‌histórias que poetiza‌ ‌porque‌ ‌precisa‌ ‌de‌ ‌tal‌ ‌prática‌ ‌para‌ ‌irrigar‌ ‌o‌ ‌seu‌ verbo,‌ ‌tornando-o‌ ‌mais‌ ‌humano,‌ ‌lírico‌ ‌e‌ ‌solidário. ‌Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

 

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“Eu‌ ‌gostaria‌ ‌de‌ ‌ser‌ ‌aquilo‌ ‌que‌ ‌serei,‌ ‌depois‌ ‌de‌ ‌ser‌ ‌quem‌ ‌hoje‌ ‌sou,‌ e‌ ‌de‌ ‌quem‌ ‌fui.‌ ‌Melhorando,‌ ‌a‌ ‌cada‌ ‌dia.‌ ‌Lendo‌ ‌e‌ ‌escrevendo,‌ ‌todos‌ os‌ ‌dias.‌”

HQ – Instado a dizer-se, num mundo de tantas cobranças, como se diria o escritor, o editor, o homem Clauder Arcanjo?

Clauder Arcanjo – Como é difícil “se dizer”, amiga Heliana! Mas eu ousaria afirmar que o homem Clauder Arcanjo é um eterno menino das ribeiras do Acaraú; um provinciano incurável, a apresentar, nos seus atos e nos seus escritos, o fantástico mundo (quer vivido, quer fabulado) de Licânia, a Santana do Acaraú rediviva.


HQ – Em que mais se realiza como intelectual: no escritor ou no editor?

Clauder Arcanjo – Para o meu alter ego Companheiro Acácio, jamais me realizei: nem como escritor, muito menos como editor. Deixando a rabugice do Acácio de lado, eu diria que eu, pretenso intelectual, me realizo mais como leitor. Colhendo da literatura dos mestres, a seiva para plantar o meu roçado de provinciano escrevinhador. No entanto, confesso, o meu papel de editor me realiza enquanto amigo dos livros. Até pensei em largar a profissão de editor, no entanto o meu outro alter ego (nem Freud explica!) Carlos Meireles me ameaçou com o Complexo de Omisso. E do pecado da omissão quero léguas de distância!


 

HQ – Como escritor, seus textos revelam um aguçado senso de linguagem, um amplo domínio da matéria poética. Por que, em Clauder Arcanjo, o poeta se nos mostra mais tímido que o prosador prolífico?

Clauder Arcanjo – Poesia é coisa muito séria, minha gente! Não é questão apenas de timidez, diria que é muito mais um senhor respeito meu ao exercício da palavra. A poesia é o ápice do ofício literário, logo não se deve praticá-la sem estar “armado” de toda a arte e o engenho necessários (apesar de nunca suficientes) para a sua “tradução”. Não gosto quando me apresentam como poeta, não tenho o título de doutor honoris causa neste labor. Mas, então, por que escrevo poemas, você há de me indagar. Poetizo porque preciso de tal prática para irrigar o meu verbo, tornando-o mais humano, lírico e solidário.

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HQ – Em meio ao cenário de ‘terra arrasada’ em que se transformou o país, qual o papel político de um escritor?

Clauder Arcanjo – Em qualquer cenário, o papel de todo escritor é ser um partidário da literatura: sem bandeiras, sem servilismo, sem oportunismos. A literatura é uma suficiente causa por si só; engrandece-a quem a faz maior, sem se preocupar se alinhada ou não com o cenário que nos rodeia. Muitas vezes o escritor capta o ainda não-vivido, e muitas vezes, por assim agir, é mal compreendido.

 

HQ – De sua lavra, que livro destacaria como o mais representativo do seu estilo, da sua força estética, do seu potencial criativo? Por quê?

Clauder Arcanjo – Deixo esta resposta para cada leitor meu. Se insistir em uma resposta, Heliana, eu diria que, para mim, o livro mais representativo é aquele que estou escrevendo agora. Só este me pertence, os publicados não me pertencem mais.

 

HQ – O prestigiado editor Luiz Schwarcz disse outro dia ser cobrado a escrever suas memórias de editor. Quando virão as memórias do editor Clauder Arcanjo? Como se dá a sua relação com os escritores?

Clauder Arcanjo – Minhas memórias estão imbricadas nos meus livros. No que tange ao meu convívio com os editados pela Sarau das Letras, costumo afirmar que, quando há uma sinergia, estabelece-se uma relação de parceria e de confiança mútua, a curto, médio e longo prazos. Quando não, requeiro logo a separação amigável, em caráter irrevogável. Um editor é mais íntimo de um autor do que o seu advogado.

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HQ – Que livros no prelo da Sarau das Letras você poderia destacar para este início de ano?

Clauder Arcanjo – O primeiro romance de Alder Teixeira: Quase Romance. Esse livro só tem um defeito: não foi escrito por mim. (risos)

 

HQ – Como editor, você se permite interferir no processo de criação dos autores? É chamado a fazê-lo com frequência?

Clauder Arcanjo – Sim, quando sou chamado a fazê-lo, mas sempre pisando em ovos. Parafraseando um escritor mossoroense: alguns escritores são tão vaidosos que parecem dormir de beliche: o leito de baixo para o corpo, o de cima para o ego.

 

Agora conte mais de você nas perguntas a seguir:

 

  • Em que outra época gostaria de ter vivido: a época atual já tem desafios suficientes para mim.

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  • A palavra que eu mais (menos) gosto: Menos gosto: eu. Mais gosto: humildade com transpiração.

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  • Um filme para ver de novo: Sociedade dos Poetas Mortos.

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  • Politicamente, eu daria tudo para vivermos numa sociedade mais humana, mais fraterna e mais igualitária.

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  • Quem você ressuscitaria (não vale parente): deixemos os mortos em paz. A missão é nossa.

 

  • O livro que já li várias vezes: Dom Casmurro, de Machado de Assis.

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  • Eu me acalmo: quando minha musa, a Biscuí, me beija e diz que me ama.

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  • Eu me irrito: quando os injustos querem se vestir com a pele de cordeiros, e quando os homens bons se calam e se omitem.

 

  • A emoção que me domina: toda emoção me domina, sou um vivente montado no cavalo da emoção. E, até hoje, nele não soube pôr arreios.

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  • Um dia ainda vou: viver apenas para a literatura.

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  • Existem heróis? Qual o seu? Meu pai. Seus valores e seu jeito bom são o de melhor que há em mim.

 

  • Religião para mim: é amar os outros, cuidar dos outros, fazer sua parte, ser uma canalha a menos.

 

  • Dinheiro é bom para nos servir; mas tirano, se ao poder chegar.

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  • A vida é cada instante, cada página lida, cada texto escrito. Escrevo porque a vida não me basta (aproprio-me de uma máxima de Gullar).

 

  • Se você tivesse o poder absoluto, o que mudaria? Não quero o poder absoluto; se me impusessem tal “absolutismo”, a ele renunciaria. Mas se me permite um desejo: que houvesse mais livrarias do que bares neste nosso Brasil.

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  • Eu gostaria de ser aquilo que serei, depois de ser quem hoje sou, e de quem fui. Melhorando, a cada dia. Lendo e escrevendo, todos os dias.

 

  • Não perco uma oportunidade de Sou fanático por um livro. E deste bom fanatismo não quero cura.

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  • A solidão e o silêncio são imprescindíveis para se respeitar o outro, se entender a vida em sua plenitude e para que cada um de nós se saiba ator-atriz de uma peça que necessita da presença de todos em sua apresentação no palco do mundo.

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  • O Brasil é resultado de nossas ações e omissões.

 

  • O ser humano vai sempre cair na armadilha dos salvadores da pátria?

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  • Eu sou um contador de histórias, minha mensagem é que a educação se torne um valor em todas as famílias, em todos os governos. Meus pais declaravam: “Vamos deixar para vocês algo que ladrão nenhum conseguirá roubar: educação.” E, por último, permitam-me: andem sempre com um livro debaixo do braço. Falem sobre ele, comentem sua trama com brilho nos olhos… o mundo precisa de mais leitores.

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, escritora, pesquisadora, coordenadora de Cultura em SegundaOpinião.jor Um cronópio num mundo repleto de Famas. Metade de minha alma tem quinze, a outra, duzentos anos.

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