DE FRENTE PRO CRIME, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Recentemente em grupo de whatsapp surgiu um debate em torno de um falso antagonismo entre “intelectualidade” versus “necessidades” materiais humanas. Há nesse grupo quem chegue a defender que “o povão” entra na luta por necessidade, e não por intelectualidade. A classe menos favorecida “não questiona sistemas”, mas a falta de comida, de trabalho e casa. Com certeza, a visão acima nos ajuda a entender o que está ocorrendo no tempo presente brasileiro: a manipulação dos fatos pela mídia global somada ao encobrimento da verdade por setores do sistema jurídico fizeram com que um inabilitado candidato de extrema-direita ganhasse a eleição presidencial de 2018.

Sabemos que a necessidade é da ordem do reino animal. Como humanos, estamos num nível diferente, porque somos capazes de pensar as nossas necessidades, as causas políticas e econômicas dos impedimentos de sua realização, os caminhos lícitos para satisfazê-la. Pensar é o que nos diferencia dos animais, o que nos torna sujeitos (“subjeto”), capazes de sair do escuro da Caverna, como bem atesta Platão.

Mas o que é pensar?

Para o pedagogo Paulo Freire pensar é um trabalho. Difícil porque exige de quem se propõe a executá-lo uma postura sistemática, por meio de uma disciplina intelectual que não se ganha do alto céu, mas praticando-a arduamente. Pensar é uma atitude frente ao mundo pela qual o trabalhador do pensamento coloca-se em posição de humildade face ao saber. Além disso, o pensador assume uma relação dialógica com os autores dos textos cujo mediador é o tema estudado. Pensar envolve compreensão e crítica.

Por sua vez, criticar não é colocar-se em oposição a. O ato de criticar exige um desenvolvimento lógico, consciência e domínio dos processos intelectuais próprios à abordagem de um problema em questão. Requer análise e síntese. Análise é o método de decomposição de um todo complexo em parte, enquanto síntese é o processo de composição dos elementos visando chegar a uma totalidade. A crítica é um trabalho intelectual com a finalidade de explicitar o conteúdo de um pensamento qualquer, para encontrar o que está sendo silenciado por esse pensamento ou por esse discurso. O que interessa para a crítica é exatamente aquilo que não está sendo dito. Por quê?

Marilena Chauí, filósofa, nos ajuda a entender que quando o trabalho crítico faz aparecer tudo aquilo que estava silenciado ou ocultado e se com esse exame o pensamento ou discurso analisado se torna insustentável e começa a se desmanchar, a desmoronar, a tornar-se insustentável, então a crítica encontrou algo muito valioso, encontrou a IDEOLOGIA: aquele tipo de discurso que contém “um silêncio” que se for dito destrói a sua lógica. Por outro lado, a crítica ao conseguir fazer falar um silêncio implícito em um pensamento ou discurso, pode conseguir revelar um pensamento ainda mais rico do que havíamos imaginado até então, ainda mais coerente, ainda mais importante, capazes de nos dar pistas para pensar, de abrir novos caminhos, porque pudemos perceber ainda mais do que parecia à primeira vista. Nesse caso a crítica encontrou um pensamento verdadeiro, ou até mais que isso, uma obra de pensamento propriamente dita.

O majestoso trabalho que o jornalista Glenn Greenwald e sua equipe estão realizando com a investigação da Operação Lava Jato insere-se nesse ambiente crítico descrito acima. Por um lado estão destruindo de forma incontestável o edifício ideológico montado com essa dita Operação, capitaneada por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, voltada para condenar uma das maiores biografias políticas do Brasil – o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva – e o seu partido politico (PT), enlameando a Justiça brasileira como nunca antes se viu nesse país, compondo o subconjunto do Golpe de 2016 perpetrado por outros setores dos Poderes e do Capital. Por outro lado, o Intercept Brasil está demonstrando a importância de um jornalismo democrático, comprometido com os fatos e com processos de emancipação humana, deixando claro que é urgente acabar com a oligarquia midiática golpista do Brasil por ser um impeditivo para o aprofundamento da democracia em nosso país. Enquanto a Rede Globo com suas coligadas esconderam e continuam a esconder os fatos verídicos para o povo brasileiro, Glenn Greenwald nos coloca de frente pro crime. Eis a diferença!

 

 

 

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.