Das janelas ou da alma da Praça, por Heliana Querino

Chegando ao centro da cidade, entro no Leão do Sul para comer meu pastel favorito. Como de costume olho as fotos da praça antiga. Hoje tenho ainda um motivo especial, busco inspiração para escrever uma crônica. O compromisso me deixa ansiosa, esqueço os quadros na parede e sigo rumo à praça. A ilusão de comer junto àquelas pessoas logo passa. Me dou conta do isolamento no meio da multidão. O que parece um coletivo é a dura realidade da separação. Com meu pastel na mão, dou voltas na Praça do Ferreira. É um dia comum no coração da cidade – homens com seus olhos vagos, bancas e bancos, vitrines e fantasmas. Corações que batem sem pulsar. Ao centro, um relógio imponente que a tudo observa – o dia, a noite, a falsa comunicação, os donos de seus próprios conflitos. Os passantes, os andantes, viajantes… E a ilusão de estarmos juntos me angustia por ser apenas uma ilusão. Penso na crônica, no professor e no João do Rio:

– E agora, se vim à praça por uma crônica, não tem janela, vou-me embora?

Cansada, me sento num banco no lado oposto do antigo cinema. Na ponta do banco uma cena faz cócega na minha alma – meia dúzia de velhinhos, bem vestidos e perfumados, jogam conversa fora e dão sinceras gargalhadas. Quem sabe foram compadres do bode Ioiô ou algum deles também vaiou o sol… Ali a comunicação não era falsa! Nostalgia de um tempo que não vivi – quantos pés já pisaram nesse chão, quantas cadeiras nesses bancos já sentaram, quantos beijos, quantas Iracemas… De longe observo à antiga Oswaldo Cruz, quase poética, cercada de modernas vitrines. Estava enganada, a praça é uma grande janela, fisionomia e cópia fiel da cidade; da aldeia à aldeota, dos quatro cantos da praça. Aparente alegria, imagem que seduz, miséria camuflada, passos desesperados que cruzam as calçadas de lá pra cá e de cá pra lá. A vida reduzida ao consumo, a solidão da praça cercada pela multidão. Almas desnorteadas rondam seu chão. E sobre a alma da praça? E a cor da praça? E o coração da cidade tem um coração? Reza a lenda que sim, tem um coração rebelde que tem pressa de viver. Tem uma alma violentada pela vida que, ao cair a madrugada, se encontra com a alma esquecida do maltratado rio que não é o do João, é do velho massacrado e “malcriado” Pajeú. Segundo a lenda, essas almas estão compadecidas com a fragilidade que ainda resta do VERDE daquele que deságua nas praias do Caça e Pesca e Sabiaguaba…. Um toque na minha mão, de súbito sou chamada de volta a realidade:

– Ei tiiia, daí um pedass desse pastel, tô morrendifome ó!

É sinal que a noite se aproxima. Descalço, sem camisa, sem pai, sem comida, banho e lar, sem mãe, sem compaixão:

– Qual seu nome garoto?

– Tia, meu nome é Mossí.

– Mossí ou Moacyr?

– Acho que é desse jeito que a senhora ta falando, tanto faz.

– Me dá o pastel?

Estendo a mão e entrego o que agora é só um pedaço de massa fria. O menino segue contente. Eu já estava calada, agora permaneço sem voz. Lembro do canto de Natal, o prédio amarelo, o grande laço vermelho e as luzes coloridas com promessa de vida feliz. Os pequenos cantores, a fonte e o relógio. A páscoa, os ovos, o peru, a mesa farta, a gravata, o carnaval, o turista, a cegueira. O que é real?

Talvez eu visite a Ponte Velha, a Metálica, o pôr do sol – devo escrever sobre amantes e amores, marinheiros e pescadores, sobre encantos e desencantos, alegrias e dissabores. Talvez eu vagueie pela noite e talvez ela, como chama, me consuma.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - jornalista, pesquisadora, Pós- graduanda em Escrita Literária educomunicadora e colunista do Segunda Opinião.

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