Crise de Representação II: O Estado Laico e o ateísmo

A Rússia deve ter iniciado uma guerra na Ucrânia, na manhã desta quinta feira e Putin fez um pronunciamento na TV russa destacando que o objetivo do ataque realizado “é proteger as pessoas que foram submetidas a bullying e genocídio pelo regime de Kiev por 8 anos”, e também alertou que “quem tentar interferir, ou ainda mais, criar ameaças para nosso país e nosso povo, deve saber que a resposta da Rússia será imediata e levará a conseguências como nunca antes experimentado na história” (Leia a carta de Putin em: https://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/leia-a-carta-ao-povo-russo-escrita-por-vladimir-putin/ar-AAUfe5p?ocid=msedgdhp&pc=U531)

Nosso foco, nessa reflexão, é continuar a refletir sobre a relação do Estado Laico e o ateísmo, na política, com a crise de Representação Política, uma das bases da governabilidade na democracia moderna.

O caso singular da União Soviética, naquele período que, com os Estados Unidos, compuseram os primeiros Impérios laicos liderando a “guerra fria” do século XX, tudo em nome dos valores laicos: a liberdade (EUA) e a igualdade (URSS). Anteriormente, quase todos os impérios foram teocráticos: o Britânico, o Persa,o Otomono, entre muitos outros. O império Chinês tinha outra conotação, pois era religioso, mas não monoteista. Já destacamos também que a maioria dos Estados, sendo Laicos ou teocráticos, tem a ver com os vários fatores sobre a governabilidade da sociedade moderna.

O caso singular da União Soviética que, na guerra fria dominante no século XX veio a se declarar Ateu, e não Laico, tem uma lógica na geopolítica.

Observamos que o Estado laico não significa que o Estado é ateu, é bom reforçar essa característica. O Estado Laico é o respeito pela diversidade de crenças, característica da globalização. A Religião, segundo a Antropologia, é um dos universais da cultura, isto é, está presente em todas as culturas como a Família, a Educação, entre outras instituições. Os antropólogos destacam que esses universais pertencem à estrutura básica de toda comunidade humana, de seu processo cultural. A Sociologia o destaca como instituições que garantem a normalidade das expectativas de comportamento.

O sistema cultural ocidental, na Guerra Fria do século XX, sob a liderança do Império Americano, dominava o Cristitanismo como religião dominante e um lento, mas persistente processo de secularização, isto é, onde o liberalismo passava a ser dominante nas elites. É a garantia de que o Estado Laico iria respeitar as crenças no espaço privado.

Por que a Rússia se declarou ateia? Não apenas para se contrastar com o império americano, Laico, mas por possuir no seu domínio imperial, nos seus satélites, as principais religiões monoteístas, que buscam a hegemonia global: o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo. Elas buscam criar “um só rebanho e um só pastor”. A União Soviética tolerava sua existência na sociedade civil, mas não tolerava que suas bases de lideranças globais localizadas no Ocidente pudessem interferir no processo político interno e na “guerra fria”.

A Religião, portanto, não desapareceu na fase da guerra fria do século XX, nem no Ocidente, nem no Oriente. As expectativas do Iluminismo no século XVIII, de que a religião ficasse como folclore, ou no Positivismo, no século XIX, de que a religião da Humanidade fosse liderada pela ciência, não prosperaram no sentido de “uma ideologia sem partido”. O Estado Laico, e mesmo o Ateu assumido pela União Soviética, eram orientações políticas da globalização, da geopolítica, e não uma orientação religiosa.

O que estamos assistindo no século XXI, após a queda do muro de Berlim e das Torres Gêmeas, com diferença de apenas uma década no final do século XX, foi que os modelos de ver o processo de globalização, os modelos de análises, devem incorporar essa complexificação. Os autores de esquerda que falavam em “Consciência política”, o faziam pensando apenas na situação do indivíduo no mercado. Era a “consciência de classe”. Continua, mas tem que incorporar outros aspectos culturais no processo político. Estamos, portanto, iniciando também uma guerra fria em outro nível daquela do século XX.

Um aluno de Ciências Sociais comentou que Marx era ateu. Embora Marx não escrevesse sobre religião, mas de economia e política, o que significa “ele ser ateu” ou não? Essa é uma consequência do que foi apresentado. Nosso próximo artigo discutirá o caso de Marx e seu papel.

Vamos em frente!

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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