CRISE CIVILIZATÓRIA MODERNA E GIRO DECOLONIAL

Para o pensamento decolonial, na visão de alguns dos integrantes da rede Modernidade/colonialidade, o sistema-mundo colonial moderno se constituiu no século XVI com o início das navegações oceânicas, que financiadas pelos genoveses, mas organizadas por Portugal e Espanha, permitiram, como marco histórico moderno, a conquista das Américas em 1492. A grande navegação ibérica, além da conquista das Américas, abrira o comércio com o Oriente. A partir da exploração de riquezas minerais (prata e ouro) e especiarias, Portugal e Espanha abriram relações comerciais com o Mediterrâneo, na época, centro comercial, financeiro e cultural do mundo dominando pelos árabes.

A concepção de sistema-mundo moderno no pensamento decolonial tem origem nas pesquisas do sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein, que estudou o capitalismo a partir do seu processo de formação histórico. De acordo com o estudioso, compreender esse sistema como modo de produção em si, ou seja, como modo de produção puro, como fez Karl Marx, não esgota sua compreensão, uma vez que sua constituição histórica determina parte de elementos-chave específicos do sistema econômico, social e político que fazem parte das formações e da própria essência do capitalismo. Já a concepção de sistema-mundo colonial moderno, no giro decolonial, trata-se do tripé da colonialidade: do poder, do saber e do ser.

A crise contemporânea que tanto nos afeta e da qual tanto se fala, para pensadores como Ramón Grosfoguel, é uma crise do padrão civilizatório da modernidade e não apenas uma crise do capitalismo. No pensamento decolonial, segundo esse autor,  para quem opera com o conceito de colonialidade, não existe um sistema econômico em si, existem sistemas civilizatórios que comportam sistemas econômicos, não existem sistemas econômicos sem sistema civilizatório. O capitalismo e o socialismo são sistemas econômicos produzidos pelos fundamentos do processo civilizatório da modernidade e a modernidade, embora tenha produzido coisas incríveis e importantes para a humanidade,  é um projeto civilizatório destrutivo.

O sistema civilizatório moderno é destrutivo por várias de suas características constitutivas: é ecologicida, porque está organizado numa racionalidade cartesiana da dualidade entre corpo e mente, homem e natureza, sujeito e objeto que transforma a natureza em objeto de produção e consumo e recipiente para várias formas de lixo e poluição. A natureza é um objeto externo disponível para o processo incessante de produção e consumo, em que o extrativismo é a forma, por excelência, de extermínio da meio ambiente. É genocida porque está organizado na lógica ocidental racista de anulação do outro, do não branco, europeu/norte-americano. É feminicida e homofóbico, porque organizado na lógica do patriarcado ocidental e na heteronormatividade judaico-cristã. É epsitemicida, porque fundamentado no eurocentrismo, como produção de conhecimento e subjetividade, em que um pensamento localizado, particular e provinciano se coloca com pretensões de validade universal e critério único de objetividade e verdade. É imperialista, porque se desenvolve na lógica de um pensamento único e de fim da história. Um padrão de colonialidade do poder que estrutura toda forma de desenvolvimento do planeta a partir de um centro econômico, político, cultural e militar hegemônico. Esse centro, primeiro foi a Espanha, a Holanda e a Inglaterra até a segunda Guerra Mundial e, depois, o Estados Unidos, que tem o lugar hegemônico ameaçado pela China.

Capitalismo e socialismo são projetos da civilização moderna que apostam no fim da história como ponto de realização da promessa da modernidade: a emancipação. Para os capitalistas, o fim da história, o fim último da razão, é a realidade concreta, ou seja, o Estado moderno (mínimo ou de bem-estar social). Para o comunismo, segundo Karl Marx, o fim da história é a recuperação do homem da sua condição de ser genérico, com o fim da propriedade privada, que porá fim aos processos de alienação, divisão do trabalho e de exploração do trabalhador.

Todavia, a queda do Muro de Berlim é o marco simbólico da derrota do sistema econômico socialista como condição de possibilidade de realização do comunismo. É o marco do triunfo do capitalismo como sistema único da Modernidade. Assim, com a derrota do socialismo, o inimigo do capitalismo é o capitalismo. Os capitalistas neoliberais, do Estado mínimo, disputam com os capitalistas, desenvolvimentistas e keynesianos (do Estado do bem estar-social), quem são os mais zelosos guardiões do projeto da modernidade. No campo da luta política, a luta dos capitalistas neoliberais contra os capitalistas desenvolvimentistas e keynesianos é ideologicamente travada como a da esquerda contra a direita e suas derivações: como extrema direita e a extrema esquerda, centro, centro-direita e centro-esquerda.

Fruto da Modernidade e do eurocentrismo (modelo de produção de conhecimento e de subjetividade) moderno, o marxismo, como pensamento crítico da economia política, ancorado na análise profunda que Karl Marx realizou sobre a lógica do capital e da sua teoria do valor, não consegue imaginar um mundo para além da Modernidade,não consegue fazer uma crítica ao processo civilizador. Alguns marxistas estão presos à armadilha dualista cartesiana entre luta de classes e lutas identitárias. Como projeto imbricado na lógica de dominação moderna, colocam-se na perspectiva de pensamento único capaz de realizar as promessas da razão moderna, de transformar uma classe particular, o proletariado, em classe universal.

Enfrentar o capitalismo, o que não deixa de ser um desafio muito importante e necessário, é ficar nos limites da crise econômica e política. Todavia, fazer o giro decolonial é enfrentar a crise civilizacional, é enfrentar os múltiplos processos de dominação, subalternização, exploração e colonialidade que ameaçam as várias formas de vida no planeta, é articular o micro e o macro ao mesmo tempo. Significa, portanto, não desvincular as lutas de classes da luta contra o racismo, a homofobia, o feminicídio, o epistemicídio, o ecocídio, o genocídio econtra o imperialismo, ou seja, a luta contra o padrão mundial de poder.

Trata-se de uma luta por novos horizontes, por outro padrão civilizatório, em que vários projetos econômicos e de vida coexistam com suas diferenças e formas de dirimir conflitos. É uma luta que, por meio da qual, como diz Boaventura de Sousa Santos, precisamos pôr fim ao império cognitivo da modernidade, precisamos de uma ecologia de saberes, das epistemologias do sul.

Uribam Xavier

Uribam Xavier - gosta de café com tapioca e cuscuz, peixe frito ou no pirão, de frutas e verduras, antes de ser hipertenso era chegado a uma buchada e a um sarapatel. Frequenta o espetinho do Paraíba, no boêmio e universitário bairro do Benfica [Fortaleza], e no pré-carnaval segue o bloco Luxo da Aldeia. É professor, ativista decolonial e anti-imperialista, escrever para puxar conversa e fazer arenga política. Seus dois últimos livros são: “América Latina no Século XXI – As resistências ao padrão Mundial de poder”. Expressão Gráfica Editora, Fortaleza, 2016; “Crise Civilizacional e Pensamento Decolonial. Puxando conversa em tempos de pandemia”. Dialética Editora, São Paulo, 2021

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