Consciências que incomodam, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Desafiar Deus parece não ser uma tarefa simples, nem tampouco pacífica. Que o digam os precursores do rompimento com o pensamento da cristandade. Afirmar a primazia da razão sobre a hegemonia da fé cristã correspondia à introdução de uma ruptura insanável na arquitetura de poder da época fundamentada em indiscutíveis alicerces dogmáticos cristãos. Giordano Bruno, ao desafiar a visão teocêntrica do Cosmo, desafiava a Igreja e, consequentemente, Deus. O destino de Bruno foi a execução na fogueira da Santa Inquisição.

A ideia da purificação pelo fogo também vem em relevo com outra personagem notória da hegemonia cristã. Na Espanha, em Sevilha, o Inquisidor-Geral Tomás de Torquemada tornou-se a própria lenda da Inquisição condenando ao fogo santo o judeu, o mouro e o iluminista. Os seus autos-da-fé são a encenação mais refinada de um sistema de terror destinado a impressionar e a domesticar as populações.

É justamente em Sevilha que Fiódor Dostoieviski resolve fazer com que Jesus retorne à terra. Jesus inaugura com seus milagres o retorno, fazendo com que a multidão o reconheça e o siga. Mas eis que chega a polícia do cardeal Inquisidor aprisionando Jesus no calabouço. A partir daí dá-se início a um dos mais belos monólogos da literatura mundial. “Por que vieste inquietar-nos? Amanhã vou condenar-Te a arder no fogo como o pai dos hereges, e este povo que hoje beijou os teus pés precipitar-se-á, amanhã, ao menor sinal meu, para atear chamas da tua fogueira. Estás ciente disto?”.

Dostoieviski com sua genialidade denuncia o centro motor de todas as ditaduras do mundo. Elas exigem das populações uma disciplina cega e um respeito inquestionável à sua hierarquia em troca de certezas tranquilizadoras por meio do tolhimento de suas liberdades. Tudo o que for considerado questionamento à ordem estabelecida é classificado como heresia e deve sofrer a punição correspondente, sem a menor piedade. Até o Jesus verdadeiro será condenado pelo poder constituído todas as vezes que o incomodá-lo. A Verdade somos nós, eis a mensagem do bispo Torquemada.

No dia primeiro de janeiro de 2019 o Brasil iniciou mais uma etapa de seu longo amanhecer democrático, como diria nosso saudoso Celso Furtado. Sobre os “fakes” e manipulações da campanha eleitoral passada muito já foi dito. Cabe-nos agora acompanhar e refletir sobre os primeiros e próximos passos que nos aguardam nesta travessia. Para isso é preciso refinar os ouvidos para escutar o que está sendo dito publicamente com olhos aguçados para ver se e como as ações correspondem às palavras.

As primeiras palavras são, logicamente, retiradas dos primeiros pronunciamentos. Em seu discurso durante a cerimônia de transmissão do cargo de ministro da defesa ao general Fernando Azevedo, no dia 02 de janeiro, o presidente Bolsonaro afirmou: “Hierarquia, disciplina e respeito é o que fará do Brasil uma grande nação. Meu muito obrigado, comandante Villas Bôas. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”. Eis, além da confissão pública, uma das colunas centrais do pensamento político conservador do novo presidente: hierarquia, disciplina e respeito (à hierarquia).

Há ainda a outra coluna de sustentação ideológica que se reveste de uma roupagem mística que Bolsonaro impõe a si mesmo, como é possível atestar em seu discurso de recebimento da faixa presidencial. Ele disse: “Esse momento não tem preço. Servir à Pátria como chefe do Executivo. E isso só está sendo possível porque Deus preservou a minha vida. E vocês acreditaram em mim. Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Bolsonaro, em cada pronunciamento, constrói sua autoimagem de emissário de Deus para manter uma relação direta com o povo de Deus (seus eleitores e eleitoras). Essa relação não concebe nenhum tipo de mediação, é uma relação que visa a estabelecer-se diretamente, cujas vozes repetidoras são aquelas escolhidas pelo poder, incapazes de questionamentos, voltadas para o fortalecimento de sua imagem, tal como os autos-da-fé publicados por Torquemada.

Em contrapartida às primeiras palavras, há os primeiros atos. Destes destacamos dois. Como “servidor da Pátria”, Bolsonaro decretou o novo salário mínimo nacional fixando-o no valor de R$998,00 (novecentos e noventa e oito reais), abaixo da estimativa constante no Orçamento da União previsto para R$1.006,00 (um mil e seis reais), acarretando uma perda de R$8,00 mensais, correspondentes a 02 (dois) quilos de arroz agulhinha tipo 1 a menos mensalmente na cesta alimentícia do trabalhador e da trabalhadora brasileiros.

E a extinção por meio da Medida Provisória 870 do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) cujo objetivo era o de assegurar o direito humano à alimentação adequada, mobilizando e apoiando entidades da sociedade civil na discussão e na implementação de ações públicas de segurança alimentar e nutricional. A inclusão do direito à alimentação na Constituição, a aprovação da Lei Orgânica, da Política e do Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o Plano Safra da Agricultura Familiar, a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica e o Programa de Aquisição de Alimentos e as compras institucionais de alimentos da agricultura familiar para escolas e outros órgãos públicos são algumas das propostas que surgiram em debates no Consea e se tornaram políticas públicas para a garantia de uma alimentação saudável para toda a população. Criações dos governos passados, pecados cometidos pelos socialistas.

São com estas e outras palavras, com estes e outros fatos que se inicia esse novo governo de traço conservador, militarista, hierárquico, teocrático. Uma reedição tosca de tempos sombrios do passado não tão remoto. Por questões de espaço editorial, é-nos impossível comentar brevemente as palavras de alguns ministros empossados, a exemplo do ministro das Relações Exteriores e da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos que declarou ser “terrivelmente cristã”. Mas o que diria o Jesus verdadeiro disso tudo?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor