CONHECEREIS A VERDADE…por Emanuel Freitas

O intervalo entre a semana que passou e a em que estamos foi marcado, sem sombra de dúvidas, pelo intenso debate no meio político (sobretudo midiático) em torno da relação entre o presidente Jair Bolsonaro e as instituições. Isso por causa do vídeo por ele compartilhado, com seu teor fortemente adverso ao Parlamento e ao STF, e, também, pelo apoio dado por ele às manifestações marcadas para esse domingo que, sob a égide de “à favor do Brasil”, nada mais são do que um apoio irrestrito ao presidente e de oposição a quem, e a que, se lhe opuser, incluindo as instituições.

Análises e mais análises foram feitas nesse sentido: a ameaça real às instituições como marca desses protestos.

Pois bem, o “diabo” é que para bons leitores, como este autor (modestamente), da política brasileira, essa leitura já estava presente há muito tempo, e não foram poucos (como este autor) que alertaram para o perigo real que a escolha posta em Bolsonaro significaria.

Apresentado como antiestablishment, e convencido parcela considerável do eleitorado dessa falácia, Jair parece ser, na verdade, um antiinstituição, e disso já dera mostras muito antes de chegar ao Planalto.

A instituição exército não fez seu papel, durante o regime inaugurado em 1964, pois torturou mas não matou, disse ele. Da instituição “voto” não aceitaria outro resultado que não sua vitória. À imprensa não permitiu sabatiná-lo durante o pleito, a não ser daquela que lhe fosse favorável, como o faz até hoje.  O IBAMA perde o funcionário que, fazendo sua tarefa institucional, multo-o em ato ilegal. Decretou o funcionamento dos conselhos participativos. Vetou publicidade do Banco do Brasil, ordenando passar por ele toda e qualquer ação publicitária a posteriori. Dentre os procuradores, escolherá para a PGR aquele que não fizer “militância”, o que significa dizer que “não faz o que deve ser feito”. A lista poderia ser mais ampla, o que cabe ao leitor fazê-lo.

Como não lembrar do apreço de seu filho 02 pelo Supremo, cujo fim, de tal “supremo”, caberia a uma dupla: um cabo e um soldado? Observe: uma instituição pode ter seu fim, diz ele, com uma simples ação. Ao sabor do grande pai!

Para deixar mais claro seu desapreço pelo que é institucional, o presidente divulgou vídeo em que um pastor afirma ter sido ele uma escolha divina. Leia-se: escolha de Deus não se questiona. Obedece-se, entra no plano do “destino”. Está, o “ungido”, acima do terreno. Tem um direito “divino”, a quem o direito constitucional, enquanto existir (subsistir), deve render-se. A “instituição” passa a ser o “chamado”; ao que se lhe opõe (imprensa, Congresso, STF, Conselhos, urnas) deve-se liquidar. É o que querem as “ruas” e “redes” que se preparam para vociferar no domingo.

Durante a campanha, Jair usou e abusou do versículo bíblico de João 8,32, cuja primeira parte dá título a esse texto. A segunda parte diz: “… e a verdade vos libertará”. Pois bem, que a verdade dos fatos a partir da chegada de Bolsonaro ao poder possa, de fato, libertar os ainda crédulos de sua congruência com o regime democrático-institucional.

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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