Confidencias a Parra

Tudo isso banhado

Por uma luz entre irônica e pérfida

Nem muito esperto nem doido varrido

Fui o que fui: uma mescla

De vinagre e azeite de oliva

Um embutido de anjo e de besta!

Quando me banhava no rio Acaraú, com margens prenhes de oiticicas, sentia-me em parte herói-criança, em parte mesquinho e reles ribeirinho. Contudo, ao mergulhar nas águas em remanso, florava em mim a flor da mágica alegria, enquanto naufragava, no sossego do meu corpo, a avareza que recobria os meus tacanhos dias.

Na manhã em que me alumbrei com a poesia, acreditem, o rio para mim se fez um poema épico infindo.

Minha poesia pode perfeitamente não conduzir a lugar nenhum:

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Acredito que o êxito será completo

Quando conseguir inventar um caixão de fundo duplo

Que permita ao cadáver espiar outros mundos.

Na tarde escura, o sineiro anunciou mais uma morte. Mamãe, com o terço nas mãos pequenas, já rezava pelas almas no Purgatório, e a velha Lídia a me avisar que já estavam a beber o morto na casa do finado.

Trêmulo, eu insistia em visitar o falecido. Este, estirado sobre a cama no quarto, esperava o caixão de defunto, enquanto os homens riam na cozinha iluminada.

Quando, altas horas, o caixão chegava, as damas carpiam um choro soletrado. Depois de encomendarem o corpo, as portas se abriam; e os homens, circunspectos e com os olhos vítreos, cambaleavam com o féretro em direção ao sepulcro.

Ao dormir, imaginava a semente do cadáver a brotar como fantástica flor adusta.

Minha posição é esta:

O poeta não cumpre sua palavra

Se não muda os nomes das coisas.

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Mais uma coisa:

Eu não vejo nenhum inconveniente

Em me meter numa boa enrascada.

Nós, poetas, nos meteremos em supremas enrascadas se ousarmos o inconveniente de: mantermos o nome das coisas, honrarmos a palavra (mal)posta e… se vigiarmos (para garantirmos) a mesmice da vida.

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Responde, sol escuro

Ilumina um instante

Mesmo que depois te apagues para sempre.

A aurora só prevalecerá se o sol for colhido toda manhã no arrebol mais sombrio; se o instante claro-escuro dominar o lusco-fusco. Este, cuidado, se finge de alvorada, quando, em verdade, é canhestro apagão.

Um dia de sol vale por toda uma invernia.

A poesia se comportou muito bem

Eu me comportei horrivelmente mal.

A poesia terminou comigo.

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Dissimulo minhas chagas a granel

E rio de todas minhas astúcias

Porque sou um ateu timorato.

Não precisas fazer a contabilidade das chagas, nem o balanço das melancolias. Se me apresentares tais números, haverei de quebrar tal passivo com o riso galopante dos argonautas. Sim, eles estão cá dentro, loucos por um motivo para zunirem no céu da minha utopia, numa busca desenfreada por mais um velocino de ouro.

Para os mais velhos

A poesia foi um objeto de luxo

Mas para nós

É um artigo de primeira necessidade:

Não podemos viver sem poesia.

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É preciso ter paciência com o sol

Já faz quarenta dias

Que não o vemos em lugar nenhum.

Você, leitor de fraque e cartola, saiba que meus poemas estão expostos, há quarenta dias, ao sol e à chuva… e ninguém, a caráter, os lê para mim.

Para ser poeta, nestes dias rabugentos e pragmáticos, haveremos de ter a paciência de burros.

Os poetas não têm biografia

A história de um escritor é contada em sua obra. Coitado de mim, ainda insisto em ser (in)digno de um curriculum vitae.

Só com a beleza me conformo

A feiura me causa dor.

Obs.: os trechos em itálico foram extraídos da obra Só para maiores de cem anos: antologia anti(poética), de Nicanor Parra. — São Paulo : Editora 34, 2019 (2ª Edição).

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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