Como se faz para roubar rubis?

Em 1944, Ingrid Bergman e Charles Boyer estrelaram o filme “Gas Light” (À Meia Luz), do diretor George Cukor, no qual o marido encantador (Boyer) tenta convencer sua mulher (Bergman), e as pessoas que a cercam, de que ela é louca, manipulando de forma sutil e sistematicamente pequenos elementos e situações do dia a dia, insistindo de que ela está errada ou que se lembra dos fatos de maneira incorreta. Ao colocar em xeque a sanidade da mulher, o marido tem por objetivo roubar-lhe os rubis guardados em sua posse.

Essa é uma das táticas da guerra híbrida fortemente atuada pelo imperialismo estadunidense, com o apoio de seus satélites europeus que formam a OTAN (NATO), com a construção de inversões da realidade de forma intencional, inclusive utilizadas amplamente no tempo presente pelos estamentos militares destes países, visando condenar publicamente supostas “conspirações” desenvolvidas por inimigos por eles previamente escolhidos.

Um exemplo clássico recente destas manifestações trata-se quando o autointitulado não-ideológico Olavo de Carvalho realizou inversões de verdade afirmando que “as Ongs é que tocam fogo na Amazônia”, “que as urnas eletrônicas estão fraudadas”, “que o PT desenvolveu a mamadeira de piroca”. Também são inversões de verdade “o powerpoint de Deltan Dallagnol”, incentivado pelo comandante da Lava Jato Sérgio Moro, para condenar Lula, ou quando a mídia corporativa afirma que “os militares brasileiros são meramente técnicos, politicamente neutros, que ocupam mais de 1/3 dos cargos do Planalto, mas que quem aparelha o Estado é o PT”. Ou ainda quando o Pentágono estadunidense afirmou que “o Iraque teria um arsenal de armas químicas de alta destruição”. Para estes senhores formuladores e operadores da guerra híbrida, “não há distinção entre guerra e política”. (Leiner, Piero. O Brasil no espectro da guerra híbrida. São Paulo: Alameda, 2020).

Portanto, as ações de guerras híbridas não causam o impacto emocional dos tanques e soldados no front de batalhas. O Híbrido é algo que habita uma espécie de zona cinzenta, e os processos que envolvem a guerra híbrida são tão mais eficientes quanto mais imperceptíveis. Trata-se, portanto, de uma guerra subliminar. Uma guerra feita de palavras, imagens, de inversões da realidade, de volatilidade da informação, de emotividade, de provocação dos ressentimentos escondidos nos porões dos indivíduos, de preconceitos de classe, raça, cor, gênero como também das convicções irracionais enraizadas em cada mente humana.

As consequências de uma guerra híbrida não são corpos estirados no chão a céu aberto, acertados pelos projéteis e filmados pelas lentes do fantástico; mas são as vítimas invisíveis da desestruturação econômica e política causada pelos senhores da guerra, expressa em desemprego, fome, desnutrição, precarização do trabalho e das redes de proteção social, da violência estrutural dos aparelhos de polícia e de justiça, do açodamento de polarizações internas que alimentam a violência entre irmãos de uma mesma nação.

No ano de 2014, no Brasil, com a instauração da Operação Lava Jato, começava-se a perceber algo de muito familiar contido nas táticas das guerras híbridas, articulado pelos sistemas midiático, jurídico e militar brasileiros, desaguando no aceite do impeachment da presidente Dilma Rousseff, pela Câmara Federal, em 17 de abril de 2016. Em sua pesquisa documental em torno desse tempo histórico, o sociólogo Piero Leiner anota, que olhando para os militares brasileiros que estavam refletindo sobre a guerra híbrida, haver encontrado um artigo publicado em 2015 no site defesanet.com.br no qual um alto oficial militar mencionava a guerra híbrida como parte de uma estratégia do golpe perpetrado na derrubada do governo da Ucrânia. (Leiner, Piero. Op. Cit.).

O jornalista Pepe Escobar, experiente profissional na cobertura da geopolítica mundial, também descreve que no Manual de Guerra Híbrida a percepção da influência de uma vasta classe média não-engajada é essencial para chegar ao sucesso, de forma que esses não-engajados tornem-se, passo a passo, contrários às suas lideranças politicas, levando-os a ampliação do descontentamento, por meio de propaganda e esforços psicológicos para desacreditar o governo (como no Brasil de Dilma Rousseff), preparando a população para os diversos tipos de manifestações e rebeliões. (Escobar, Pepe. O Brasil no epicentro da Guerra Híbrida. https://jornal-ggn.com.br/analise/o-brasil-no-epicentro-da-guerra-hibrida-por-pepe-escobar/).

Um dos resultados reais, para ficar apenas em um único exemplo, da guerra híbrida implantada no Brasil, para derrubar o governo Rousseff e colocar no poder o bolsofascismo, por meio de contrarreformas sociais e econômicas, contra a população brasileira e o patrimônio público nacional, pode ser plenamente apreciado no acompanhamento dos balanços da Petrobrás. Em 2021 a petrolífera obteve lucros da ordem de R$106,7 bilhões (alta de 1.400% em um ano), promovendo uma distribuição de dividendos para os acionistas num total de R$101,4 bilhões, a maior distribuição da história da petroleira. Para que isso pudesse ocorrer foi preciso que o povo brasileiro financiasse os acionistas bilionários pagando preços dolarizados pelos combustíveis: somente a gasolina (R$7,00) já foi reajustada em 116% e o gás de cozinha chegou a 100,1% de aumento no governo Bolsonaro. Curiosamente, uma das inversões da realidade produzidas pelas campanhas propagandeadas para a derrubada do governo Dilma Rousseff foi justamente, à época, o alto preço dos combustíveis (gasolina em média a R$3,00).

O conflito da Ucrânia vem compor mais um capítulo da guerra híbrida. A Rússia foi forçada, pela via das armas, devido ao não atendimento às suas advertências e proposições, desde o discurso de Vladimir Putin na Conferência de Munique, em 2007, a fazer o que havia proposto pela via diplomática: neutralizar a expansão da OTAN pelas fronteiras do leste do globo, buscando inclusive reverter parte de suas perdas, impostas pelo imperialismo ocidental pela derrota do final do século passado. O contexto se lhe apresenta num cenário favorável diante da humilhação militar dos EUA depois de vinte anos de invasão do Afeganistão, bem como pelo fracasso de sua violenta política de intervenções militares com o objetivo de mudar governos ou regimes da Líbia, Iraque, Síria, Iêmen, e do próprio Afeganistão, e da insuficiência de suas sanções econômicas contra o Irã, a China e a própria Rússia. (Fiori, Luís. Notas sobre a guerra na Ucrânia. https://aterraeredonda.com.br/notas-sobre-a-guerra-na-ucrania/).

A declaração da China e da Rússia, em 07 de fevereiro de 2022, consagra a necessidade de o Ocidente respeitar o fato da existência de múltiplas culturas e civilizações dentro do mesmo sistema interestatal. Além disso, anuncia o fim do poder e da ética mundial unipolar imposta pelo Ocidente nos últimos 300 anos da história do sistema mundial. Parece que, a partir de agora, os EUA e seus satélites europeus não conseguirão roubar os rubis com a mesma facilidade dantes.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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