Como morre a democracia, por Álder Teixeira

Encerra-se a apuração com uma surpreendente reação do PT frente às forças de ultradireita alinhadas em torno de Jair Bolsonaro. O PT vai ao segundo turno, em desvantagem, é verdade, mas com chances de reverter os números que se projetam nas muitas análises levadas a efeito pela crônica política brasileira, com raríssimas exceções merecedora de algum de respeito.

O show de canalhice da Globo, à frente os fantoches liderados pelo infame Merval Pereira, do Globonews, por exemplo, beira o que existe de mais sórdido em termos de jornalismo. Insistem em bater na tecla de que a eleição do candidato do PSL é inevitável e que o Partido dos Trabalhadores sai das eleições de 2018 reduzido a cinzas.

Quanta desfaçatez. Os idiotas não têm olhos para enxergar o que parece óbvio: o PT enfrentou no primeiro turno os mais abomináveis instrumentos de manipulação do processo, a pouca vergonha de um STF nitidamente inclinado a atrapalhar o pleito em favor de Jair Bolsonaro, na perspectiva do que fez seguidas vezes na última semana: cancelou 3,5 milhões de títulos no Norte-Nordeste (expressivamente favorável a Fernando Haddad); impediu sem amparo legal a entrevista de Lula à Folha de S. Paulo, e usou desavergonhadamente uma delação premiada, de abril, às vésperas da eleição, com o intuito de prejudicar as candidaturas do PT na votação desse domingo.

Ainda assim, o PT elegeu a maior bancada de deputados federais, três senadores (o efeito da maracutaia ceifou Dilma Rousseff e Eduardo Suplicy, em Minas e São Paulo, respectivamente) e três governadores no primeiro turno. Fátima Bezerra, o quarto nome, deverá ser eleita no segundo turno no Rio Grande do Norte.

Não bastasse o jogo consentido de tramoias, com o Judiciário encabeçando a podridão e o cabotinismo mais rasteiro, o TSE arma um palco de indignos para tentar vender ao mundo a ideia de que o Brasil exercitou a Democracia exemplarmente bem. Como caras-pálidas? Como assim?

É ler o recomendadíssimo Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, dois respeitados pesquisadores de Harvard, para entender que, diferentemente do que houve antes, a democracia está sendo assassinada em dezenas de países sob os auspícios da “legalidade”. Exatamente como ocorre hoje no Brasil, ou desde o golpe de 2016 para ser mais preciso, para ficar num exemplo clássico do que o cientista político Larry Diamond, citado pelos autores desse livro incontornável, define como “recessão democrática”  —  o fim do processo contínuo de ampliação das democracias no mundo.

O que se vê no Brasil, e as eleições de ontem confirmam, é que se materializa de forma dificilmente reversível um trabalho de desconstrução dos alicerces da democracia. Tudo feito sob a forma da lei, num conluio indisfarçado envolvendo os tribunais superiores, parte significativa da imprensa e o alto baronato da Av. Paulista, da Faria Lima e adjacências.

No Brasil que se esboça com eleições de 2018, como está visível à frente de todos, a democracia está seriamente ameaçada, de modo legal, com a chancela despudorada das instituições às quais cabia salvaguardá-la. É uma vergonha!

 

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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