“Com amor (à simplicidade), Van Gogh” – Sérgio Costa

Quando eu frequentava as aulas de desenho do SENAC ainda pivete, me ensinaram de tudo um pouco sobre pintura: perspectiva, ponto de fuga, luz e sombra, pontilismo, tinta guache, tinta a óleo, nanquim e uma ruma de outros conceitos e técnicas que deixei de lado quando entrei perenemente em um relacionamento sério com a música e a guitarra.

Só não me ensinaram que a pintura tinha o poder de fazer alguém chorar.

E foi depois de uma sessão de cinema cheia de soluços, vista embaçada e nenhum lenço por perto que descobri isso. Mas não foi necessariamente uma pintura que deixou meus olhos mais alagados que a Av. Heráclito Graça nas chuvas de abril – nem malditos ninjas-mal-posso-ver-seus-movimentos cortando cebolas escondidos nas poltronas da fileira acima na sala de projeção. Foi a história de um artista, contada no desconcertantemente belo filme “Com Amor, Van Gogh” (“Loving Vincent”, 2017), uma animação dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman, sendo uma coprodução entre EUA, Polônia e Reino Unido.

A narrativa se debruça na história de Armand Roulin, que após um ano do suicídio do pintor holandês, recebe de seu pai, o carteiro e amigo pessoal de Van Gogh, uma carta escrita por ele para seu irmão, Theo Van Gogh. Porém, ela jamais chegara a seu destino. Instigado pela história recente da morte do pintor, Roulin parte rumo à pequena cidade francesa de Arles a fim de entregar a carta e investigar seu até então intrigante desaparecimento através de contatos com seu irmão e amigos que testemunharam as últimas semanas de Vincent. A grande pergunta era: ele realmente se matou?

Essa dúvida dá o tom conspiracional do filme, mas é um elemento narrativo que se torna quase que dispensável ante a estética e riqueza da produção. Isso porque a obra é o primeiro filme da história a ser feito em telas de pintura reais que representam cada frame (sim: ca-da fra-me) feitas à mão por mais de 100 artistas em um trabalho colaborativo não menos que louvável e surpreendente. Primeiro, foi rodado com atores em cena. Em seguida, cada quadrinho captado foi enviado aos artistas que reproduziram as cenas nas telas com tinta a óleo, até compor a sequência toda do filme. Impressionante! O resultado é praticamente uma pintura viva, íntima, sincera e imortal, orgânica e pulsante que ganha mais e mais vida a cada cena. Não é à toa que foi indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2018, mas não ganhou (uma imoral injustiça, a meu ver!).

Voltando à história, a jornada de Armand Roulin acaba levando-o não apenas pelo mistério da morte de Van Gogh, mas pela trajetória de suas memórias em vida, contadas nos momentos em que as telas do filme ganham um tom totalmente monocromático. Em certa cena, uma das testemunhas diz: “Ele atirou em si mesmo. Nos campos, perto de Auvers. Ao lado de seu cavalete, fazendo o que amava, pintando até o fim”. Mesmo um simples relato assim passa a ser alimentado por Roulin como um convite a buscar o por quê de Vincent pintar com tanta intensidade, até mesmo sob a chuva ou mesmo quase morrendo. O que se escondia por trás de sua vida tão particular?

Sua personalidade casmurra, embriagada de uma solidão que o acompanhava desde a infância, construíram um homem considerado “lunático”, equipado das mais loucas atitudes (incluindo seu suposto suicídio), mas despido das vaidades que um artista geralmente ostenta. Certamente estes são também alguns traços que mais encantam ao mergulharmos nas memórias do pintor holandês. E isso é totalmente aproveitado quando somado ao jeito de contar sua vida: quem gosta e conhece um pouco mais sobre ele se deleita ao longo da película ao encontrar referências a algumas das mais famosas de suas 800 telas pintadas em vida. O filme é tão plasticamente real e imersivo que se você esticasse o braço tentando tocar o vídeo, quase daria pra sentir a textura das telas a óleo em cada frame na ponta dos dedos. Pena que não dava.

Mas é essa densidade de uma mente perturbada que constrasta violentamente com a delicadeza de suas pinturas. Vincent basicamente pintava o cotidiano: jarros, frutas (a chamada “natureza morta”), pessoas, campos e pastos, cenas da vida na aldeia. Claro, dentro do seu estilo, de seus tipos de pinceladas fortes e dinâmicas, cores e técnica geniais indiscutivelmente revolucionárias. Pintava o simples, e ainda assim era genial. Tão genial que gerou incômodo e admiração para sua época, mesmo em uma passagem meteórica pelo mundo da arte. Como é dito em outro diálogo, “em apenas oito anos, ele passou de um amador a um artista de influência”. E assim foi, ainda que tristemente ele só tenha vendido de fato um quadro em toda a vida. Postumamente, o pintor foi proclamado o pai da Arte Moderna.

Nas palavras de um dos diálogos finais do filme, acho que talvez a vida e obra de Van Gogh sejam exatamente como tentar apreciar sua “Noite Estrelada”, seu quadro mais famoso: “É outro mundo lá em cima. Algo que podemos contemplar, mas sem entender completamente”. E as minhas lágrimas caíam até mesmo depois dos ninjas do cinema guardarem suas facas e cebolas (não vou dizer nem após “sumirem”, porque enfim, eram… ninjas!) e os créditos se encerrarem.

Quanto a entender Van Gogh, cabe ao jeito e interpretação de cada um. Mas uma coisa é verdade: ele sentia, e nos faz sentir até hoje. E seu vocabulário estava nas telas que pintava. Suas forças e fraquezas estavam em suas atitudes, quase sempre deviantes de uma mente perturbada. Sua mensagem, em sua vida, no que percorreu e por onde também se perdia. Sua linguagem, uma beleza sublime e que jamais será copiada. Vincent Van Gogh foi o retrato dual de um homem simples, mas jamais simplório. E no final, esse conjunto, sua vida, história e telas… é tudo sobre um homem que, apesar das aparências, sentia. Tanto, mas tanto, e tão verdadeiramente como ele mesmo disse:

“Quero comover as pessoas com minha arte.
Quero que elas digam: ele sente profundamente,
ele sente ternamente.”

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: [email protected]

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