Coita

Amor amor amor
Preta linda exuberante
Passa o tempo e
Passam os trens e
Passa a vida e
Apesar de todos os passares
Não, eu não te esqueço e
Te encontro a cada grão e
A cada folha e
A cada pedra e
A cada lua e
A cada sol pois tu
Menina bonita
Estás tão completamente
Em tudo
Que penso de mesmo se é preciso
Um verbo de saudades

Mas as saudades mesmas
Fazem toda uma gramática de ti
Da tua ausência gerei muitas flores de ar
Que ainda assim carecem teu cuidado
Amor, não deixa que o meu peito
Que tanto e tantas vezes eu te dei
Vire uma terra árida e infértil, amor

Quero de novo me dar pra ti como terra
Que pede tuas raízes:
Quero me dar pra ti como água em chuva generosa
Quero me dar pra ti como esperança no sertão
Quero mesmo hidratar até o improvável
Sou louco sim
Louco porque quis grandeza
Já nunca mais me envergonho
Da loucura de dançar
Quando olham e quando não olham
Mas agora mesmo quero te dar as danças rituais
Do futuro que não sabemos
Aquelas danças rituais que chamam a chuva e a alegria

A verdade mais brutal é que eu te amo e
Desejo a chuva mais torrencial pra me desnudar e
Poder gritar essa louca confissão
Como se não fosse um crime:
Eu amo uma menina brasileira
Tão linda de tão preta e tão preta de tão linda
Linda brasileira moça de russo nome
Eu, o desajeitado rinoceronte
De Gentilândia e Benfica, sem a pequena graúna
— Tão preta de tão bela e tão bela de tão preta —
Eu, o pobre professor de português a quem chamam de poeta
Quanto já não quis chorar e berrar e pedir de novo ao tempo
Um última chance

Quando tudo que eu quero
E já nem nada mais eu peço a Deus sem nem mesmo acreditar nele
É só o direito de amar não ser mais erro nem crime nem exagero
Quando tudo que eu quero
É o teu colo sem explicação
E me oferecer pra ti corpo e alma
Fraqueza e fortaleza

Quero apenas poder respirar e descansar
Quero te dar a minha mão a minha pele o meu sexo
O meu sussurro mais escondido e antigo
Quero a delicadeza frutificada da tua pele noturna
Quero os silêncios de lenta respiração
Quero na minha boca o coração doce de todos os poemas
Que eu acolho na língua com a grata humildade que conheces
Quero poder querer e falar e mesmo gritar

Ainda quero
Não é tarde demais
Pois que estamos vivos e permanecemos grandiosos
A imensa vida está em nós como a promessa na semente
Eu sou mesmo hoje o mais ativo dos vulcões
(Quero me dar pra ti como lava muito quente)
Eu quero, amor, amar o próprio amor

Eu quero eu quero eu quero
Eu quero quereres ainda de nós

Amor amor amor

Desde que nos apartamos
O mundo ficou alheio e desconhecido
Pois eu quero — de novo o mesmo verbo —
Que um beijo nosso torne estranha a esfera ainda muito mais
Que nós nos unamos ao menos uma última vez então
Num curioso animal que só tem costas pra tudo

Ainda quero
Ainda digo
Ainda vejo

Amor amor

Amor
Linda
Preta
Infinita

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.