CLUBE DA ESQUINA: NADA SERÁ COMO ANTES, MAS NEM POR ISSO DEIXAREMOS DE VISITÁ-LO.

Ontem, fui ao Dragão do Mar e assisti “Nada Será Como Antes – A Música do Clube da Esquina”.

Adorei o documentário, uma abordagem que ultrapassa o mera cinebiografia. Mais do que isso: foi uma viagem necessária e essencial. O antológico álbum que rendeu o filme foi certamente a minha primeira paixão musical. Se eu fosse músico, gostaria de ser um daqueles caras que acompanhou o Milton Nascimento
naquela época, nos anos 70. Havia ingressado na faculdade e, como morava em um subúrbio realmente afastado, nos finais de semana
procurava uns botecos do Conjunto para beber e ouvir boa música, com um pessoal de minha geração, até que o  Vinicius (acho que morava na avenida C) me vendeu a icônica coletânea, novinha, em bom estado de uso, que paguei com o dinheiro do crédito educativo, ostentado pelo
amigo com uma espécie de troféu,  ou pedra rara.

Daí comecei a ouvir as musicas dos mineiros e não parei mais. Chegava em casa a qualquer hora, deitava no mosaico frio do meu quarto e logo vinham os primeiros acordes de “Tudo que você podia ser”, com os versos inteligentes de uma garota que não dizia sim,  nem não, ou queria tudo a um só tempo, tipo: “com sol e chuva você sonhava”, mas havia um “segredo” cuja pessoa teria medo: “só pensa agora em voltar”. E, aí, explodia a música brasileira com a guitarra acústica de Toninho Horta seguida da  bateria de Robertinho Silva.

Depois passava pelo maravilhoso “Cais”  — “um vento amor sem a dor de se lançar”, com fraseados sinfônicos do piano de
Wagner Tiso —  “Trem Azul”, uma viagem etérea, delicada, deixando pra trás daqueles vagões “coisa que a gente esquece de dizer” ou “frase
que o vento vem às vezes lembrar”. E por falar em trem, sempre recorria à minha preferida:  “Trem de Doido”, do lado D – um rock
mineiro que pretendia “estar onde estão os sonhos desse hotel muito além do céu”. E por falar em rock nunca deixava de ouvir “Os Girassóis da Cor do Teu Cabelo”. “Saídas e Bandeiras” alternava pela linguagem descolada e direta. E  que dizer de “Nuvem Cigana” – com um
tema cigano, livre, libertário, que o Milton no seu eu lírico diz que é que “nuvem, pó , poeira” e dança com a amada se ela deixar “o
coração bater sem medo”.

“Cravo e Canela” finalizava o lado A e certamente é a marca mais criativa em nível de ritmos, na verdade uma mistura bem sucedida de muitos temperos juntados por uma cigana e uma morena.  O assobio do próprio Milton para depois perguntar qual delas, se foi a morena ou a cigana quem temperou o cheiro do cravo, com vários desempenhos imagináveis, é inesquecível.

Aliás, por esse hit sinto as coreografias, o cheiro da canela e do cravo. E essas fusões mais aguçadas passavam a ser mais cortantes, quando Milton começava a soltar a voz, no outro lado do LP, com o “coração americano acordado de um sonho estranho” e “com um gosto de vidro e corte/ um sabor de chocolate”, em um cenário em que “as horas não se contavam”. 

E, mais grave ainda, compondo o ambiente pós o Ato Institucional n°5,  “o que era negro anoiteceu”, no fabuloso verso que Fernando Brant fez para “San Vicente”, um poeta e letrista sempre lembrado, porque juntamente com Milton, anos antes, fizeram a “Travesia” (2° Lugar no Festival Interacional da Canção de 1967).

Dirigido por Ana Rieper, o filme recupera um pouco do passado e apresenta também novas histórias e curiosidades sobre um dos períodos mais conhecidos e celebrados da história da música brasileira, tratando-se de um clássico popular em duplo-vinil que sempre povoa o imaginário e os sentimentos de gerações velhas e novas.

É o meu caso. Aliás, a narrativa visual retrata a saga sonora desses artistas de multifacetadas vocações, passeando pelo jazz, rock
romântico-sinfônico-progressivo, musica religiosa, cantochões campesinos, ritmos espanhaloados, musica clássica,  bossa nova e
samba, saindo daí uma vertente especial do que há de melhor do afro-brasileiro.

Definitivamente, um trabalho de valor artístico e sentimental. Quando Milton Nascimento avisou ao adolescente Lô Borges que eles iriam fazer um disco e se chamaria de Clube da Esquina, o sonho estava armado e logo reuniu outros espetaculares sonhadores.

Refiro-me aos músicos Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Beto Guedes, Robertinho Silva, Flavio Venturini, Wagner Tiso, Marcio Borges e
Ronaldo Bastos que, com as boas pretensões, como bem mostram as imagens do filme pontuadas de canções, transformou e revolucionou a música no Brasil e, por  que não dizer, no mundo também…

Então vamos combinar: a película é a reunião e conversa de todas essas figuras musicais cujas individualidades renderam uma belíssima textura musical, muito simples, e na verdade complexa,
devido às referencias diversas, criando algo inteiramente novo, abrindo um  leque de possibilidades. Por sinal, para a diretora Ana Rieper, “este poderia ser um filme sobre política, sobre amizade, sobre juventude, sobre a vida de músico, sobre poesia, sobre o Brasil…

Todos temas transversais de toda essa obra. E todos temas que estão no filme.”, garantiu.

Numa capa  com bordas amarelas e uma foto bem viva de dois garotos, Tonho e Cacau, colhida sem permissão dessas crianças, na área
rural de Nova Friburgo, como se fosse Milton e Lô Borges, portando um encarte com dois vinis, com uma infinidades de pequenas imagens,
gravados pela Odeon, eu não precisava de outros discos. Naquele tempo, a minha discoteca se resumia naquele trabalho que era pura síntese do que se fazia de melhor. Os entrevistados falaram dessas influências, indicando como eles foram buscar essas melodias e provando-as através de seus instrumentos.

Detalhe final, cenas do meu filme particular: escuto até hoje Clube da Esquina com a mesma alegria que inaugurava meus primeiros anos de afirmação, novidades e descobertas, o que quer dizer que nada será como foi antes, mas nem por isso deixaremos de  visita-lo, não é mesmo?

Durval Aires Filho

Durval Aires Filho é Desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, professor universitário e mestre em Políticas Públicas. É membro da Academia Cearense de Letras, tendo publicado os seguintes livros: “As 10 faces do mandado de segurança“ (Brasília Jurídica) e “Direito público em seis tempos. Autores relevantes e atuais” (Fundação Boitreaux). Antes da pandemia foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados, com a ficção “Naus Frágeis”.