CIZÂNIA – Clauder Arcanjo

Mi, miau, miau, mi… au, miau, sss!

Nabuco protestava no meu colo, porém eu, ainda não afeito ao linguajar felino, de nada entendia. Apenas sentia, pelo tom amargo do miado, que ele discordava de alguma coisa.

Calma, bichano! O que tanto o angustia? Logo descansaremos.

De repente, a explicação de Acácio:

Clauder Arcanjo, Nabuco protesta quanto ao horário de nossa entrada em Licânia. Segundo ele, não se chega bem à meia-noite!

“Ainda mais essa! Um gato com arroubos de inglês e…”, pensei. Mas não concluí, pois Nabuco eriçou-se no meu colo, como se lesse os meus pensamentos.

Miau, sss!

Não está mais aqui quem assim pensou pacifiquei-o.

As ruas estavam desertas, um silêncio em cada beco e esquina. Quando passávamos em frente à Matriz, a pedirmos a bênção à Senhora Sant’Anna, um grito:

São eles, negrada!

Corajoso como sou, arrepiei-me todo e, por puro reflexo, apertei fortemente Nabuco com as mãos trêmulas.

Miau…

Desculpe-me, Nabuco. Tive receio de você não estar desperto. Digo, alerta argumentei.

Com pouco, a Banda de Música, a notável Furiosa, num compasso sonífero, saudou nossa chegada. A pandemia tornava aquela apresentação sui generis. Os músicos, todos de máscara, sopravam seus instrumentos;aliado ao sono, a partitura ganhava um ar soturno. Mais de pesar do que de alegria.

Sem falar que mantiveram uma distância de dois metros entre eles, alguns idosos e com problema de audição (e zonzos de cansaço) atropelavam o ritmo seguidas vezes. Uma salva de palmas dos legionários da Scotland Yard de Licânia deu fim ao número musical, e a Furiosa, enfim, pôde se recolher.

Neste momento, o prefeito entregou a Chave da Cidade ao Companheiro Acácio:

Licânia confia no seu herói! arrematou. Mal passou a chave para Acácio, o alcaide cuidou de viajar. Não sem comunicar aos presentes:

Vou retornar para o meu distanciamento social. Os líderes têm que dar o exemplo.

Distanciamento exagerado, segundo o Licânia Post, tabloide de oposição. Segundo o repórter Wagner Bonzer, ele se transferira, com toda a família, para um sítio no alto da Serra da Meruoca, a léguas do surto de Covid-19 nomunicípio.

Na Praça do Poeta, a figura longilínea do João Américo, o protofilósofo de Licânia, saudou-nos quando da nossa passagem.

Cuidamos de nos apresentar na Pensão do Raul. Em seguida, fomos orientados pelo Batista do Zé Aguiar a nos banharmos no rio Acaraú; não sem antes sorvermos uma dose cavalar de cachaça serrana, a fim de limparmos o corpo e a alma, evitando assim quaisquer riscos de contaminação em nossa chegada.

Solícito e professoral, Batista, verdadeiro amásio dapinga, acompanhava cada um dos recém-chegados, não no banho, mas na limpeza com a carraspana:

Um brinde contra a Covid!

Quando chegou a vez de Nabuco, o felino cerrou os dentes, em protesto.

Deixe de frescura, seu gato escroto! Nesta terra até os cachorros bebem protestou Batista do Zé Aguiar, com receio de perder uma dose sequer da “maldita”.

Acácio resolveu a questão, confesso que com méritos:

O Nabuco, caro senhor Batista, é filiado aos Alcóolicos Anônimos. Façamos o seguinte: você, como nobre cidadão licaniense, se importaria de tomar a dose dele, bem como a sua? Assim, salva-se o valioso brinde!

Sempre estarei disponível para servir a uma nobre causa concordou o pé de cana. A sorver mais duas talagadas, lambendo os beiços E, como nunca é demais prevenir, mais uma pela Margarida, e outra reforçada pelo jipão do Lourenço. Assim, senhor Acácio, as duas viaturas estão também descontaminadas.

Vamos nos recolher. O dia amanhã promete! anunciou Lourenço.

&&&

Mal entramos na Pousada do Raul, instalou-se entre nós a semente da cizânia.

Eu não durmo de rede, vou logo dizendo! protestou o intelectual Carlos Meireles.

Só tem uma cama aqui, e a cama é reservada ao líder! bradou Acácio.

E que líder é este que não se sacrifica em nome do seu grupo? devolveu Lourenço.

Miau, mi…

Não se meta em nossa discussão, seu Nabuco. A conversa aqui é pra cachorro grande exorbitou Companheiro.

Eu tenho problemas sérios de coluna. O meu médico me proibiu chegar perto de uma rede argumentei, ao canto.

E a confusão tomava assomos de guerra declarada. Ninguém recuava um passo de sua renhida posição.

Passava das três horas da madrugada quando seu Raul, prático e decidido, entrou no quarto grande.

Reparei que ele estava munido de um cacete de jucá (similar ao do cabo Jacinto Gamão). Seu Raul correu os olhos por entre seus hóspedes, a declarar:

Ou vocês se calam agora, ou vão tudo para a baixa da égua, seu magote de cornos! Na minha pensão, não! Fui claro?

O silêncio e o sono entraram pela janela. E dormimos placidamente; todos irmanados, no chão. Sem roncos e sem fazer mais o menor ruído. Engenho, arte e ofício do mestre Raul.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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