CIRANDA, por Íris Cavalcante

O gosto era de gelatina. Assim mesmo insípido. Não teve sabores. Teve texturas e sensações que permaneceram em seus lábios, durante toda a noite. Lábios de menina.

Havia uma lua lá fora e um céu de estrelas. Na fogueira, gravetos incandescentes inscreviam fagulhas na escuridão da noite. Dentro da menina também havia fagulhas e fábulas, folclore, festa e frio. Ela não entendeu o que era o frio, nem as fagulhas. A festa ela sabia, era de um santo. Teve cantiga de roda, ciranda, quermesse e leilão. Uma simpatia lhe trouxe um papel e havia um nome de menino. Depois aquilo da gelatina.

A menina não entendeu nada e o menino foi embora. Levou consigo toda a ternura do mundo. Ela quis alcançá-lo, mas não podia descomportar-se, claro que não! “Garotas são só garotas”, a madre superiora já tinha advertido, e o tom era solene. Elas não entendiam isso dos amores, nem a garota, nem a madre.

“Salve rainha gloriosa de toda a terra soberana…” A menina lembrou-se do hino de Nossa Senhora Auxiliadora e da sala de aula em mosaico vermelho, de suas manhãs. Pediu a Nossa Senhora para livrá-la daquelas sensações. Precisava domá-las. Rezou o ato de contrição. Não parava de pensar no menino, mas ele se foi. A lua fazia seu movimento de rotação percorrendo a noite, estrelas iam-se. O sol nascia. Desinquieta, a menina também dava voltas em seu eixo e não dormiu. Havia gelatina em seus lábios.

O menino foi estudar na capital, nunca mais ela o viu. A menina foi depois. A cidade era grande e ela trazia um sonho no olhar, a menina. Ela sonhava grande como a cidade grande. O menino aprendeu na universidade a cuidar das pessoas. A menina aprendeu a cuidar das palavras. Na verdade, ela nem sabe, mas são as palavras que lhe cuidam. Palavras que a circundam num looping infinito. Palavras gelatinosas que viram poemas. Balanço. Cantiga de roda. Ciranda.

De nada adianta um amor de criança se não for para imortalizar-se sob um céu de estrelas.

Iris Cavalcante

Iris Cavalcante

Íris Cavalcante é especialista em Escrita Literária e MBA em Administração Estratégica. Estreou na literatura em 2003, teve publicações como autora independente, participação em coletâneas e revistas eletrônicas. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2018 na categoria poesias com o Vento do 8º andar.

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1 comentário

  1. Avatar

    Jaime Soares

    Um texto rico em imagens e doçura. Apesar de haver esse gosto a gelatina. A gente põe-se a pensar no sabor. Nas cores. No riso que abre os lábios de felicidade.
    Não digas a ninguém, mas eu voltarei muitas vezes à festa que é este texto.

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