À cidade: quase análise, por Alder Teixeira

Só há poucos dias pude ler o festejadíssimo À Cidade, livro-poema com que o escritor cearense Maílson Furtado Viana arrebatou o Jabuti de Livro do Ano 2018.

Transitando entre estilos diferentes, como a revelar sua independência em relação aos modelos já cristalizados, mesmo quando dá a ver a influência do Ferreira Gullar de A luta corporal e de O Poema sujo, por exemplo, Furtado faz sua primeira aparição, em nível nacional, como um poeta grandioso ao retratar o cotidiano de sua pequena Varjota, no interior do estado do Ceará, com suas banalidades carregadas de poesia que só aos olhos do artista sensível assume a forma de arte, e arte da melhor qualidade.

Nesse sentido, como a inverter a pegada dos realizadores da Nouvelle Vague francesa, a escrever com a câmera, Furtado como que filma com palavras, pois que é notória a vocação cinematográfica do livro em toda a sua extensão: “[…] tudo sai / os meninos / os cachorros / as pessoas / os mosquitos / as casas não”.

Há, na economia de meios, a construção de imagens que vão tecendo o quadro a partir de elementos os mais bizarros, num ritmo suave e preciso que faz lembrar um travelling à Agnès Varda.

O poema, pois, agrada, desde o primeiro contato, pelo que apresenta no âmbito da imagem propriamente dita (objeto de visualização), não a imagem enquanto metáfora, tão própria da poesia, mas a percepção visual de uma imagem estabelecida dentro de determinados limites.

Pode-se, assim, falar de enquadramento, uma vez que a unidade estrutural do poema é fruto de uma escolha visual pontuada pelo deslocamento do olhar do eu-lírico como o de um operador de câmera. A sua matriz, portanto, é visual, ao que se soma a sonoridade dos versos como a reproduzir os ruídos da vida vidinha do interior na proximidade do anoitecer: “[…] a noite caminha / e gritos de pais chatos / gritam / pra voltarem pra casa / o esconde se acaba / se acabam as paqueras / as brincadeiras / se acabam”.

Com isso, o poeta agora empresta à imagem o fundo sonoro que lhe dá a força de uma sequência fílmica, como a ter em mente a perfeita compreensão de que poesia e cinema são artes do tempo, e não do espaço, como quiseram os concretistas. É tímida, neste aspecto, pode-se afirmar, a presença de bases estilísticas que denunciem relação direta com o movimento de 1956, muito embora, aqui e ali, perceba-se algo como a espacialização ou geometrização do texto, a exemplo do que faz, à altura da página 15, com o verso: “[…] é novembro / e folhas enfeitam o chão / depois de seu ballet

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                         o

                             ar

                outras brotam

                outras

                          caem”.

Ou nos versos compostos, à página 24, em que explora a geometrização do texto de modo a sugerir o intimismo de um familiar próximo: “[…] como meu trisavô vive

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           e

         d le”

Injusto, impróprio quando menos, é apontar sob este aspecto para o uso de procedimentos ditos ortodoxamente concretos, como mais de uma vez tenho lido acerca do livro-poema de Maílson Furtado  —  e a mim mesmo me pareceu à primeira leitura.

Ledo engano. Aliterações, assonâncias, ênfase na sonoridade do léxico empregado na feitura do poema, assim como, em certa medida, a ocupação do espaço físico da folha de papel (e da tela do computador hoje em dia), são comuns à própria poesia, recursos legítimos e incontornáveis de uma fazer artístico que se pauta, acima de tudo, pela musicalidade. Também os simbolistas, sobretudo eles, foram particularmente empenhados em tirar música da linguagem poética, e seria igualmente inadequado identificar em À cidade traços assumidamente simbolistas ou (neo)concretos, ainda que se percebam, aqui e além, características de um e outro no belíssimo texto de Maílson Furtado.

Poesia atemporal, livre e muito maior que a tola necessidade de classificação formal, À cidade sobressai pela força da percepção fenomenológica que é mesmo o esteio em que se sustenta este poema essencialmente visual, sem abandonar jamais, claro, um aguçado senso de relação entre os elementos semânticos e fonéticos que lhe dão uma vitalidade estética absolutamente louvável.

Em termos gerais, em face da exiguidade de espaço da coluna, se, no poema, é inquestionável o “perfume” neoconcreto a que me referi (e tem sido um rótulo precipitadamente colado ao poeta), valho-me de uma visada recorrente entre os concretistas para dizer, consciente de que se possa julgar isto uma mera subjetivação, que se trata de um poema de sintaxe mais visual que verbal. Mais importante, no entanto, é o fato de estarmos diante de uma autêntica obra de arte literária que faz justiça ao prestígio repentinamente conquistado por Maílson Furtado.

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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