Cataclismo Solar

 

Acho que o Ciço tá mais que certo com a história de defender o lado do planeta que tem a Pedra da Galinha Choca. Se os foguetes conseguirem mesmo tirar a Terra da rota pra fora do Sistema Solar, eu preferiria mil vezes ter a barganha da nossa ancestralidade como colônia alienígena – comprovada pela escultura da galinha em rocha natural – do que ficar posando de turista no meio do espaço sideral. Eu mesmo não. 

Que o sol se aproxima cada vez mais da Terra os nossos antepassados já previam, mas isso nunca lhes gerou verdadeiramente uma preocupação, pois sabiam que não estariam vivos para presenciar o fatalíssimo fim. Felizmente, a nossa geração tem um pensamento um tanto diferente. Sabemos que não vivenciaremos o dia do cataclismo solar propriamente dito, mas estamos muito mais inquietos em relação aos impactos que nossas ações cotidianas reverberam na antecipação da nossa própria extinção. Eu, lamentavelmente, sou desse primeiro tipo de gente, a nata ególatra da sociedade do capital, que preza pelo conforto do individualismo meritocrático, surrupiando daqui e dali o meu sensu de coletividade. Aprendi a conviver muito bem com fantasma no meu quarto.

A fim de trazer a mente liberta das responsabilidades catastróficas que assolam a natureza e as inversões de valores humanos, ignoro a questão do fim do planeta, as gerações futuras, a fauna e a flora terrestre; ignoro a guerra silenciosa entre baleias e moscas e as sombrinhas que não possuo, mesmo que sabendo que elas facilitariam a minha caminhada na corda bamba; ignoro o sangue dos fuzilados escorrendo pelo asfalto e os lampejos de epifania, que enchem de lágrimas os olhos do carrasco. Enquanto isso, finas paredes continuam a separar a fartura da fome. Confesso que se eu tivesse forças reagiria às escancaradas e putrefeitas entranhas da barbárie civilizatória, conduzindo a minha existência de maneira mais harmoniosa em relação ao fluxo cósmico do Todo. Porém, este não é o caso, tenho me posicionado ao lado dos preguiçosos. 

Li suas anotações sobre a aleatoriedade dos eventos do universo e sobre a irreversível força entrópica que a tudo modifica. Concordo que vem daí a dificuldade de chegarmos a uma equação máxima para a construção da Máquina do tempo. Contudo, me pergunto se num futuro próximo precisaremos mesmo voltar milhares de anos para reverter os processos que levarão a extinção da vida na Terra. Trata-se de um plano de contingência, eu sei – para caso os cientistas não resolvam em tempo hábil a questão da destruição do planeta-, mas será que em alguma das linhas cronológicas dos inumeráveis multiversos a humanidade não conseguiu sobreviver sem esse subterfúgio? Fico curiosa… 

 

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A analogia de que o tempo é como o fluxo de um rio é metáfora da física ultrapassada. Hoje, a Ciência do Tempo comprova, matematicamente, que o grande inquisidor de nossas vidas é, na verdade, um rio congelado. O fato passa despercebido pela maioria de nós. Estamos presos na rotina de nossas próprias rodas de hamster e, quando muito, reduzimos o assunto do paradoxo do tempo ao ínfimo debate do causo dos extraterrestres que – dependendo da velocidade em que viajam – chegariam na Terra no momento atual ou na Era dos dinossauros. 

Trocando gramas por mols, se o tempo é fruto de uma cadeia de relações entre a massa e a gravidade de dois corpos no espaço, é claro que o local importa! E mais, a nossa percepção do presente importa ainda mais. É como se o tempo só existisse dentro da gente. Tudo que É, Foi, e Será ocupa o mesmo espaço terrestre que o grandioso evento do Big Bang, sejamos nós neandertais ou androides imortais.  

Frente a tudo isso, mais do que medo, sinto empolgação. De acordo com as mais avançadas teorias cosmológicas, a abstração das horas – adestradora do progresso econômico da nossa civilização -, culminou em uma crise estrutural terrivelmente nociva a nós e ao planeta, e a troco de quê? 

Parece que estamos sempre procurando fazer o tempo passar mais rápido, logrando apenas brevíssimos estados de gozo. A maior parte do tempo estamos reféns da busca por mercadorias que garantem a nossa sobrevivência e valor social. Compramos sombrinhas e mais sombrinhas, mas, no final das contas, nós é que viramos o objeto. Passamos a vida nos equilibrando na corda bamba, ainda que isso nos derrube nos abismos adoecedores da mente. A felicidade sempre está onde não estamos, assim como nunca somos quem almejamos. E esta é a pior das dores, a inconformidade com nosso próprio Eu.

 

***

 

Desde que nos conhecemos no parque, venho reunindo uma série de manchetes de jornal que embasará a nossa tese a respeito do sumiço do tempo. Esses documentos, logo que narrativizados coerentemente, serão expostos ao grande público, como uma forma de demonstrar nossa militância contra essa realidade caótica que estamos vivendo

Ciçinho, por exemplo, está fazendo o que tem que ser feito. Não sei se você tem visto televisão nos últimos dias, mas o plano estratégico dos cearenses salvará o mundo! O pessoal lá do sertão teve uma sacada genial: vão transformar o planeta todo num foguete, tirando a gente do eixo espacial do cataclismo solar. Os dois idealizadores da geringonça estão hoje se reunindo com os mais altos escalões da NASA para deliberar qual hemisfério terrestre deve ser sacrificado para a instalação dos propulsores. Há quem diga que países, quiçá continentes inteiros, serão devastados para esse fim. O sacrifício de muitos para salvar a outra parte. Quem dirá, então, qual o critério mais justo?

Eh, meu amigo, a que ponto nós chegamos. Temerosos, alguns governos começaram a fazer alianças com potencias mundiais vizinhas unindo argumentos bélicos e retóricos que garantirão a preservação dos seus próprios territórios. Uma grande guerra se aproxima e não consigo unir forças para lutar em qualquer dos lados, se farei rebelião para proteger os meus compatriotas ou se seguirei resignado as decisões tomadas pela União das Nações, eu não sei. O fato é que em todo espécime vivo o instinto de sobrevivência fala mais alto – só não pode ser mais alto que a voz do mais forte.  Por isso, é preciso falar sobre Moral, a coletiva e a individual.  

Como posso agir a partir de um argumento justo, puro e desinteressado, em favor de um dos hemisférios terrestres, se minha moral é de natureza tão individualista? É claro que temos empatia – todos temos a capacidade pelo menos.  Mas como saberei que as leis sociais são justas e não beneficiam apenas aqueles que detém o poder se eu não tiver tempo para refletir? Ao longo da história, quantas vezes já vimos uma ética social – mesmo tenha sido vista como padrão de comportamento pelo grande grupo –  ser tomada como atrocidade pelas gerações futuras? 

Para ser sincera, não vejo de que valeria o sacrifício das nossas vidas e da nossa cultura para salvar os ricaços do hemisfério norte, como querem os líderes internacionais. A minha cabeça fervilha também com a possibilidade de perdermos a Galinha Choca para Muralha da China. O fato é que estou sinceramente inclinada a achar que a atitude moral mais acertada, reflexiva e empática, nessa circunstância, envolve uma apresentação formal e respeitosa do povo da Terra quando adentrarmos o território dos nossos vizinhos alienígenas. Por isso, agora sem dúvida alguma, milito em favor do hemisfério que exibe a magnífica e imperiosa escultura de galinha choca em rocha natural! Seria uma forma de demonstrar simpatia em relação as expressões culturais deixadas aqui pelos nossos visitantes do passado. 

Mas me diga, você: como tem se posicionado frente a tudo isso? Não vem me dizer que depois de tudo o que conversamos você ainda é mais um desses preguiçosos que sufocam o própria realidade curvando-se aos entendimentos negligentes do bando?  

 

Raquel Catunda Pereira

Raquel Catunda Pereira é romancista, dramaturga e contista cearense premiada com as obras "Historia entre Mundos", Prêmio Rachel de Queiroz; "Espetáculo de Você", Concurso Jovens Dramaturgos" e "A Equilibrista", Coletânea de Contos Ideal Clube. A escritora é também Mestre em Literatura Comparada pela UFC e exerce atividades como educadora em escolas de Fortaleza.

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