Carta a Papai – CLAUDER ARCANJO

Há dois dias que você se encantou (pouco importa o lugar-comum) e parece que estou sofrendo de “perda de equilíbrio”, meu pai. Não saberia como descrever; melhor é deixar pra lá, não quero preocupá-lo. Saiba apenas que o adoro cada vez mais; reconheço o legado enorme que você nos deixou: sermos simples, mansos, carinhosos e bons. Com todos. Claro que, com sua Maria, sua companheira e nossa querida mãe, o xodó era maior. Beijos seguidos, diferentes provas de carinho, olhares apaixonados de esguelha, apertos de mãos daqueles sabedores que se completam (e foram feitos um para o outro).

Ah, Zequinha Arcanjo, como a dor é grande. A primeira noite sem você, para mim, foi terrível, uma saudade de apagar estrelas. De vez em quando, flagrava uma voz a perfurar o muro da memória. Olhava, então, para todos os lados à procura do passo cadenciado, do sorriso franco, do refrigério da sua bênção… No entanto, logo concluí, teria que cerrar os olhos, voltar para dentro de mim, reencontrar-me em Licânia, para, somente assim, “vê-lo” novamente.

Pai, achei o senhor mais forte. O cabelo bem penteado, a barba feita. Trajando um bermudão verde e uma camisa branca de linho. Suspeito que meu irmão Tito (você sabe como ele é crítico) julgaria a posição do seu cinto um pouco alta em relação à cintura. Não ligue, papai, adoramos você assim. Você foi, é e será o cidadão mais belo e charmoso que já conhecemos. Digo isto não só em nome de Maria Djanira (nossa mãe): Dedé (única filha) e seus filhos (Baía, Tito e João Helder) comungam da minha opinião.

— A sua bênção, papai! — Sim, na pressa de lhe escrever, esqueci-me de pedir-lhe que nos abençoasse.

Ah, o senhor já nos abençoou bem cedo?!… Tolo sou eu por ainda não conhecê-lo. Não é porque está morando no Além que vai se esquecer de nós. Mas, peço sua bênção outra vez: “A bênção, pai!”

E uma outra questão, você, que sempre foi nosso maior e melhor conselheiro, oriente-nos como viver (e conviver), de agora em diante, com tamanha ausência.

Hoje cedo até pensei em ligar para Santana e perguntar como você estava, se já havia tomado banho, feito a barba e sentado na poltrona da sala para ver televisão. Quase pedi a Conceição para colocar o fone no ouvido do “nosso menino” para lhe dizer:

— Bom dia, José Bosco Arcanjo! A sua bênção, meu pai! Aqui é o Antonio Clauder. Alguma esperança de chuva no nascente? O gado no Eldorado está gordo? E o das Cajazeiras? — Num conversar macio e sem pressa, apenas movido pelo prazer de ouvi-lo.

É claro que, em meio a tudo, confessaria, pela milionésima vez, que o adoramos, que agradecemos todos os dias a Deus por ter nos presenteado com genitor tão especial.

Outro dia (acabo sempre me flagrando a contar e recontar as nossas histórias), relatei aos meus filhos aquela bendita intervenção sua quando da minha formação acadêmica. Não se acanhe, é bom repeti-la para conhecimento dos seus descendentes. Vejamos.

No terceiro ano do meu curso de engenharia na Universidade Federal do Ceará (UFC), você soubera (penso que um arcanjo soprou-lhe) da minha inscrição num concurso para uma vaga nos quadros de uma instituição bancária. Depressa, você viajou a Fortaleza e, a seu modo, chamou-me à reflexão:

— Vai abandonar o seu sonho? Desde criança, filho, você só pronunciava: “quero ser engenheiro”, “vou ser engenheiro”. Você lembra?

— Mas, meu pai, a crise na engenharia é grande, as construtoras estão fechando as portas, o desemprego campeia… — argumentei.

Suprema presunção, querer aconselhar o conselheiro-mor.

O senhor me olhou com o rosto cândido, colocou as minhas mãos entre as suas, abençoou-me e, beijando-me a face juvenil, pronunciou:

— Não se abandona um sonho. E, se a crise está assim, basta estudar mais, ser um engenheiro ainda melhor. Mas… a decisão é sua, seu pai estará sempre com você. Deus o abençoe, e tenha uma boa noite.

Levantou-se, recolheu-se à sua rede no quarto, e eu fiquei no meu. Deitei-me, contudo o sono não se apiedou de mim.

Horas depois, liguei a luz, abri a gaveta da cômoda e lá estava o cartão de inscrição. Retirei-o e o fiz em pedaços.

A história não se encerra aqui. Um ano e meio depois, concluí a graduação em engenharia, colei grau numa sexta-feira à noite, viajei para assumir o cargo de engenheiro da Petrobras, em Salvador, no domingo seguinte. Você, pai (se lembra disto?), veio de sua Santana do Acaraú (nossa Licânia) para me acompanhar até o aeroporto. Antes de minha entrada para o salão de embarque, o senhor me beijou, abençoou-me com carinho, não sem antes arrematar:

— Não ficou desempregado nem um dia. Não é, filho? — E rimos, felizes.

Contarei essa história vezes sem conta. Você me pede reserva?! Ah, papai, o mundo precisa saber das suas aulas em nosso lar. Que o senhor foi professor nosso, usando o lápis do exemplo pessoal na lousa da vida, o pincel da ética no cartaz da simplicidade, a cartilha do ABC do respeito, a gramática da mansuetude no trato com os outros. Zequinha, José Bosco Arcanjo, nosso doutor honoris causa.

Sim, ainda choro, pai. Pede que eu enxugue minhas lágrimas?! Sim, eu o farei. Você sabe como eu sou sentimental. Certo dia, não me disse: “Antonio Clauder, você, filho, é o poeta da família”? Pois eu peguei corda, sabe, e ando me amostrando como poeta provinciano.

Uma lufada de ar chega-me à mesa, sinto o seu cheiro como a sair do banho. Levanto-me, abro a porta do banheiro e não o vejo. Ao retornar, dou com a fotografia da nossa família na parede do corredor. “Meu maior patrimônio!”, o senhor assim nos saudava, ao nos reunirmos com você e mamãe.

Hoje, sua falta à cabeceira da mesa de jantar e a sua cadeira vazia na calçada, querido Zequinha, tornam mais escura esta noite longa.

A partir de agora (acho que você assim nos aconselharia), teremos que seguir sozinhos, ao nosso modo, porém nos lembrando das suas máximas: “Um homem já se conhece no arriar das malas”; “É puro, é santo, é milagroso, e bom” — ecoando com o dito de mamãe; “Se os homens sérios não cuidam de sua terra, os canalhas vêm e tomam”; “Vou deixar para vocês algo que ladrão nenhum rouba: educação”…

Sei que estou a me alongar, todavia não se esqueça de pedir a São Pedro uma rede branca e larga para o senhor dormir depois do almoço, sua siesta é sagrada. E mamãe também me pede para lhe avisar que tenha cuidado com o sol do Paraíso, pois sua pele é muito sensível. E nada de comida pesada, ouviu?! O senhor tem estômago fraco.

Uma última coisa: fique tranquilo, nós cuidaremos de mamãe, sua amada, com todo o zelo; e seremos uma família só, cumprindo seu pedido: “Permaneçam juntos e unidos”.

A sua bênção, pai! Fique com Deus. Lembranças aos seus irmãos, nossos tios: Arcanjo, Miguel, Gerardo e Nonato.

Sei que esta saudade não passa.

Nunca.

Fortaleza-CE, 21 de novembro de 2019

Clauder Arcanjo

[email protected]

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

Mais do autor

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.