CARNAVAL, por Jessika Thaís

Nasci na ressaca do carnaval de 1988. Toda energia daquela festa estava acumulada ali em meu parto. Quando criança ele servia como uma espécie de férias. Dias para ficar em casa, na casa dos avós ou visitar Guaramiranga com a família e ficar no sítio. Até que, na vida adulta já, conheci o carnaval de rua de Fortaleza (CE) e de Olinda (PE). Incríveis, por sinal. Aproveitei ao máximo, converti amigos e tive a sorte de um dos meus aniversários cair em um desses. O mais animado da minha vida, sem dúvidas.

Já estava virando tradição eu pensar nas fantasias meses antes do acontecimento, até que vim pra Europa. Moro agora em Diepeenbek, um pequeno município da província de Limburg, na Bélgica. São aproximadamente 19.000 habitantes e se eu comparar com os mais de 2 milhões e 600 de Fortaleza, minha cabeça não entende muito e não processa o que tem em volta, então eu tento não entender e só sentir. Sabe aquela frase “Entra pra seita e aceita”? Sou eu agora!

Mas mesmo sabendo que há diferenças culturais, não pensar na festa grandiosa que acontece no Brasil é impossível. Dias antes da data profana ouvi falar que em Limburg há bailinhos, as crianças ganham doces, há desfiles de carros alegóricos e as pessoas se fantasiam. Olha só, festa! Aqui é inverno e pensei em uma fantasia à altura. Como sou pequena a sessão infantil me serve como nenhuma outra – mais um fato que aceito e me divirto muito – comprei uma fantasia de Chewbacca (o ajudante peludo e simpático do Han Solo em Star Wars) e fiquei ansiosa pela data.

Enfim chegou a tão esperada semana de carnaval. Na sexta precisei ir à cidade de Hasselt, um pouco maior que Diepenbeek com mais de 70.000 habitantes, e vi muitos jovens com malas e mochilas, a cidade funcionava normalmente e nada dizia que estávamos no carnaval. Na semana seguinte as escolas dariam uma espécie de semana de férias para todos e imaginei ainda mais uma grande festa. A fantasia de Chewbacca já tinha sido usada como pijama, mas eu ficava imaginando como seria usá-la junto às crianças e que seria hilário tirar fotos com outros adultos.

Até que descobri que o carnaval na região de Limburg é comemorado durante todo o mês, só que cada dia em um município diferente e não teria festa em Hasselt ou Diepenbeek naquela data. A festa não é grande, as pessoas ficam em cafés, bares ou acompanham o desfile de rua com seus filhos. Os carros alegóricos são coloridos e sempre trazem um príncipe, mas nada que lembre a comoção popular que eu esperava. Dizem que são animados. Duvido um pouco, já que tenho como referência de animação o Brasil.

Por fim, Diepenbeek continuou calma e com a folga dos estudantes, o trânsito nas ruas e entre as cidades próximas estava menor e havia menos pessoas nos ônibus, não que lotem em dias normais. Andei pela cidade quase vazia no que seria o domingo da famosa festa, mas o vazio não era pelo carnaval, era por ser domingo. Pedalei um pouco, tomei sorvete e conheci um parque muito bonito. Aqui a vida tem outro ritmo. As pessoas trabalham muito! Não perdem tempo cozinhando ou em outras coisas, mas prezam por seus momentos de descanso. Redescobri que desacelerar é bom… Ademais, adorei as fotos dos amigos no Brasil, vibrei com cada fantasia, manifestação ou história engraçada.

O carnaval de Diepenbeek acontecerá no final de março e para ser muito honesta, estou bem com a ideia da fantasia ter virado pijama e quem sabe eu nem saia mais com tanta empolgação. O carnaval é um estado de espírito coletivo e o brasileiro sabe transmitir isso como ninguém e não esqueçam que a festa é um ato político! Deve ser mantida e ser levado às multidões. Aqui é uma monarquia, as pessoas têm educação, saúde e mesmo pagando caro por serviços básicos e muitos impostos, há tempo e dinheiro para os bons momentos de sossego e prazer. É outra visão e necessidade de carnaval.

Jessika Sampaio

Jessika Sampaio

Feminista, jornalista, pós-graduanda em gestão ambiental, sonhadora, acredita em signos, no budismo e na apatia da natureza. Contraditória como todo bicho gente, curiosa e colunista do Segunda Opinião.

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