BR ASIL’O – por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (XYKOLU)

“Não me perguntem mais nada, acabo de deixar Sucupira.” (Golbery do Couto e Silva, ao renunciar à Chefia da Casa Civil da Presidência da República).

 

O Chico – que não era o carioca Buarque, muito menos o baturiteense Lu Moreira, mas o maranguapense Anysio, para quem o brasileiro era o povo mais desconcertante entre todos os que habitavam o planeta Terra, porquanto fazia da tragédia de hoje a piada de amanhã –, com o mesmo humor crítico e destemido com que caçoou – o quanto pôde – o regime militar e seus famigerados atos institucionais (em especial, o de nº 5), verberando, inclusive, esta frase que ficou gravada na memória de muitos cidadãos brasileiros, num jogo de palavras em que não faltaram jocosidade e criatividade, “Quem não tem cão, caça com gato; quem não tem gato, cassa com ato”, o que lhe rendeu a prisão tão logo pôs os pés na calçada do teatro em que se apresentara, certa vez revelou o entendimento de que só vislumbrava uma única saída para o Brasil, ou seja, a construção de um alto e portentoso muro [uma ideia tão genial que o poderoso Trump agora luta bravamente para implementá-la, embora parcialmente e com outros propósitos] ao derredor de todo o seu vastíssimo território, de extensão continental – como sobejamente sabemos –, transformando este gigante que ainda dormita indolentemente em berço esplêndido numa vasta, ampla, imensa penitenciária e, assim, tornando-nos, a todos nós, sem exceção, por ação ou omissão e à revelia de firulas políticas ou filigranas jurídicas, os seus distintos e seletos hóspedes. Afinal, segundo ele, alguma culpa cabia a todos e a cada um de nós pelas mazelas que atingiam – e ainda atingem – esta tão pujante, fecunda e pródiga Nação [ditosa e opulenta pela pródiga Natureza, mas desventurada e “de pires na mão” pelos que nela habitam]. E, para o mestre do humor, o votar errado compunha – e ainda compõe –, pelos seus irreversíveis efeitos, o amplo quadro dos capitais pecados, todos como crimes de lesa-pátria capitulados e, infelizmente, jamais sequer julgados.

Propunha, assim, a criação de um amplo estabelecimento prisional ou, em outro termo, bem mais popular, o “cadeião” nacional.

O Chico – que não era o maranguapense Anysio, nem tampouco o baturiteense Lu Moreira, mas o carioca Buarque, um dos mais consagrados letristas da música popular brasileira, que, numa de suas célebres canções, trouxe-nos à lembrança festejada frase de Martin Luther King, o combativo e destemido pastor negro americano – “O que me preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… o que mais preocupa é o silêncio dos bons” –, quando se revela atordoado ante a mudez de muitos, e isso o faz permanecer atento, e, embora convicto de que a paz, fruto de muitas guerras que teria de vencer, essa tão desejada flor brotaria, como num sonho improvável, do chão inacessível e impossível; que, já se revelando um “escritor sem pressa e sem pressão”, em Povo na praça (Fazenda Modelo), desdenha ironicamente do povo-gado (ou seria do gado-povo) afirmando que “quando já não podem com a canga ou com o carro ou com o sol, decrépitos e alquebrados, aposentam-se nas invernadas e engordam, graças à previdência social” [assim como eu e alguns milhões de brasileiros que, desde FHC, vai gradualmente amofinando em recorrentes épocas de vacas magras]; que em Benjamin alude sarcasticamente a uma casta medonha de lídimos representantes do povo, comparando o gesto de Alyandro ao passar por Ariela ao “vezo de um político, que não ajusta o foco no que mira, porque o olho pensa em várias direções”; ele, o crítico de criatividade afiada e estilo ao mesmo tempo engenhoso e perturbador, o peladeiro e pó de arroz, o artista que sempre se recusou a ser moderno por saber-se eterno, num momento de grave censura, genialmente implorou “Pai, afasta de mim este cálice” (ou Cale-se!), ante uma realidade de tanta mentira (ou “fake news”) e tanta força bruta, rogou “Deus lhe pague!”, em uma construção poeticamente ritmada e compassada com rimas esdrúxulas ou proparoxítonas, como o tempo que lhe serviu de inspiração, jurou que, no momento certo, cobraria com juros o sofrimento que lhe fora imposto, e apelou “Chame o ladrão!”, em meio a pesadelo aflitivo que lhe causava a presença de uma dura e escura viatura, em tempos de um Brasil verde-oliva. Ame-o ou deixe-o.

Como um profeta, vaticinou, ainda em plena ditadura, um porvir de tenebrosas transações (mensalão, petrolão), de estranhas catedrais (obras superavaliadas ou que nunca acabam) e paralelepípedos que se arrepiam com desfiles que, se fazem lembrar sambas imortalizados por nossos ancestrais, obrigam-nos a ver passar milhares de loucos e ladrões empunhando alegremente o estandarte do Sanatório Geral.

O Xyko – que não era o carioca Buarque e nem o maranguapense Anysio, mas o baturiteense Lu Moreira, que já proferiu, a plenos espírito e alma [o corpo já se encarquilhando com o peso dos anos bem vividos], o “discurso de um antigo admirador da estrela vermelha que se converteu ao niilismo partidário” [niilismo no sentido nietzschiano de “estrada que conduz à inversão de todos os valores”], quando, em verdade se revelou a vós, abnegadas(os) leitoras(es), “simplesmente embrutecido com essa artimanha infame de nos tratarem como idiotas, como bois de piranha, como alheios às mentiras eleitoreiras, aos embustes, aos graves desvios de conduta, aos conchavos, às negociatas, à corrupção sistêmica e endêmica em todos os níveis da não-gestão pública, enquanto o cardápio insaciável de tributos avança inexoravelmente sobre patrimônios de cidadãos indefesos que, embora contribuintes extorquidos pela voracidade de gestores que se refestelam na generosa [para eles!] relação com o poder e se empanturram com a prodigalidade do erário, se sentem ameaçados com o que sempre está por vir”; para quem o Brasil desperdiça muita energia por desvio de foco, porque agentes públicos e órgãos da imprensa valorizam extravagantemente questões de importância marginal (por exemplo, o desligamento de radares em estradas federais e a desobrigação do uso da cadeirinha para infantes), criam e repercutem, cada um no desempenho de suas funções republicanas, situações de baixa relevância que desviam a atenção aos aspectos nevrálgicos e cruciais dos problemas seriíssimos que afligem a Nação (por exemplo, a provável indicação do filho do presidente, por ele mesmo, para assumir a embaixada do Brasil nos Estados Unidos – com apenas um galardão a lhe favorecer, qual seja o de ser filho do presidente – versus a iminente reforma tributária e fiscal que, gestada em gabinetes onde proliferam interesses escusos e inconfessáveis, deve causar mais estragos ao cidadão contribuinte que a previdenciária prestes a ser aprovada), e porque os formadores de opinião fomentam a “mitologia tupiniquim”, erigindo altares frontais para dois semideuses, inimigos figadais, à esquerda Inácio [que não é de Loyola nem nada tem de jesuíta] e à direita Messias [que não sabe sequer o que é manjedoura, nem também professa o amor fraterno], instigando o confronto nada cordial, gentil, respeitável, mas essencialmente beligerante, entre os respectivos seguidores, como nos velhos tempos das quermesses paroquianas em que se engalfinhavam numa luta santa os aficionados dos partidos azul e encarnado. Dada a sua neutralidade em assuntos de igual jaez, apartidário declarado e juramentado, crítico ferrenho de toda e qualquer natureza de político, ele apelou a Zeus, a divindade maior da mais consagrada mitologia, a milenar grega, d’ele recebendo a mensagem desconcertante de que, na prateleira reservada a mitos brasileiros, só havia um espécime, o Neymar, a estrela cadente do ludopédio verde-amarelo já desbotado, a que ele reagiu respeitosamente: “Mais complicado é viver sem celular… e eu tenho conseguido”. Oh dor!

Por ser servidor público federal aposentado, responsável em última instância pela quebradeira que arruína o país, consciente está de que, desde FHC, toda e qualquer reforma – previdenciária ou tributária – que se implantar aqui mais apertado tornará o seu orçamento doméstico, e, por extensão, se sente forçado a admitir que, em breve, só restará, para ele e alguns milhões de compatriotas, o indesejável asilo, pórtico derradeiro do inafastável fim. O BR ASIL’O.

 

Post scriptum

Que este texto sirva de singela homenagem a um outro Chico, o de Oliveira, pernambucano, nascido no seio do clã dos Cavalcantis, sociólogo, decano da intelectualidade brasileira de esquerda, que escreveu Crítica à razão dualista – o ornitorrinco (mamífero, ovíparo, com bico de pato e símbolo do Brasil ao mesmo tempo arcaico e moderno, com extremos de opulência e miséria), trabalhou com Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso, lutou pela redemocratização e criação do PT, de quem se tornou crítico ferrenho, e morreu em 10 de julho último.

 

“A política é profissão perniciosa, à semelhança de certos artefatos venenosos. Os homens que estão no poder não têm opiniões, e sua opinião pode ser facilmente comprada, seja qual for o propósito”. [Emerson (Ralph Waldo), filósofo americano, citado em Onde encontrar a sabedoria?, por Harold Bloom – Rio de Janeiro: Objetiva, 2005; pág. 227].

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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1 comentário

  1. Francisco Luciano Gonçalves Moreira

    Francisco Luciano Gonçalves Moreira

    ERRATA:

    1) 3º parágrafo – onde se lê “assim como eu e alguns milhões de brasileiros que… vai gradualmente amofinando”, leia-se “assim como eu e alguns milhões de brasileiros que… vão gradualmente amofinando”;

    2) 5º parágrafo – onde se lê “com apenas um galardão a lhe favorecer”, leia-se “com apenas um galardão a favorecê-lo”.

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