Boris Yeltsin, alguém lembra dele?

NO DIA 22 DE ABRIL tivemos uma inédita possibilidade de ver um pouco mais de perto como funciona por dentro o governo Bolsonaro com sua saraivada de palavrões e bizarrices. Como a memória dessa reunião não interessa à Rede Globo em função da exposição do seu homem forte com assento no governo federal, o ministro da economia Paulo Guedes, a Globo tratou de desativá-la da lembrança dos telespectadores. Mas o que o ministro disse de tão grave naquela fatídica reunião que a Rede Globo resolveu apagar de nossa memória?

Guedes afirmou: “O mundo inteiro quer investir no Brasil, mas precisamos de um bom ambiente de negócios: redução de impostos, segurança jurídica e coisa parecida.(…). O Banco do Brasil é um caso pronto de privatização. Tem que vender essa pôrra logo. (…).Enfraquecer o nosso discurso liberal com uma proposta de um Plano Marshall é uma tolice (batendo de frente com o general Braga Neto). (…). E nessa confusão toda, todo mundo achando que a gente está distraída, nós já botamos a granada no bolso do inimigo: dois anos sem aumento de salário dos servidores públicos”.

O que esse posicionamento típico de Guedes, de caráter privatizante, concebendo o Estado brasileiro e seus servidores públicos como inimigos, tem a ver com Yeltsin?

Depois da dissolução da União Soviética, em 26 de dezembro de 1991, Boris Yeltsin, o primeiro presidente da nova Federação Russa, foi o responsável pelo grande programa ultraliberal russo. Nesse processo de reformas estruturais, 187 pessoas foram levadas à morte, juntamente com a prisão de líderes da oposição a Yeltsin e a imposição de uma nova Constituição que facilitasse a aprovação das políticas privatizantes. Importante registrar, como anota o professor José Luís Fiori, em seu artigo _Para pensar sobre o futuro, depois do senhor Guedes e seu capitão”_ , como condição prévia para esse plano gigante de privatizações, o novo governo russo se submeteu às determinações dos Estados Unidos e do G7, abandonando qualquer pretensão a ser grande potência, permitindo a desmontagem e desorganização de suas Forças Armadas, junto com o sucateamento de seu arsenal atômico. Assim, o choque ultraliberal de Yeltsin privatizou 70% de todas as empresas estatais, atingindo de cheio o setor do petróleo que havia sido a peça central da economia russa, sendo totalmente desmembrado, privatizado e desnacionalizado.

As consequências do choque, diz Fiori, foram mais rápidas e violentas do que o próprio choque. As falências multiplicaram-se por toda a Rússia. Em apenas oito anos o investimento total caiu 81%, o PIB caiu mais de 50% em relação ao nível de 1990, houve uma queda de 58% no nível dos salários, a população pobre cresceu para 39%, o coeficiente Gini saltou de 0,2333 em 1990 para 0,401 em1999. Entretanto, mesmo com a destruição do Estado e queda do PIB, alguns grupos privados enriqueceram exponencialmente devido às altas taxas de lucro e de sua associação com grandes bancos internacionais. Nasceram os oligarcas russos, multimilionários que dominaram o governo de Yeltsin, uma verdadeira cleptocracia, em detrimento da economia e sociedade russas.

Todavia, o estrondoso fracasso desse choque neoliberal contribuiu para a vitória eleitoral de Vladimir Putin no ano de 2000, viabilizando sua estratégia política de resgatar o desenvolvimentismo nacionalista tendo no Estado russo o líder da reconstrução econômica do país no século XXI. Ao mesmo tempo retomaram seu projeto de potência mundial, reorganizando seu complexo militar-industrial e reatualizando seu arsenal atômico. A Rússia é um dos poucos países no mundo com uma indústria de defesa totalmente nativa, produzindo seus próprios equipamentos militares. Sua Força Aérea é a segunda maior do mundo, além disso, tem investido pesadamente na corrida armamentista pelos recursos estratégicos do Círculo Polar Ártico, fortalecendo sua armada marítima.

E o que o Brasil tem a ver com tudo isso?

Fiori alerta que, depois do Golpe de 2016, nesses quatro anos de política neoliberal ortodoxa, o Brasil está ficando muito parecido com a Rússia de Boris Yeltsin. Os indicadores econômicos e sociais brasileiros são declinantes e catastróficos, em particular no que diz respeito à queda do consumo e dos investimentos, com um acentuado aumento do desemprego, do subemprego, da miséria e da desigualdade social. Guedes, o Bolsonaro da economia, resolveu transformar a reforma da Previdência em tábua de salvação nacional. E agora grita pelos quatro cantos uma privatização radical de todo o Estado brasileiro, incluindo todo o parque industrial petrolífero e a própria Petrobrás. Mas a experiência da Rússia de Yeltsin mostrou que: i) a destruição de sua economia e do seu Estado não foi incompatível com o alto enriquecimento de grupos privados; ii) as privatizações não levaram necessariamente ao aumento dos investimentos, apesar da austeridade fiscal; o que se viu na Rússia foi uma gigantesca queda dos investimentos e do PIB, da ordem de quase 50%; iii) países com grande extensão territorial e grandes populações são afetados muito mais drasticamente pelos choques ultraliberais do que pequenos países. Tudo isso representa, no médio prazo, uma situação insustentável política-econômica-socialmente.

Muito antes da pandemia da covid-19, em 2019, no primeiro ano de governo, de acordo com relatório do Banco Central do Brasil, publicado em 08 de janeiro de 2020, houve uma fuga de capitais da ordem de US$62,24 bilhões, a maior saída de dólares nos últimos 38 anos. Numa nítida demonstração da perda de interesse de investimento estrangeiro, muito provavelmente por falta de segurança no ambiente político de ódio instaurado no Brasil pelo governo Bolsonaro. Em 2020 não foi diferente. Até o mês de março, houve uma retirada da Bolsa brasileira no valor de US$44,7 bilhões superando o saldo negativo recorde de todo o ano de 2019. O que tem dado tranquilidade ao Brasil nessa tempestade são as reservas internacionais de US$370 bilhões, construídas pelos governos dos presidentes Lula e Dilma, do Partido dos Trabalhadores (PT); caso contrário, estaríamos numa situação igual a do governo FHC que vivia com pires na mão e de joelhos batendo na porta do Fundo Monetário Nacional (FMI).

Outro recorde em 2019 foi no mundo do trabalho no qual o número de ambulantes chegou a 24,4 milhões de pessoas. Somando-se a esses estão os trabalhadores sem carteira assinada contando 11,9 milhões, novo recorde da série história da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE. Por fim, o número de desempregados apontados pela Pesquisa é da ordem de 12,4 milhões de pessoas. O somatório dos três itens resulta um total de 48,7 milhões de pessoas, com suas famílias sofrendo pela situação precária de ocupação e pelo desemprego.

Ontem, 21  de junho, o Brasil contabilizou mais 40 mil mortos pela covid-19. Continuamos sem ministro da Saúde, colocaram lá mais um general para quem o Nordeste brasileiro acompanha as condições climáticas do hemisfério norte. Até quando vai durar esse horror?

Uma lição que a história da Rússia de Yeltsin vem demonstrar é que mesmo depois de um grande desastre político-econômico é possível reconstruir um país. Assim, depois de passado o desastre do furacão destruidor Guedes-Bolsonaro, as lideranças progressistas brasileiras precisam unir-se para atuar um projeto contundente de reconstrução da democracia brasileira, a exemplo da Rússia, no século XXI, que emerge como potência mundial ao lado dos EUA e da China.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.