BOM SÓ O PAI, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Das três revoluções burguesas contratualistas – inglesa, francesa e estadunidense – pode-se atestar que a teorização política eminentemente moderna coube a esta última em virtude do desafio teórico encontrado, a saber: (1) desmentir dogmas da tradição política que consideravam o espírito comercial emergente como impeditivos da constituição de governos populares; (2) governos populares dependiam exclusivamente da virtude do seu povo; (3) democracias precisavam permanecer confinadas a pequenos territórios. Três grandes nomes destacam-se na construção desse edifício democrático: Alexander Hamilton, James Madison e John Jay.

 

Uma diferença básica entre as revoluções francesa (1789) e norte-americana (1776), como lembra Hannah Arendt, situa-se no fato de que a revolução estadunidense não devorou os seus filhos, como ocorreu com o terror jacobino francês. A verdadeira revolução ocorreu muito antes da declaração da independência, por meio da organização dos colonos das Treze Colônias, na qual a ênfase foi colocada na igualdade dos indivíduos (não em títulos de nobreza, nem em capitanias hereditárias), o que levou os fundadores a se preocuparem com aspectos organizativos da nova sociedade mediante laços de solidariedade e de participação política. O federalismo nasceu como um pacto político fundante que constituiu os estados unidos enquanto nação.

 

A importância fundamental de James Madison nessa elaboração teórica destaca-se na compreensão sobre o controle dos detentores do poder, “porque os humanos são governados por outros humanos”. Assim, as estruturas internas do governo deveriam ser estabelecidas de tal forma que funcionassem como uma defesa contra a tendência natural do poder a tornar-se arbitrário e tirânico. Madison possuía claro entendimento de que nos tempos modernos a “virtude” fora substituída pelo “interesse pessoal”. Assim, a estrutura de poder deveria ser controlada para assegurar uma esfera própria para o livre desenvolvimento dos indivíduos, como para garantir a transparência dos atos públicos em relação à coisa pública. A limitação do poder só poderia ser obtida pela contraposição a outro poder, isto é, poder freando poder. Afinal, “humanos não são anjos”.

 

Diferentemente da história política acima apresentada, durante 21 anos vivemos aqui no Brasil, na segunda metade do século 20, sob uma ditadura civil-militar (1964-1985), na qual se aperfeiçoou um sistema repressor complexo da sociedade, que permeava as estruturas administrativas dos poderes públicos e exercia uma vigilância permanente sobre as principais instituições civis: sindicatos, organizações profissionais, igrejas e partidos. Erigiu-se também uma burocracia de censura que intimidava ou proibia manifestações de opiniões e de expressões culturais identificadas como hostis ao regime autoritário. Sobretudo, em suas práticas repressivas, fazia uso de maneira sistemática e sem limites dos meios mais violentos, como a tortura e o assassinato.

 

Em 2016 nossa democracia em construção desde 1988 foi surpreendida pela nova roupagem atualizada de golpe de Estado, onde não se usam os tanques de guerra, mas as Instituições Republicanas e a Mídia, para o assalto ao poder. Uma das ferramentas eficazes deste tipo de golpe é a construção de mitos. O mito é “aquele escolhido” para impulsionar as ações humanas. A partir dele, indivíduos se movem com uma crença cega, veemente e ativa. A força do mito não está no conhecimento crítico por parte das pessoas, mas no emocionalismo da fé: elas acreditam piamente, por isso um mito dificilmente será questionado ou refutado pelas massas porque ele é identificado como a personificação dos seus anseios. Um dos mitos construídos em preparação do ambiente público para o Golpe 2016 foi a Operação Lava-Jato (apresentada como a redentora do Brasil), sob o comando dos “anjos justiceiros” Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.

 

Contudo, a estrutura do Golpe não contava com o profissionalismo jornalístico investigativo da empresa Intercept Brasil, atualmente com a parceria do jornal Folha de São Paulo, da revista Veja e do jornalista Reinaldo Azevedo da Band News FM. Sob o comando do jornalista Glenn Greenwald estão sendo revelados para a população brasileira os ilícitos obscuros contidos nos procedimentos desses “anjos justiceiros” mostrando as faces nefastas dessa Operação.

 

Entre as lições conferidas por Michel Foucault em seus estudos sobre o poder está aquela na qual instituir os mitos é essencialmente um ato de poder. Quanto mais autoritário for o pensamento do grupo no poder, tanto mais autoritário será o regime que forjará a verdade por ele a ser imposta aos seus governados. É essa mentira que está sendo desnudada com as precisas revelações publicadas pelo Intecerpt Brasil e seus parceiros. Com o desnudamento de Moro e Dallagnol, confirma-se, assim, aquela máxima atribuída a Jesus de Nazaré: “Bom mesmo só o Pai”.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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