Benfique-se

Quantos e quantos amores eu tive/tenho em/por Fortaleza? Olha, entre pessoas, lugares, experiências e relances, acho que eu teria que viver mais duas vidas para contar tudo. No entanto, minha memória é péssima, o que provavelmente é aliviante, para você, pessoa que lê mais este devaneio. Dentre os arrebatamentos que tive e ainda tenho, um dos mais especiais é pelo bairro Benfica e suas redondezas. Para mim lá é o reduto da boêmia, a minha boêmia, de ótimos momentos de socialização como “Será que as pessoas daquela mesa vão se incomodar se eu simplesmente chegar lá e disser que o bar está lotado e que gostaria de sentar com eles para falar sobre signos?” e perfeito para encontro às escuras, afinal, a qualquer momento é possível ver um conhecido e ser salvo de uma conversa constrangedora com alguém que não gosta de gatos e tem um viés político conservador. Não que isso já tenha acontecido comigo. Longe de mim! 

O Benfica, juntamente com a Gentilândia e o Farias Brito, o bairro, não o colégio, me trouxe lindas experiências. Conhecia boa parte dos donos dos bares da região, alguns me tratavam com muito carinho e se preocupavam quando eu chegava com algum sujeito que eles não aprovavam. Um deles uma vez disse “Se ele for abusado com você, me diga que ponho ele pra fora”. Fofo. Mas nunca foi necessário. Já quebrei carteirinha de estudante e não tinha como voltar pra casa, já levei muitas quedas estando um tanto quanto embriagada, já declamei matéria de cinema em bar depois das 2h, já aproveitei muitas calouradas e já me apaixonei perdidamente, o que não significa que é bom, afinal, estar perdida não é bom.  

Sou da época em que se bebia no meio da rua Waldery Uchôa em dia de show no Cantinho Acadêmico, na verdade, sou de antes disso – uma das minhas primeiras experiências alcoólicas foi naquelas redondezas, na Praça João Gentil, nem lembro quantos anos tinha, mas lembro de ter conhecido o bairro naquele dia. Amor à primeira dose! Aí você deve estar pensando que a pessoa aqui só vivia de beber, não é muito verdade, mas não é de um todo mentira. Não cursei jornalismo na UFC, mas era cadeira cativa por lá, estudei italiano, português, fiz amigos em diversas áreas e sempre preferi o CH (pessoal da humanas) ao Pici (pessoal das extatas).  

Mas nem só da noite se vive o Benfica, há feiras orgânicas, encontros artísticos, pontos de encontro para manifestações, carnaval de rua, comida gostosa no fim do dia, restaurantes para quem gosta de churrasco, vegetariano, oriental, vegano e italiano, bem, tem pizza lá, o termo “italiano” foi um artifício para completar o raciocínio e ficar bonito na frase. 

Bem, mesmo com a vida adulta já consolidada e até mesmo de longe ainda mantenho esse amor quentinho embaixo de tanto casaco que já se faz necessário aqui pelo Flandres belga. Indico para todo mundo conhecer o Benfica. Há tantos novos lugares e os há ainda firmes e fortes.  Pare por lá, tome uma cerveja gelada, coma um espetinho e se permita conhecer pessoas novas e falar sobre tudo que lhe apetece. 

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

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