Bem-aventurados

Entrámos na capela do antigo convento branca e nua. Ao fundo uma sombra moveu-se com rapidez. Terei sido só eu a vê-la? Eu girei sobre os calcanhares e pus-me a olhar para uma mulher cheia de anéis ao meu lado. Eu quis saber se ela havia visto a sombra. Éramos um grupo de turistas. Daqueles religiosos. Ela olhou para mim mil vezes e fez um gesto com a cabeça. Não percebi bem que gesto era aquele, mas imitei-a. Visto que a imitei, recebi logo depois um sorriso. Ela pediu-me que falasse baixinho, por forma a não atrapalhar aqueles que rezavam. Na minha opinião, era impossível atrapalhar quem rezasse, eu calava-me.

CORO (vozes ao alto): Don DeLillo escreveu que o turismo é a marcha da estupidez.

 

Passou-se um quarto de hora. Não gostei daquele pedido e voltei a perguntar-lhe o mesmo. Então, a tal turista riu-se à descarada. Mas que raios. Depois, perguntou-me se não estava com febre. Para ela ali havia um pouco de tudo, menos algum tipo de mistério. Uma vez que me disse aquilo, abanei a cabeça vezes e vezes sem conta. Em seguida, pus-me a olhar para os pés. Ela perguntou-me se acaso tinha partido o pescoço. Então, eu ri-me e disse-lhe que era dona de uma graça grande. Na verdade, o modelo de telemóvel tinha graça no nome. Jamais o havia imaginado. Ela agarrou no telemóvel, mexeu-lhe e apontou-mo à cara. Eu fiquei para morrer, estrebuchei. Como é que era possível?

A turista abriu a aplicação da rede social. Depois, para os seus fãs começou a transmitir imagens em directo daquilo que se passava no interior da capela. Ela quis gozar-me. Agarrou-se a mim, não mais me largou. Não podia haver ali nenhuma sombra, guias turísticos explicando tudinho. Se não traziam nada relativamente a sombras, não podia haver sombras; os fãs escreveram-lhe que nunca ninguém as vira. Entretanto, começámos ali à estalada e ao murro. Como é que era possível?

O telemóvel caiu no chão. Abriu-se todo. Houve muita gente a ver a transmissão em directo e, segundo a tal turista, aquilo parecia ser bom. Gotas de suor cruzando-se no meu rosto. Eu sequei-me de uma só vez. Ninguém rezava, ela desmaiara. Um doce e um copo de bagaço conventuais far-lhe-iam maravilhas. Não havia orações, mas o silêncio aparentava ser ainda mais devoto. Ainda bem que eu só lhe disse que tinha visto uma sombra. Caso dissesse que tinha visto Satanás, matar-nos-íamos na certa.

CORO (vozes ao alto): Bem-aventurados os que rezam, porque herdarão a tecnologia de ponta.

Avatar

Jaime Soares

Jaime Soares nasceu a 14 de Janeiro de 1987, em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas (Português/Inglês) e mestre em Estudos Anglo-Americanos (Literatura e Cultura), pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2016, foi-lhe atribuída uma bolsa pela Associação Luso-Britânica. Por um período de um ano trabalhou no CETAPS (Centre for English, Translation, and Anglo-American Studies), Universidade do Porto, ajudando a desenvolver actividades culturais e académicas como, por exemplo, seminários com docentes e escritores, assim como sessões de cinema. Jaime Soares apresentou algumas comunicações em conferências no Porto, em Braga e em Boston (neste último caso, in absentia). A revista da Don DeLillo Society inclui um artigo da sua autoria intitulado “Don't blame the players, blame the 'system': a systemic reading of Don DeLillo's The Names” (2017). Em 2018, ganhou o Prémio Literário Germano Silva com a obra A cor verde (edição Editorial Novembro). Atualmente trabalha na indústria têxtil e lê e escreve nas horas vagas.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.