BARCELONA

Após o joguinho de futebol na última madrugada, no Camp Nou, eu decido-me pela visita ao hostel logo pela manhã. Assim foi. Gràcia City Hostel. Isso. Com acento grave e tudo. Há postes de iluminação ao fundo da rua. Só sinto curiosidade e abano um pouco a cabeça. Eu estou de novo aqui. O hostel é um lugar mágico neste momento. O rótulo da garrafa na minha mão encontra-se unhado. Mas eu já reparei que pestanejo cada vez mais depressa junto à porta. E é como se pernas e braços não se mexessem mais; eu olho para a calçada e o frio percorre-me a barriga. Afinal, não há um dizer que aconselha a não voltar aonde já se foi feliz?
A minha respiração desacelera. O sol já está a nascer e eu, qual criatura pasmada, volto a reparar no hostel à minha frente. Por fora ainda é simples e sóbrio. O cinzento, o castanho e o branco destacam-se. É como uma caixa de chocolates, não falta sequer um rasto de vinho. Uma poça púrpura mostrando-se a mim. Só se passaram, ou já se passaram, três anos desde que estive aqui. Ainda bem que o exterior se mantém o mesmo. Não perdi muita coisa. Talvez.
Agora rio-me. Há três anos eu estava a chegar à porta do hostel de mala na mão e morto de sono, uma vez que na véspera jogara às cartas com a insónia. Foi isto que eu vi. É isto. Um lugar simpático ao qual eu quis imediatamente chamar de casa. Uma casa com a alcunha “temporária” na parte de trás da camisola. Não chovia, estava nevoeiro. Eu caminhava como uma tartaruga. Agora, o tempo está frio e eu faço uma espécie de dança de vitória. Não vou entrar já, assobio. Alguns transeuntes vão ao longe para o pequeno-almoço e observam-me. Desayuno. Eu sinto-me bem, dou um passo atrás e ponho os dentes à mostra.
A fachada prende-me o olhar. Não parece haver nenhuma divisória entre o hostel e o outro edifício; a fachada é um bloco de cimento que engolira aqui e acolá pontos de cor. Ilumina-se tudo. Há paredes cinzentas, acabamentos em madeira e mosaico, uma varandinha em ferro que continua a ser mais saliente do que o resto da construção. Eu começo a mostrar um sorriso de orelha a orelha, olho para tudo. Isto já era mesmo assim há três anos. Há uma ou outra parte que tem mais sujidade. Pronto. Sento-me no chão à espera que aconteça alguma coisa.
O hostel é composto por três pisos, isto é, a cave, o rés-do-chão e o primeiro andar. Sempre o fora. Eu olho pela janela da recepção e vejo o que vi quando ali fui hóspede. Deram-me a conhecer uma equipa maravilhosa. Um sorriso ao balcão, homens e mulheres revezando-se, adornos de Espanha e do México sobre três ou quatro móveis, que medem meio metro.
Alguns turistas pisam-me a mão sem querer. Não falamos a mesma língua, eu levanto-me. Por fim abro a porta, os pés fixam-se bem na rampa de acesso ao hostel. A luz amarelada aquece-me a face e alguém ali a um canto atira que sou bem-vindo. Não faço caso do que me dizem. Todos continuam a fazer o seu serviço. Não há nenhum abraço, eu deixo-me estar. Na verdade, nenhum rosto me é familiar. Uma série de paredes e armários encontra-se em obras de remodelação. A minha passada é célere. Há barulho no primeiro andar. Eu respiro fundo. Há gotículas de água ao meu redor. São vozes de quem conheci num quarto de 12 camas. O quarto que me deu abrigo durante quase três meses. Mas toda a gente está a dormir no tal quarto, por isso dirijo-me à sala de estar. Na cave. O chão range um pouco. Eu bato palmas junto às paredes. Na carpete deixo cair meia dúzia de lágrimas. Numa das paredes está pintado o retrato de Picasso. Lembro-me bem daquilo, foi um artista argentino com quem partilhei o quarto durante semanas a fio. A tinta está imaculada e a peça do Rupper ganhou com a passagem do tempo. Eu toco na parede e sinto-me abraçado. Viro-me para o sofá a um canto da sala e passo-lhe as mãos. Sento-me como uma criança de três anos. Tudo se impregna de luzes e cheiros. Há cigarros, telemóveis, luzes de presença, paella mista sobre a mesinha, a sopa inspiradora de tomate e ovo ao lume. Agora, medito durante três segundos. O meu peito abre-se com um senhor suspiro. Sinto-me embalado pela textura quente daquele sofá. Ali aconteceram mil conversas, abraços sem fim e filmes ao serão. Rio-me à grande e à espanhola. Não sei se consigo parar com isto tão cedo. Há arrepios em toda a parte.
Depois, levantei-me do sofá.
O dono do hostel fora em digressão com a banda de reggae. Só o mordomo se mantém por ali. É uma espécie de gnomo, exactamente como me lembro dele. Festivo, carinhoso, passando-se com golos e vitórias do Real Madrid. O nome de Cristiano Ronaldo dentro e fora daquele hostel. Então, aquele meu gnomo madrileno ainda se saracoteia por terras catalãs. Aqui não há gente da minha idade. Já não encontro a mesma equipa maravilhosa que conheci, não encontro pessoas que tratei por tu. Mas o hostel continua a resultar acolhedor, um local de encontros, um espaço de desejos e aprendizagens.
Eu regresso à rua. A fachada beija-me a cabeça. É, com efeito, um edifício que vejo com bons olhos. Apetece-me abraçá-lo com toda a força, que sei que estará sempre aqui. Um espaço de convergência, a deambulação e o minimalismo. Linhas e paredes de estilo moderno. Não desvio o olhar. Hoje, eu estou mais careca do que há três anos e isso é motivo de orgulho. Assim como o hostel que me proporcionou rotinas e gestos que não troco por nada.
Fá-lo por ti e por outrem!

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Jaime Soares

Jaime Soares nasceu a 14 de Janeiro de 1987, em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas (Português/Inglês) e mestre em Estudos Anglo-Americanos (Literatura e Cultura), pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2016, foi-lhe atribuída uma bolsa pela Associação Luso-Britânica. Por um período de um ano trabalhou no CETAPS (Centre for English, Translation, and Anglo-American Studies), Universidade do Porto, ajudando a desenvolver actividades culturais e académicas como, por exemplo, seminários com docentes e escritores, assim como sessões de cinema. Jaime Soares apresentou algumas comunicações em conferências no Porto, em Braga e em Boston (neste último caso, in absentia). A revista da Don DeLillo Society inclui um artigo da sua autoria intitulado “Don't blame the players, blame the 'system': a systemic reading of Don DeLillo's The Names” (2017). Em 2018, ganhou o Prémio Literário Germano Silva com a obra A cor verde (edição Editorial Novembro). Atualmente trabalha na indústria têxtil e lê e escreve nas horas vagas.

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