Barbara, nunca é tarde — nunca é demais

A atriz, ensaísta, professora, jornalista, crítica teatral e tradutora Heliodora Carneiro de Mendonça, ou simplesmente Barbara Heliodora (assim, sem acento), faria cem anos nesta semana. Era carioca, e formava com Sábato Magaldi e Yan Michalski a mais combativa e inteligente tríade crítica do teatro brasileiro.

Dona de uma sensibilidade estética singularmente aguçada, Barbara Heliodora foi presença marcante nos meios teatrais do país, notabilizando-se pela análise implacável de espetáculos de qualquer gênero — invariavelmente profunda, atenta, exigente, certeira.

Certa vez, no teatro Carlos Gomes, Rio de Janeiro, tive a oportunidade de vê-la — sentada uma fileira de cadeiras à minha frente. O espetáculo, lembro-me bem, era “A Mulher sem Pecado”, de Nelson Rodrigues, com Dionisio Azevedo (sublime) no papel do marido atormentado em sua obsedante busca da verdade sobre a fidelidade da esposa, Lídia. Assisti ao espetáculo, assumo, com o olhar transitando, igualmente atento, do que se passava no palco, a poucos passos de mim, para as reações quase imperceptíveis daquela senhora impassível, de postura nobre, como a tentar antecipar seus abalizados juízos sobre aquela montagem. A custo, porque difícil o acesso, à época, tinha eu por hábito ler seus textos, descobrindo os segredos de uma arte que despertava em mim tanta paixão, e para a qual se ressentia, o jovem que fui, do cabedal teórico que lhe permitisse compreender, para além da superfície, o que faz de um texto, de uma montagem, do trabalho de um ator, de uma atriz, ou da competência de uma direção, algo capaz de alcançar o status de uma grande realização artística.

Tanto quanto a Magaldi, cujo texto já por si é capaz de encantar o leitor, ou Michalski, no embasamento teórico que salta aos olhos no primeiro bater de olhos, devo a Barbara Heliodora muito do meu amor pelo teatro, da minha razoável capacidade de compreender, em bom nível, essa arte ao mesmo tempo tão simples e tão complexa.

Mas falar de Barbara Heliodora é muito mais que falar de uma notável crítica de teatro, cujos conhecimentos sobre a cena dispensam comentários, quer pelo elevado nível de sua fundamentação teórica, quer pela amplitude de sua densidade intelectual, muito embora se deva evidenciar, sob este aspecto, que sabia escrever textos leves, soltos, acessíveis, mesmo para aqueles que não tinham com a arte teatral grande familiaridade.

Sua crítica, tanto quanto pela verticalidade do material teórico mobilizado, valia por sua extensão, compreendendo-se por isso o alcance de sua visada corajosa sobre a realidade brasileira, em que pese ter sido, por este viés, tantas vezes incompreendida. É que Barbara Heliodora evitou sempre o tom panfletário, guardando distância dos radicalismos ideológicos, fossem esses de direita ou de esquerda, jamais furtando-se a participar do debate e a expor em artigos incontornáveis o seu pensamento crítico.

Exemplo do que falo aqui, para finalizar, é o artigo intitulado “O Medo da Liberalidade”, em que condena a censura militar quando da publicação de uma portaria tornando obrigatório o envio de textos teatrais para Brasília, antes de encenados. Eram perversos os cortes, as mutilações, via de regra levados a efeito por gente sem cultura, que entendia de teatro o mesmo que um asno entende de igreja. Quando não impedidos, integralmente, de ganhar materialidade no palco, fato recorrente o mais das vezes.

“Ser subdesenvolvido não é vergonha para ninguém. Insistir em assim permanecer, no entanto, é mais do que vergonha, é crime de lesa-pátria. Lutar cega, desesperadamente, contra a evolução e a verdade, contra o conhecimento, a avaliação objetiva, o reconhecimento de nossos problemas sociais, existenciais, econômicos e políticos, é insistir em condenar esse nosso Brasil tão sofrido, tão desperdiçado, tão explorado e tão desconhecido por nós mesmos, a uma prorrogação sem prazo — e, se possível, eterna — de sua relegação ao estado de subnação, e da pior subnação, aquela na qual, propositadamente, se confunde tradição com estagnação, esclarecimento com subversão. Vamos queimar livros, como Hitler; vamos preferir Torquemada a João XIII”.

Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 18 de novembro, 1967.

Na semana em que completaria cem anos, reler os artigos de Barbara Heliodora é poder compreender o que terá representado para a inteligência brasileira essa mulher extraordinária, essa intelectual rigorosa, destemida, que jamais pactuou com o silêncio ou com a omissão, sem curvar-se, no entanto, a interesses de correntes ideológicas que não condissessem com suas convicções pessoais.

Viva Barbara Heliodora!

P.S. O título dialoga com os versos de Chico Buarque, da peça Calabar, dele e Ruy Guerra.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica