Back to black, por Álder Teixeira

Tenho o hábito de ouvir música ao acordar. Eis que hoje, a dois dias da eleição, como que por sortilégio, pego na estante um CD de Chico Buarque: Almanaque, é como se intitula, e foi lançado em 1981. É o CD em que figura como carro-chefe o clássicoCálice, dele, Chico, e Gilberto Gil.

E vou reparando, enquanto preparo o café, no que tem a arte de sinfrônico, de sintonizador com épocas as mais diferentes: “Pai, afasta de mim este cálice, pai, afasta de mim este cálice de vinho tinto de sangue”.

Lembro de minhas aulas de literatura, ajudando os alunos a descobrir as belas metáforas, o jogo de palavras, os artifícios de que lança mão o poeta a fim de tornar possível a veiculação de sua música nos anos de chumbo, que pensávamos, até há pouco, afastado de nossa vida dali para sempre.

O cálice da letra, muito antes de ser uma referência concreta ao graal, à taça propriamente dita, expressa, sonoramente, o protesto do eu-lírico contra o silêncio que lhe é imposto pela Ditadura então vigente: “Cale-se!”, a voz autoritária da censura, impedindo a liberdade de expressão e o direito de pensar livremente, diferente do estabelecido pelos tiranos de plantão.

E vem, na sequência do CD, a belíssima canção Angélica: “Quem é essa mulher / Que canta sempre esse estribilho / Só queria embalar meu filho / Que mora na escuridão do mar / Quem é essa mulher / Que canta sempre esse lamento / Só queria lembrar o tormento / Que fez meu filho suspirar”.

A música foi composta em homenagem a Zuzu Angel, figurinista e estilista, amiga de Chico, com quem Zuzu costumava dividir suas aflições de mãe, diante das ameaças que seu filho, Stuart Angel Jones, vinha sofrendo dos militares. A história, infelizmente, todos sabem, ou deveriam saber: Stuart, preso no quartel do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, viria a ser torturado e arrastado por um jipe militar, a boca no cano de descarga do veículo até morrer, asfixiado, aos 25 anos, em junho de 1971.

Zuzu levaria a efeito um dos movimentos mais corajosos de que se tem notícia no Brasil contra os horrores da ditadura militar. Sua voz ultrapassou fronteiras e ganhou o mundo como símbolo da indignação contra os horrores do regime implantado no país em 1964.

Mas, também ela, passaria a ser ameaçada pelas autoridades militares. A Chico Buarque, Zuzu entregaria a cópia de um bilhete com os seguintes dizeres: “Se algo vier a acontecer, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu filho”.

“Quem é essa mulher / Que canta sempre o mesmo arranjo / Só queria agasalhar meu anjo / E deixar seu corpo descansar / Quem é essa mulher / Que canta como dobra um sino / Queria cantar por meu menino / Que ele já não pode mais cantar”.

Consta que o corpo de Stuart Angel Jones, nunca encontrado, teria sido atirado de um helicóptero da Marinha em alto mar.

Em 14 de maio de 1976, exatamente um ano desde que escrevera o bilhete deixado em mãos de Chico Buarque de Holanda, o carro em que Zuzu trafegava foi trancado por um desconhecido na saída do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro.

Angélica, como carinhosamente a trata Chico Buarque na sua bela canção, que escuto nesta antevéspera da eleição de 2018, perdera a batalha contra os assassinos do seu filho.

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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