AVÔS E NETOS, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Hoje pela manhã, na minha caminhada rotineira, deparei com Gabriel na praça envolvido também em seu caminhar. Gabriel é um jovem de 18 anos, estudante do primeiro período de Teologia. Moramos no mesmo condomínio. Alegremente nos cumprimentamos pela surpresa do encontro decidindo caminhar juntos.

Perguntei-lhe se estava tudo bem, pois apresentava um ar sombrio. Ele me disse que dormira mal a noite toda em virtude do ocorrido no sábado com o presidente Lula e o seu neto Artur. Havia sonhado bastante durante toda a madrugada. Como é que 300 policiais fazem parte de uma operação na qual o Presidente iria prestar sua última homenagem ao netinho de sete anos, falecido por uma infecção meningocócica? Como é que uma juíza só autoriza a este Presidente apenas uma hora e meia de visita para cumprir o seu luto e fazer sua despedida?

Assim, eu lhe pedi que me contasse alguma passagem do seu sonho da qual se recordasse.

Gabriel falou de uma cena na qual via uma senhora, de toga preta, desesperada, sofrendo bastante por um câncer no fígado, com dores enormes porque nem a quimioterapia nem mesmo as fortes doses de morfina lhe aliviavam o sofrimento. Ela chorava muito alto arrependida por não mais poder corrigir os atos maldosos praticados no exercício de sua profissão. Repentinamente ela tentava recorrer ao amigo togado, seu guru, mas este estava com o corpo coberto de chagas, em pleno estado de putrefação, sofrendo por um câncer no cérebro. E, numa maca lado, na mesma enfermaria, estava um jovem com olhos claros, pele clara, com um sorriso pálido, preso numa camisa de força, retorcendo-se em sua ira e em seus sádicos devaneios.

Dito seu pesadelo, pediu-me uma opinião a respeito.

De minha parte, perguntei a Gabriel se antes do comentário ele gostaria também de escutar o sonho que tive na noite passada. E lhe disse que em meu sonho eu vi três homens. O primeiro deles estava preso, fazendo uma greve de fome como uma ação política para a libertação do seu povo. Esse mesmo homem conduzia uma multidão numa marcha para o mar. O segundo homem era um senhor negro, muito bem vestido, um rosto límpido, e com palavras sábias convocava seus irmãos de cor à desobediência civil para que os direitos de sua gente fossem garantidos em sua nação. O terceiro tinha barba e cabelos brancos, as mãos cheias de óleo e caminhava firmemente sem olhar para trás. Carregava seu neto no colo, abraçando-o carinhosamente. Apesar do sofrimento da injustiça sofrida, estava em paz por fazer a coisa certa em prol do seu povo.

 

Perguntei a Gabriel se ele gostaria de comentar o meu sonho. Ele me respondeu que o importante agora, mais do que nunca, era continuarmos firmes em nossa caminhada. Sem esmorecer.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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