AS PRAGAS DOS MIL DIAS!

No dia 26 do mês em curso, o atual desgoverno completa mil dias, com um resultado que se traduz em verdadeiras pragas para a população e o País. São estas, por exemplo, as constantes ameaças à democracia, com bravatas autoritárias, insultos e desrespeito à sociedade e aos demais poderes da República – verdadeiros atentados à inteligência coletiva. Em boa hora O Povo lançou um concurso para escolha das dez charges que melhor representem as pragas desse período.
Mutatis mutandis, como que revivendo os tempos do Egito, por aqui, as mortes de seiscentos mil brasileiros, infectados pelo novo coronavírus e, em acentuada medida, pela incúria daqueles que tinham a responsabilidade de as evitar, se configuram como o principal legado desses mil dias, e é havida como a primeira e mais devastadora das pragas da história nas terras de Cabral. Sem dúvida, conforma a maior consequência desses tempos tenebrosos, resultante da escuridão que encobriu o sol da ciência pelo negacionismo, somada a um agudo desprezo pela vida – característica marcante dos neoinsensatos e insanos desde o berço. Registra-se, pois, um cataclismo sanitário e civilizatório – para dizer o mínimo – e que não encontra precedentes na história desta Nação imensa e ultrajada.
Divisa-se, amiúde, na literatura pertinente, o fato de que, consoante os registros da história judaico-cristã, sucederam diversas calamidades, uma das quais se abateu sobre o povo egípcio. Esta é conhecida como As dez pragas do Egito, e, de acordo com o livro do Êxodo, constituíram castigos do Deus de Israel, para forçar o Faraó a libertar o povo hebreu (ou Israelita) da escravidão.
Ainda conforme os escritos bíblicos, somente após a décima praga, em que todos os primogênitos foram mortos, inclusive o filho do próprio Faraó, é que o povo foi libertado e seguiu pelo deserto em busca da terra de Canaã. No Brasil, o “primogênito do faraó” teve mais sorte e foi beneficiado com milhões em rachadinhas para bancar seus luxos, e contratar empréstimos com juros subsidiados para compra de mansão.

No sentido malsão (da mansão) da cultura vigente por essas bandas dos trópicos, o deserto que atravessamos parece ser ainda mais extenso e árido, pois, relativamente à imitação xing-ling do pretenso “faraó” – que, a exemplo dos tempos do Egito, também oprime e mantém sob ameaça uma população de 213 milhões de pessoas, embora tenha afirmado que levaria esse povo à “terra prometida”, libertando-o da corrupção – na prática, o que se observou no curso desses mil dias foi uma família e amigos mais chegados, incluindo até conhecidos milicianos, somados a algumas dezenas de militares e pseudopastores evangélicos, enredados em uma teia de malfeitos para compra de vacinas superfaturadas, como tem sido mostrado pela CPI da Covid.
Na contextura de uma tal “nova política”, sustentada pelo “Centrão” – ajuntamento de partidos compostos por deputados e senadores, que mais parecem gafanhotos engravatados devorando uma plantação – estes falsos grêmios partidários atacam vorazmente ministérios e estatais, além de outras estruturas do governo.

Tal política deu origem, dentre outras pragas, a quase 15 milhões de desempregados (e esse número não para de aumentar), redução dos investimentos, queda no setor agropecuário de 2,8%, encolhimento da produção industrial de 0,2%, apagão e aumento da conta de energia, PIB em queda e alta dos juros, além do aumento da inflação prevista para 7%, corroendo ainda mais o poder de compra da população trabalhadora que ainda tem alguma renda, agravando de maneira exponencial a pobreza, empurrando para a miséria milhões de cidadãos, que vivem à mingua de tudo.

Calma! Não tenha medo do escuro. Calma que eu já tô pensando no futuro… eu não tenho medo do escuro, sei que logo vem a alvorada… deixa a luz do sol bater na estrada… Esses versos, fragmentos do texto de Calma, música interpretada pela genial Marisa Monte, ilustram e nos chamam atenção para o obscurantismo do momento vivido, ao tempo em que nos impulsionam a tatear pela escuridão do embrutecimento, do desprezo pela vida, da negação da ciência, e dos mais elementares padrões civilizatórios, até encontrarmos a estrada iluminada pelo sol de um amanhecer de esperança, e do reencontro com os valores do respeito às diferenças, bem assim da preservação da autonomia das instituições.

Sim, não tenhamos medo de atravessar esse deserto de negação. Sabemos que o “faraó” detesta os que pensam diferente dele, e gostaria de governar com poderes absolutos, sem o controle do Judiciário e de um Congresso, ainda que amestrado, pois, como na Antiguidade, ele se sente guiado pelos “deuses” imaginários, de preferência “terrivelmente evangélicos”, mesmo que alguns jamais tenham sequer aberto o Livro Santo. Seus escassos recursos mentais o fazem desprezar qualquer modalidade de conhecimento que extrapole os extremismos da ideologização que ora se experimenta na contextura da esquizofrenia ideológica, bem como da bipolaridade do “nós” contra “eles”, a que se reporta Luiz Eduardo Soares, no livro O Brasil e seu duplo.

Durante a nona praga que se abateu sobre o Egito, o sol foi totalmente encoberto e o céu se tornou trevas durante três dias; por aqui a escuridão já dura quase mil, e ainda deverá se prolongar por, pelo menos, mais quinze meses, até o “faraó” ser apeado do poder. Resistir é preciso.

Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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