AS MULTIPLAS CABEÇAS DA HIDRA DO SENADO

Uma hidra monstruosa nasceu sob as nossas vistas. Ocupou os derradeiros vazios de bom senso entre os senadores da Pátria.

A cada tentativa de cortar-lhe a cabeça nasceram duas em seu lugar. As cabeças de serpentes no corpo de dragão deram força invencível a esse animal faminto de poder.

No Brasil, as comissões parlamentares de inquérito tornaram-se armas do autoritarismo latente do duvidoso parlamentarismo que se quer criar aqui.

O Senado anericano criou uma Comissão, antes do inicio da segunda guerra, para identificar atividades anti-americanas nos Estados Unidos. Esse aparelho repressor ficou conhecido por “Comissão MaCarthy”, nome de um senador desconhecido que fez carreira em suspeitas atuações partidárias.

A cada reação contra os poderes que ia enfeixando, a Comissão crescia, tornou-se temida, denunciou, instilou o medo, no estilo das fogueiras da vaidade de Torquemada. O governo sucumbiu às suas exigências, demitiu suspeitos, apontou culpados, tudo fez para livrar-se da limpeza que a todos ameaçava.

A midia reinou neste festival de condenações, imperial, repercutindo denúncias e suspeitas, animada por um sensacionalismo destruidor. Reputações e honorabilidades foram destruídas. Muitos dos condenados perderam seus empregos e deixaram o país.

MaCarthy humilhou os suspeitos de crimes contra a Pátria em interrogatórios que fariam inveja aos tribunais revolucionários de Stálin. Teve o FBI aos seus pés.

Recuperado o bom senso dos Robespierre de ocasião, ao termo da guerra, ruíram as provas e as acusações desfizeram-se. Restabelecera-se, finalmente, o primado da verdade e o respeito pela honra dos inocentes.

A CPI inquisitorial vive os seus dias de poder e glória, encorajada pela mídia, e pelas vertentes autoritárias de todos os partidos; continua a penitenciar, humilhar, atemorizar,agredir, desrespeitar e a construir falsas reputações nos seus autos-de-fé.

A tortura, aquela que não extrai as unhas dos ímpios, mas fere o íntimo da dignidade das pessoas passou a ser o instrumento de inquirição usado pelo senadores-sherifes.
A encenação canhestra desses personagens, saídos de registros criminais não concluídos, não consegue esconder o precário domínio que os verdugos exercem sobre a lógica e a razão. Muito menos a agressão sistemática à gramática e ao vernáculo por falta de escola e empenho. A falta de educação no uso inadequado do tratamento dispensado aos depoentes é um pormenor que transparece nos gritos e nas ironias de pé sujo que ocorrem aos personagens de uma deplorável pantomima eleitoral.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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