“La patrie est ce qu’on aime”, Bernard Valade – “L’ idée de nation”, LIDIS, Paris, 1985.
“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai nas fumaças da representação” , Guy Debord – “A Sociedade do Espetáculo“, Editora Contraponto, Rio de Janeiro, 2 000
Guy Debord, sociólogo francês, pintou com cores vivas o “Estado-espetáculo” e as suas liturgias. A encenação, assim como os ritos de autoridade, as leis e o carisma, compõem o quadro institucional do governo, são parte do que reconhecemos hipocritamente como “governabilidade”. Ao longo das 221 teses desenvolvidas no seu livro, como aforismos organizados em capítulos, o autor deste riquíssimo inventário dá a “espetáculo” o sentido de uma relação social mediada por imagens, na qual “a vida autêntica” é substituída pela sua representação.
Pretendi tratar, neste texto breve, com a liberdade que me conferi, do espetáculo do poder do Estado, da sua ritualística, de uma liturgia composta por sólidas representações de poder e obediência, do formalismo das leis e da arquitetura do poder exercido na sociedade pelas asas do Leviatã.
As liturgias que mais se cercam de uma ritualística mobilizadora e dos cenários que a celebram e lhes conferem autoridade correspondem aos “nacionalismos” e a sistemas autoritários de governo. As democracias, a seu turno, valem-se, como sugeria Renan, de uma “consciência moral” chamada de nação. São notórios, entretando, a convergência dos cenários, o pano de fundo de que se servem na celebração ritualística da sua liturgia, para a criação do “espetáculo” visível de uma relação de poder eminente, totalizante.
Símbolos, imagens, palavras e conceitos são parte desta engenharia, tanto nas sociedades “fechadas” de traço autoritário, quanto nas sociedades “abertas” supostamente democráticas.
Ao nazi-fascismo, como ao comunismo, não faltam o aparelho da propaganda, os valores carimbados da verdade consentida, as comissões da verdade, as alternativas postas para o controle da sociedade e consolidação dos poderes do Estado. Aos paises de governo populista, “soi disant” socialistas, progressistas ou, na sua realidade topográfica, “de esquerda”, outros anteparos ideológicos servem de arrimo, como se fossem monopólio da sua incomensurável bondade — a “defesa” da ecologia, das populações originárias, dos direitos humanos e das minorias vulneráveis…
Não que faltem à democracia ou ao que possamos entender como tal as fanfarras anunciadoras da liberdade e da legitimidade representativa em um “Estado democrático de direito”.