Ars Rebellium – Sérgio Costa

Pra quê nos serve a arte? E ainda mais, como instrumento de qualquer coisa que se aproxime de uma crítica, de alguma forma de resistência às realidades que atravessamos desde sempre? Que tipo de “autoridade” ela acha que tem para se portar como tal?

Eu diria que ela se veste – solenemente, como se fosse a uma ópera – da invejável certeza de ser eterna. De poder atravessar qualquer tempo e qualquer espaço de nossa breve história terráquea e disso se valer para poder falar sobre qualquer coisa. Justamente por jamais morrer, pode se gabar de possuir a mesma imortalidade que os deuses e ainda o próprio peso da experiência humana, e nesse pacote vêm junto os medos, forças, fraquezas, virtudes e mundanismos que ela mesma sempre representou em suas obras. Afinal, a condição humana não resiste em si mesma sem esses elementos que nos definem. Logo, são para sempre. 

A arte sempre vai significar tudo aquilo que mais representa o ápice das nossas expressão sentimentais e sociais. O ser humano, o existir, pensar e sentir humanos. E ainda tudo o que transcende a própria humanidade. O “fazer arte” (não na acepção dada à infância de um cearense para “se danar” ou “aprontar”) é tocar os dedos de Deus (e por que não, de Deuses?) com nossas mãos de criança que, desde o início dos tempos, invariavelmente quando se questionam dos nossos propósitos/sentidos de ser, apontam para uma única e misteriosa direção: as estrelas no infinito céu. E, afinal, não é lá que mora o Todo Poderoso?

Penso que a vida, sem arte, seria um erro. Mas aquele filósofo já disse algo parecido, então vamos tentar de novo: a vida seria um grosserio desvio dos propósitos divinos se não houvesse a arte. Ou seja, Deus e os anjos errariam grosseiramente a mão na hora de nos criar se não nos fosse dada ao menos uma fagulhazinha de seus dons divinos. Porque, afinal, muito da arte é criado para justamente tentar explicar ou se aproximar do Sagrado – lembra de quando apontávamos para o céu mirando o que há entre as estrelas? E se viemos dessa força, como nos reconectarmos com ela senão pelo dom trabalhado no ofício artístico? Afflatus Divine!*

Mas como a arte também é imortal, ela tem que cruzar a estrada do tempo observando e refletindo a respeito do que esse tempo nos faz passar. Se ela é feita para também nos fazer refletir sobre o ser, certamente também tem o dever de denunciar, de criticar e jogar às portas da realidade todo e qualquer questionamento sobre o que estamos fazendo com a própria realidade – e vice versa. Sua dura função é saber ser (e se fazer saber ser) justamente mensagem e meio ao mesmo tempo. É instrumento, portanto, de perene revolução, custe o que custar. 

Importante deixar claro: ainda que represente a realidade (na velha máxima de que “a arte imita a vida”) ela não deve ser tomada e admirada apenas pela tradicional e incessante busca pelo “belo”. Só os ideais de beleza não representam o fim maior da arte, tendo em vista que ela mesma muitas vezes precisa se deitar sob a cama de espinhos das facetas mais desgastadas e horrendas do que fazemos e fizemos ao longo da vida aqui na Terra. O ato de denunciar e ser resistência passa, então, pelo escancarar de tudo o que não for belo, mesmo que isso cause impacto, choque. Ora, mas o que é a arte senão também uma forma de chamar atenção por incomodar? “E eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”, já dizia nosso amado e imortal cancioneiro bigodudo.

Dialogando com tantas esferas da sociedade e da vida, por que ela não deveria, então, ser resistência? Ela se mostra ricamente rebelde das mais diversas formas: física, mental, moral, visual e auditiva, textual e oral. Veja uma estátua, por exemplo: seu devir é “falar” silenciosamente através das eras, representando e permanecendo, seja acompanhada de uma placa explicativa ou não. É feita para se admirar, para ser olhada e contemplada. Para fazer pensar e sentir. Assim é também a música, que ecoa e vibra nas caixas torácicas de vozes que bradam em uníssono uma canção que não se cansa. A música possui ainda a vantagem de ser intocável, como a própria arte deveria ser, e imparável enquanto não se puxa a tomada do som. E totalmente transmissível enquanto alguém lembrar alguma melodia. A arte, por si, deveria ser socialmente audível e visível não fosse sua arquiinimiga, a censura.

E que tempos são esses em nosso país onde mais falamos de censura do que sobre o que ainda sendo feito na própria arte? Ora, quem não a quiser, que exerça todo o seu direito de não consumi-la. Mas daí a tentar silenciá-la? É preciso voz. Som. Letras. Gritos. A arte necessita de verbo, de vez e visão. Quem fala estilhaça a máscara do silêncio, da vergonha, da humilhação e de qualquer conivência culposa. Não podemos nos calar perante tudo o que está errado ou injusto. Jamais. Nem hoje (e principalmente neste Brasil de hoje) nem nunca. Porque o papel dela não é só romantizar tudo ao seu redor e nos transportar para uma realidade imaginária onde tudo é perfeitinho, fofo e encantador. É preciso cantar o amor sim, mas também é sempre urgente escancarar a dor. 

Que a arte resista, insista, consista e conquiste mais corações inspirados e que nos faça crescer como seres humanos, sempre ávidos a nos (re)conectar com o divino. E talvez até, com muita sorte, com nós mesmos!

*”Inspiração divina”, em tradução livre do latim.

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, empresário por coragem e guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas, boas conversas, viagens inesquecíveis e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião.

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