ARMAÇÃO ILIMITADA, por Alexandre Aragão de Albuquerque

No processo da abertura negociada pela ditadura militar rumo à democracia, o Brasil viveu um caso histórico de tentativa de fraude eleitoral promovida pelos apoiadores do golpe de 1964. A farsa ficou conhecida como o CASO PROCONSULT, cujo objetivo era impossibilitar a vitória do engenheiro LEONEL BRIZOLA ao governo do estado do Rio de Janeiro, em 1982.

Em que consistiu essa tentativa de fraude?

Desenvolveu-se no sistema de apuração de votos, feito pela empresa Proconsult, associada a antigos colaboradores da ditadura militar. A mecânica da fraude consistia em transferir votos nulos e brancos para o candidato do PDS (antiga ARENA), MOREIRA FRANCO. Como Brizola desconfiava da ação da GLOBO, de Roberto Marinho, contratou outra empresa de informática – Sysin Sistemas e Serviços de Informática – para fazer uma apuração paralela. E o resultado divergiu completamente dos números “oficiais” fornecidos pela Proconsult. A fraude foi extensamente denunciada pelo Jornal do Brasil (JB) e relatada posteriormente pelo jornalista Paulo Henrique Amorim. Brizola conseguiu ser eleito.

Outro episódio famoso foi estudado pela professora de comunicação Diana Paula de Souza ao realizar uma excelente pesquisa intitulada “Jornalismo e narrativa: uma análise discursiva da construção de personagens jornalísticos no sequestro de Abílio Diniz e suas repercussões políticas”. No segundo turno da eleição de 1989, houve o sequestro no dia 11 de dezembro do empresário Abílio Diniz, na época presidente do grupo Pão de Açúcar. Imediatamente, segundo a pesquisadora, começaram os relatos jornalísticos sobre o material de propaganda política do PT que supostamente teria sido encontrado junto com os sequestradores, num esforço dos veículos de comunicação para estabelecer uma conexão entre o sequestro e o candidato à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, conforme redigia o jornal O Globo de 18 de dezembro. A informação partiu do secretário de Segurança de São Paulo, Antônio Fleury Filho, mas acabou sendo contestada pelos próprios sequestradores que “afirmaram terem sido obrigados por policiais de São Paulo a vestirem as camisetas do PT após serem presos”.

Também o jornalista e escritor Mario Sérgio Conti, em seu livro “Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor”, afirmou que a eleição de 1989 foi decidida na última semana, momento “em que a grande imprensa esteve envolvida nos fatos”. Para Conti, o sequestro de Diniz está entre os fatores que contribuíram para a eleição de Collor e derrota de LULA. O autor narra que  na manhã de domingo 18, o dia da eleição, O Estado de S. Paulo noticiou na PRIMEIRA PÁGINA que “um padre da zona sul, simpatizante do PT, foi avalista da casa alugada pelos sequestradores”. Uma das reportagens de O Estadão relatou que Alcides Diniz, irmão do sequestrado, sustentava que o PT participara do sequestro. Mas a reportagem não esclarecia que Alcides Diniz era amigo de Collor e se engajara na campanha do candidato do PRN. Outro exemplo ilustrativo, a principal manchete do jornal O Rio Branco, do estado do Acre, foi “PT sequestra Abílio Diniz'”.

Os desmentidos sobre a ligação do sequestro de Diniz com o PT começam a surgir somente a partir do dia 19 de dezembro de 1989, quando o resultado das eleições já era sabido. Mário Conti descreveu que “as investigações posteriores provaram que nenhum militante do PT estivera envolvido no sequestro de Abílio Diniz, e que os sequestradores disseram em juízo que policiais civis os torturaram e, antes de os apresentarem à imprensa, os forçaram a vestir camisetas do PT”. A Polícia Civil estava sob o comando do secretário da Segurança, Luiz Antônio Fleury Filho. Quase um ano depois, em outubro de 1990, o governador de São Paulo, Orestes Quércia, superior imediato de Fleury, disse numa entrevista ao Estado de S. Paulo que durante o sequestro “houve pressões no sentido de que se conduzissem as investigações para envolver o PT”.

No dia 20, O Globo saiu com a seguinte manchete “Tuma: sequestro de Abílio não foi político”. Na matéria, Romeu Tuma, então Diretor Geral do Departamento de Polícia Federal, admitiu que a associação do sequestro com o PT pode ter prejudicado Lula no segundo turno das eleições: “Ele admite que a associação entre o sequestro e o PT possa ter prejudicado Lula”. O próprio Delegado não viu as supostas camisetas e repudia qualquer ligação do caso com o PT.
Também no dia 20, a Folha de S. Paulo publicou: “Sequestro pode ter prejudicado Lula”, e que “São Paulo foi o estado onde Collor cresceu significativamente entre o sábado e o domingo”, segundo pesquisa de boca de urna realizada pelo Datafolha.

Portanto, desde abril de 2016, estamos assistindo a mais uma grande fraude que desmantela a democracia brasileira quando depuseram a presidente Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade; quando aprisionaram o presidente LULA sem provas reais conforme o direito positivo brasileiro; quando o TSE desacatou um tratado internacional do qual o Brasil é signatário, prejudicando uma vez mais o direito político de LULA ao cassar o seu registro como candidato a presidente da República.

O poder midiático é peça fundamental neste processo golpista, ao ditar o espetáculo bizarro de ket-chups e armas brancas, verdadeiras armações ilimitadas a iludir o povo com suas novelas de péssimo gosto, incitando à violência cotidiana, com seus atores fanfarrões, nesse “acordo nacional” que envolve diversas instituições, num enredo sem o menor respeito pela soberania popular e pela democracia.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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