Antropólogo ou Zé povinho?

 

– Olha o cachorro, Jéssica!

– Tá indo trabalhar?

– Ô ladeira dos infernos!

– No posto só tem Dipirona.

Entranhada na parte mais alta da rua, minha casa recebe minuto a minuto ecos de variados tipos de lamúrias existenciais.

De qualquer cômodo, ouve-se pensamentos verbalizados pelos pedestres.

Cada um com seu destino, os lamentos diários vão se soltando de acordo com o estado emocional.

Tem humor, tragédia, tristeza, alguma felicidade, conselhos, resultado do jogo do bicho. Mas, ultimamente, nenhum assunto sobressai às fabricantes de vacina.

– Só tomo se for da “faiser”, dá menos reação.

Ou

– A “vachina” eu não tomo porque botam chip na gente.

E por aí vai.

Pelas calçadas, desviando dos buracos e cocô de cachorro, desfilam os especialistas.

Há entendidos sobre muita coisa:

– Como pode o ministro do STF fazer isso com o presidente?

– É claro que tem fraude nas urnas eletrônicas.

– O vírus foi fabricado em laboratório.

Tem a mãe p. da vida com a escolinha do filho:

– O Jeférson voltou machucado da creche, um absurso isso!

Tem também o sonhador:

– Não vejo a hora de sair do aluguel.

E os descontentes com algo em seu trabalho:

– Patrão é tudo filha-da-puta.

Acho tudo isso uma delícia. Legal ser um psicanalista amador, ouvindo com muita atenção pedaços de histórias de vida a partir deste divã externo.

Por aqui, chamam de “zé povinho”, quem “brecha” conversas alheias.

Particularmente, considero uma arte.

E detalhe, são coisas que eu não procuro, elas chegam até os meus ouvidos, como o canto dos pássaros pela manhã.

Apenas absorvo e as transformo em reflexão pré-café da manhã, que me acompanha durante o dia.

Compartilho dos sofrimentos, me emociono e me solidarizo com a maioria dos personagens desconhecidos, como este:

– Tomei todas, mas ainda tô bonzão.

E este:

– Receba as flores que eu te dou…

Palmas para quem ainda vê beleza na desgraça.

Marco Garcia

Marco Garcia é jornalista paulistano. Morou em Fortaleza por 6 anos onde desempenhou trabalhos em diversas áreas da Comunicação. Foi produtor de Jornalismo do programa Eleitoral de TV do Governador Camilo Santana (Eleições 2014), Diretor de Comunicação da Prefeitura de Redenção (CE), Assessor de Imprensa do Prefeito de Redenção (CE), Assessor de Imprensa do Sindicato de Atletas de Futebol do Ceará, Repórter Esportivo nas rádios Clube AM 1200 e Cidade AM 860. Trabalhou ainda para a CUFA (Central Única das Favelas). Antes de se mudar para o Ceará, foi Editor de Conteúdo do Portal Webtranspo e repórter na Revista Webtranspo Info, veículos localizados na capital paulista.

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